Algumas coisas são mais importantes que avaliações pré-IPO
A Anthropic recebeu diretriz para bloquear seus modelos mais avançados para estrangeiros, inclusive funcionários da própria empresa fora dos EUA. O Mythos 5 possui capacidades inéditas para identificar vulnerabilidades de software que poderiam ser exploradas em ataques cibernéticos sofisticados.
- Anthropic recebeu ordem para bloquear Claude Fable 5 e Mythos 5 para todos os estrangeiros, inclusive funcionários da empresa
- Mythos 5 possui capacidades inéditas para identificar vulnerabilidades de software desconhecidas há décadas
- Bloqueio ameaça IPO planejado para segundo semestre com avaliação próxima a US$ 1 trilhão
- Conflito começou quando Anthropic recusou permitir uso de modelos para vigilância doméstica e armas autônomas
Os EUA bloquearam os modelos Claude Fable 5 e Mythos 5 da Anthropic para cidadãos estrangeiros, citando riscos de segurança nacional. O bloqueio marca escalada no conflito entre a empresa e a administração Trump, ameaçando planos de IPO.
Na terça-feira passada, a Anthropic lançou duas versões atualizadas de seu modelo de inteligência artificial Claude. Dias depois, a empresa recebeu uma ordem: bloquear ambas para qualquer pessoa fora dos Estados Unidos. O alcance da restrição é extraordinário. Não se trata apenas de impedir acesso a cidadãos estrangeiros em solo americano. A diretriz abrange funcionários da própria Anthropic que trabalham do exterior, incluindo aqueles em países aliados como Canadá e Reino Unido. O acesso foi cortado temporariamente para todos os clientes enquanto a empresa se adequa à ordem.
Este bloqueio representa o ponto mais agudo de um conflito que vinha se acumulando entre a Anthropic e a administração Trump. No início do ano, negociações fracassaram sobre como o Pentágono e agências de inteligência americana poderiam usar a tecnologia da empresa. Quando a Anthropic se recusou a permitir que seus modelos fossem utilizados para vigilância doméstica e sistemas de armas totalmente autônomos, o Pentágono respondeu incluindo a empresa em uma lista de fornecedores considerados um risco para as cadeias de suprimento — uma classificação que pode limitar drasticamente seus contratos federais quando entrar em vigor ainda este ano. Semanas depois, Trump assinou uma ordem executiva exigindo que sistemas de IA avançados passem por avaliação de até um mês quanto a riscos de segurança nacional antes de serem liberados publicamente.
O timing do bloqueio atual é particularmente prejudicial. A Anthropic apresentou confidencialmente um pedido para abrir capital nos Estados Unidos no mês passado, posicionando-se à frente da rival OpenAI na corrida para acessar mercados públicos. A empresa esperava realizar essa oferta pública inicial no segundo semestre deste ano, com uma avaliação próxima a um trilhão de dólares. Investidores agora enfrentam preocupações crescentes sobre riscos regulatórios e a capacidade da empresa de manter sua vantagem tecnológica diante de restrições governamentais.
A justificativa oficial para o bloqueio centra-se em capacidades que o modelo Mythos 5 — a versão mais avançada — possui. Este modelo foi mantido fora do alcance público desde seu desenvolvimento porque a Anthropic identificou que ele tem habilidades sem precedentes para detectar vulnerabilidades de software. Algumas dessas falhas permaneceram desconhecidas por décadas. Até agora, apenas autoridades americanas e empresas selecionadas tiveram acesso a essa capacidade, usando-a para corrigir brechas de segurança. Mas há receio duradouro de que tal ferramenta nas mãos erradas pudesse se tornar uma arma cibernética devastadora. Especialistas alertam que modelos como o Mythos poderiam acelerar significativamente ataques sofisticados contra setores como o bancário, que dependem de sistemas complexos, interconectados e frequentemente com décadas de idade.
A Anthropic contestou a necessidade do bloqueio. Os testes internos da empresa detectaram apenas um pequeno número de vulnerabilidades já conhecidas, classificadas como menores. A empresa argumenta que, se aplicada amplamente, essa restrição essencialmente impediria que qualquer desenvolvedor de IA de ponta lançasse novos modelos. O Claude é atualmente o modelo de IA mais amplamente utilizado pelo Pentágono e o único desse tipo operando em sistemas do Departamento de Defesa que lidam com informações confidenciais — uma posição que agora está em risco.
Kirsten Davies, diretora de informação do Pentágono, publicou na rede X que o Departamento de Defesa apoia a priorização da segurança nacional acima de outras considerações. "Algumas coisas são simplesmente mais importantes do que ciclos de receita, caça-cliques e avaliações pré-IPO. América em primeiro lugar. Sempre", escreveu. Há uma ironia nessa posição: o diretor-executivo da Anthropic, Dario Amodei, manifestou-se há poucos dias a favor do bloqueio governamental de softwares de IA potencialmente perigosos. A empresa ressalva, porém, que isso deveria ocorrer com base em procedimentos transparentes, critérios claros e fatos técnicos — elementos que, segundo ela, não estão presentes na ordem atual.
O jornal The New York Times descreveu a ordem como incomumente ampla. Ela pode impedir que funcionários-chave da Anthropic utilizem os modelos, incluindo o cofundador Chris Olah, o pesquisador Andrej Karpathy e a filósofa Amanda Askell — todos nascidos fora dos Estados Unidos. Não está claro se possuem cidadania americana ou se estariam sob risco de perder acesso aos sistemas que ajudaram a criar. O conflito entre a Anthropic e a Casa Branca continua escalando, e o resultado pode redefinir não apenas o futuro da empresa, mas também como o governo americano controla a tecnologia de IA mais avançada.
Notable Quotes
Algumas coisas são simplesmente mais importantes do que ciclos de receita, caça-cliques e avaliações pré-IPO. América em primeiro lugar. Sempre.— Kirsten Davies, diretora de informação do Pentágono
A empresa ressalta que bloqueios de IA perigosa devem ocorrer com base em procedimentos transparentes, critérios claros e fatos técnicos — o que, segundo ela, não ocorre no momento.— Posição da Anthropic
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o governo americano bloqueou especificamente esses dois modelos agora, neste momento?
Porque a Anthropic se recusou a fazer o que o Pentágono pediu — permitir que seus modelos fossem usados para vigilância e armas autônomas. Isso criou uma tensão que vinha crescendo. A ordem executiva de Trump sobre avaliação de IA foi o gatilho formal, mas o bloqueio é realmente uma resposta ao "não" que a empresa disse meses atrás.
A empresa diz que o bloqueio é excessivamente amplo. Qual é o argumento dela?
Que os testes internos dela encontraram apenas vulnerabilidades menores. E que se você aplica essa lógica a todos os modelos avançados, nenhum desenvolvedor de IA consegue lançar nada novo. É uma restrição que vai além do que seria tecnicamente justificado pelos riscos reais.
Mas o Mythos 5 realmente pode identificar falhas de software que ninguém conhece há décadas. Isso não é perigoso?
É perigoso em mãos erradas, sim. Por isso a Anthropic manteve o modelo restrito desde o início. Mas a questão é: quem decide o que é "mão errada"? O governo está dizendo que qualquer estrangeiro é uma ameaça, inclusive funcionários da própria empresa em países aliados.
E quanto ao IPO? Isso mata os planos da empresa?
Não mata, mas complica muito. Investidores agora veem risco regulatório real. A empresa estava pronta para abrir capital com avaliação de um trilhão de dólares. Agora há dúvida se consegue manter sua posição tecnológica ou se o governo vai continuar restringindo.
O Pentágono usa Claude para trabalhos confidenciais. Como isso funciona agora?
Fica em limbo. O Claude é o único modelo desse tipo operando em sistemas de defesa que lidam com informações confidenciais. Se a Anthropic não conseguir resolver isso, o Pentágono terá que encontrar alternativa — o que leva tempo e dinheiro.
Dario Amodei, o CEO, disse que apoia bloqueios de IA perigosa. Como ele está reagindo a isso?
Ele apoia a ideia, mas não assim. Quer procedimentos transparentes, critérios claros, fatos técnicos. O que está acontecendo agora, segundo ele, é opaco e baseado em política, não em segurança real.