Ocidente precisaria de US$ 23,6 trilhões para se desvincularse da China

O custo de se afastar é tão alto quanto o custo de permanecer dependente
O Ocidente enfrenta uma equação sem saída fácil na sua tentativa de reduzir a dependência da China.

EUA precisariam investir US$ 13,7 trilhões até 2050; zona do euro, US$ 9,1 trilhões; Reino Unido, US$ 800 bilhões para replicar infraestrutura produtiva chinesa. Mesmo com investimentos maciços, desacoplamento total não eliminaria dependência no curto prazo, pois China controla 60% do lítio e cobalto refinados até 2035 e 80% dos elementos de terras raras.

  • EUA precisariam investir US$ 13,7 trilhões até 2050; zona do euro, US$ 9,1 trilhões; Reino Unido, US$ 800 bilhões
  • China fornecerá mais de 60% do lítio e cobalto refinados do mundo até 2035, além de 80% dos elementos de terras raras
  • Fragmentação comercial global custaria entre US$ 213 bilhões e US$ 307 bilhões anuais
  • Produtos chineses têm vantagem de custo entre 20% e 100% em relação aos concorrentes ocidentais

Estudo da EY-Parthenon revela que reconstruir cadeias produtivas fora da influência chinesa custaria US$ 23,6 trilhões ao Ocidente nos próximos 25 anos, exigindo reconfiguração profunda das prioridades industriais e fiscais.

A conta para o Ocidente se libertar da China é tão astronômica que beira o impossível. Um estudo da consultoria EY-Parthenon divulgado em julho de 2026 coloca um número concreto sobre essa ambição: US$ 23,6 trilhões nos próximos 25 anos. Esse é o investimento que Estados Unidos, União Europeia e Reino Unido precisariam desembolsar para reconstruir cadeias produtivas inteiras — manufatura, tecnologia, pesquisa, infraestrutura, logística — fora da órbita chinesa. Para dimensionar: os EUA sozinhos teriam de gastar US$ 13,7 trilhões até 2050, o que equivale a cerca de US$ 550 bilhões por ano. A zona do euro precisaria de US$ 9,1 trilhões, quase o dobro de seu orçamento anual. O Reino Unido, US$ 800 bilhões.

Mas o desafio não é apenas financeiro. Mesmo com esse investimento colossal, o Ocidente não conseguiria se desvincularse rapidamente da China porque o governo chinês controla as etapas críticas de processamento de minerais essenciais. Segundo a Agência Internacional de Energia, a China fornecerá mais de 60% do lítio e cobalto refinados do mundo até 2035, além de cerca de 80% do grafite de grau de bateria e dos elementos de terras raras — insumos indispensáveis para a transição energética global. Alicia García-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do banco Natixis, é clara: o desafio não é apenas financeiro, é estrutural.

A urgência desse movimento ficou evidente no ano passado, quando a China impôs controles de exportação sobre metais de terras raras em resposta à ameaça do presidente americano Donald Trump de aplicar tarifas de 145% sobre importações chinesas. A reação foi quase imediata: linhas de produção da indústria automobilística nos EUA e na Europa congelaram até que os dois governos concordassem com uma trégua. O episódio expôs a vulnerabilidade ocidental diante da capacidade chinesa de usar sua posição dominante como instrumento de pressão geopolítica.

Há também a questão dos preços. Produtos fabricados na China costumam ter vantagem de custo entre 20% e 100% em relação aos concorrentes ocidentais. A EY-Parthenon estima que reduzir essa dependência elevaria preços e pressionaria a inflação. Na Europa, setores críticos poderiam registrar aumentos de 1% a 2,5%, mantendo o Banco Central Europeu e o Banco da Inglaterra acima de suas metas de inflação de 2% por um período prolongado. Além de reconstruir fábricas e infraestrutura, o Ocidente teria de investir pesadamente em treinamento de trabalhadores e automação industrial para compensar custos mais altos.

Mats Persson, ex-conselheiro do governo britânico e atualmente na EY-Parthenon, resumiu o dilema ao Financial Times: localizar as cadeias de suprimentos sem impor custos proibitivos aos contribuintes e consumidores será um dos desafios mais formidáveis para empresas e governos nos próximos anos. Diante desse cenário, Persson avalia que um desacoplamento parcial é mais realista: empresas precisariam ser seletivas na alocação de recursos, fortalecendo pontos vulneráveis sem tentar replicar integralmente o ecossistema produtivo chinês.

A discussão sobre o chamado decoupling não é nova. Em 2025, a Organização Mundial do Comércio concluiu que uma dissociação comercial total entre EUA e China reduziria o PIB global em 7% no longo prazo. O risco maior seria a fragmentação do sistema comercial em dois blocos: países alinhados aos EUA e países alinhados à China. Um relatório recente do Fórum Econômico Mundial estima que o custo anual dessa fragmentação para a economia global varia entre US$ 213 bilhões e US$ 307 bilhões, equivalente ao PIB de países como Chile ou Finlândia. Além disso, adiciona de 0,2 a 0,3 ponto percentual à inflação global.

A fragmentação já é perceptível. O mundo se divide em três blocos: o Ocidente (EUA, UE, Canadá, Reino Unido, Japão, Coreia do Sul e Austrália), o Oriente (China e Rússia) e um grupo neutro que inclui Brasil, Índia, Indonésia, México, Taiwan e Turquia. Os efeitos são múltiplos: tarifas elevadas encarecem o comércio e redirecionam fluxos para rotas menos eficientes; barreiras regulatórias restringem investimentos e aumentam o custo do capital; a incerteza impede empresas de planejar operações internacionais, levando à redução de investimentos e empregos. Cadeias de suprimentos tornam-se redundantes, com corporações mantendo múltiplos fornecedores em diferentes regiões para evitar interrupções.

O Ocidente, portanto, enfrenta uma equação sem saída fácil: reconstruir sua autonomia industrial exigiria trilhões de dólares, décadas de esforço e uma reorganização profunda de suas economias — tudo isso sem garantia de sucesso completo, já que a China continua a deter vantagens estruturais difíceis de replicar. O custo de se afastar é tão alto quanto o custo de permanecer dependente.

Localizar as cadeias de suprimentos sem impor custos proibitivos aos contribuintes e consumidores será um dos desafios mais formidáveis para empresas e governos nos próximos anos
— Mats Persson, EY-Parthenon
Mesmo com investimentos maciços, o Ocidente não conseguiria se desvincular rapidamente da China, porque o governo chinês controla etapas críticas de processamento de minerais, ingredientes farmacêuticos ativos e outros materiais industriais essenciais
— Alicia García-Herrero, economista-chefe para Ásia-Pacífico do banco Natixis
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que exatamente US$ 23,6 trilhões? Parece um número muito específico para algo tão incerto.

Model

É o custo de replicar a infraestrutura produtiva que a China levou décadas para construir. Não é apenas fábricas — é mineração, processamento, logística, pesquisa. Tudo isso tem um preço.

Inventor

Mas se o Ocidente investisse esse dinheiro, conseguiria se desvincularse da China?

Model

Não completamente, e não rápido. A China controla 60% do lítio refinado que o mundo precisa até 2035. Você não reconstrói isso em cinco anos, mesmo com trilhões.

Inventor

Então qual é a saída realista?

Model

Um desacoplamento parcial. Empresas sendo seletivas, fortalecendo vulnerabilidades críticas em vez de tentar replicar tudo. É menos ambicioso, mas mais viável.

Inventor

E se o Ocidente não fizer nada?

Model

Continua dependente e vulnerável. A China provou que pode usar essa dependência como arma — congelou exportações de terras raras no ano passado e quase parou a indústria automóvel ocidental.

Inventor

Qual é o custo de não fazer nada?

Model

Incerteza permanente, pressão geopolítica contínua, e a impossibilidade de controlar sua própria transição energética. Não é grátis, apenas invisível.

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