Ganhar semanas pode fazer a diferença entre um surto contido e uma pandemia devastadora
Todos os anos surgem novos vírus em humanos, mas apenas alguns têm potencial para pandemias globais como VIH-1 e SARS-CoV-2. O risco maior vem de vírus que já circulam entre pessoas e podem tornar-se mais transmissíveis, como variantes do SARS-CoV-2.
- Cientistas identificam anualmente dois a três vírus novos em humanos
- Apenas 239 vírus de RNA são conhecidos por infetar humanos, mas podem existir milhões
- O SARS-CoV-2 foi identificado em 2020 e desencadeou a pandemia da Covid-19
- Dois terços dos vírus analisados têm transmissão entre humanos muito improvável
- O ebolavírus Zaire causou epidemia de grande escala na África Ocidental em 2014
Cientistas identificam anualmente dois a três vírus novos em humanos. Especialistas alertam que o próximo vírus pandémico pode já estar a circular, sendo crucial detectá-lo antes que se torne uma crise global.
A cada ano que passa, os laboratórios do mundo inteiro identificam cerca de dois ou três vírus que nunca antes tinham infetado seres humanos. A maioria deles desaparece tão discretamente quanto chegou, confinada a artigos científicos que poucos leem, esquecida nos arquivos da história médica. Mas nem sempre é assim. O VIH-1, descoberto em 1983, abriu as portas a uma das maiores crises sanitárias do século XX. O SARS-CoV-2, identificado em 2020, paralisou o planeta inteiro. A questão que paira sobre a comunidade científica é perturbadora na sua simplicidade: quando o próximo vírus desconhecido aparecer num consultório ou numa sala de emergência — algo que pode ocorrer em questão de semanas — como saberemos se estamos perante uma curiosidade biológica ou diante de uma ameaça capaz de desencadear uma crise global?
Mark Woolhouse, epidemiologista da Universidade de Edimburgo, tem dedicado anos a tentar responder a esta pergunta. A sua investigação revela que as pandemias mais perigosas das últimas décadas têm origem em vírus com genoma de RNA. Milhares de espécies deste tipo já foram catalogadas, e os cientistas suspeitam que possam existir milhões no total. Contudo, apenas 239 são conhecidas por infetar humanos. Woolhouse e a sua equipa criaram recentemente um catálogo destinado a identificar quais destes vírus merecem vigilância mais intensa, tentando antecipar qual será o próximo a saltar para a população humana.
Mas nem todo o vírus perigoso consegue transformar-se numa pandemia. Para isso, é necessário que o agente patogénico consiga propagar-se de pessoa para pessoa — através do contacto físico, de partículas suspensas no ar, de sangue, de fezes, ou através de vetores como mosquitos e carraças. Quando Woolhouse analisou os vírus conhecidos, descobriu algo tranquilizador: em cerca de dois terços dos casos, a transmissão entre humanos é extremamente improvável. Estes são vírus zoonóticos, que chegam aos humanos principalmente a partir de animais. A raiva é um exemplo clássico: causa dezenas de milhares de infeções humanas todos os anos, mas nunca conseguiu estabelecer uma cadeia de transmissão sustentada entre pessoas. Apesar das preocupações constantes com a gripe das aves, não existe qualquer registo documentado de um vírus de RNA zoonótico que tenha adquirido essa capacidade de transmissão humana prolongada.
O verdadeiro perigo reside noutro grupo: vírus que já conseguem circular entre pessoas e que podem evoluir para se tornarem ainda mais transmissíveis. O SARS-CoV-2 é o exemplo mais recente e mais claro. As suas variantes sucessivas demonstraram como um vírus pode adaptar-se rapidamente, tornando-se mais contagioso com cada geração. Outros vírus seguiram este caminho em tempos mais remotos — os agentes causadores do sarampo, da papeira, da rubéola, das constipações comuns e de infeções gastrointestinais. Todos começaram como ameaças desconhecidas e tornaram-se parte da paisagem epidemiológica humana.
Há ainda uma terceira categoria: vírus que conseguem transmitir-se entre humanos, mas que até agora apenas provocaram surtos limitados e geograficamente circunscritos. O motivo está num conceito epidemiológico chamado número R — se cada pessoa infetada transmite o vírus a apenas algumas outras pessoas, a cadeia de transmissão acaba por se extinguir naturalmente. Mas este número pode mudar dramaticamente quando o contexto muda. Um vírus confinado a aldeias remotas pode ganhar uma dimensão completamente diferente quando chega a uma cidade grande, com milhões de pessoas em contacto próximo. O ebolavírus Zaire na África Ocidental em 2014 demonstrou exatamente isto: um vírus que havia circulado durante décadas em populações pequenas e dispersas transformou-se numa epidemia de grande escala quando as condições epidemiológicas se alteraram.
Woolhouse mantém uma lista de vírus com potencial para surtos significativos, e essa lista tem-se revelado um indicador notavelmente preciso de futuras emergências de saúde pública. Nela figuravam o ebolavírus Zaire, os vírus chikungunya, zika e oropouche transmitidos por insetos, e a mpox. Todos eles acabaram por estar associados a epidemias de grande escala. Mais recentemente, nomes menos conhecidos começaram a ganhar atenção: o hantavírus Andes, associado a um surto num navio de cruzeiro, ou o ebolavírus Bundibugyo, que circula na África Central. Nenhum deles apresenta, segundo Woolhouse, o perfil típico de um vírus capaz de desencadear uma pandemia global. Mas todos recordam uma vulnerabilidade recorrente: muitas vezes, os vírus já circulam há semanas antes de serem detetados.
A Covid-19 exemplifica perfeitamente este problema. Um ano antes da pandemia, a Organização Mundial da Saúde tinha identificado um coronavírus semelhante ao da SARS como candidato provável à chamada "doença X" — o termo usado para designar uma futura ameaça ainda desconhecida. Quando o SARS-CoV-2 surgiu, a comunidade científica reconheceu imediatamente o que estava a acontecer: não era um vírus qualquer, era precisamente o tipo de ameaça que já se procurava. O cenário mais preocupante que Woolhouse consegue imaginar seria o aparecimento de um novo vírus aparentado com o sarampo — a combinação entre novidade absoluta, elevada transmissibilidade e circulação humana poderia criar uma emergência global potencialmente mais grave do que a Covid-19.
A lição fundamental é clara: o mundo não precisa apenas de descobrir novos vírus. Precisa de os detetar mais cedo, de compreender rapidamente como se transmitem, e de avaliar se têm capacidade para escapar ao controlo local. Ganhar semanas pode fazer a diferença entre um surto contido numa região e uma pandemia com impacto profundo em vidas humanas, sistemas de saúde e economias globais.
Notable Quotes
Não há exemplo documentado de um vírus de RNA zoonótico que tenha adquirido capacidade sustentada de transmissão entre humanos— Mark Woolhouse, epidemiologista da Universidade de Edimburgo
O cenário mais preocupante seria o aparecimento de um novo vírus aparentado com o sarampo, potencialmente mais grave do que a Covid-19— Mark Woolhouse
The Hearth Conversation Another angle on the story
Porque é que a detecção precoce é tão crítica se a maioria dos vírus novos nunca se torna numa ameaça?
Porque o tempo é o fator que separa um surto de uma pandemia. Se conseguirmos identificar um vírus perigoso nas primeiras semanas, ainda temos oportunidade de implementar medidas de contenção. Se ele já circula há meses sem ser detetado, a janela de oportunidade fecha-se rapidamente.
Mas como é que os cientistas conseguem prever qual dos milhares de vírus será o próximo a causar uma crise global?
Não conseguem prever com certeza. Mas conseguem identificar padrões. Procuram vírus que já circulam entre humanos, que conseguem transmitir-se facilmente, e que têm semelhança com outros vírus que sabemos serem perigosos. É como procurar uma agulha numa palheta, mas com um mapa.
O SARS-CoV-2 foi uma surpresa ou os cientistas já o esperavam?
Esperavam algo semelhante, mas não aquele vírus específico. A OMS tinha apontado um coronavírus tipo SARS como candidato provável. Quando a Covid-19 surgiu, reconheceram imediatamente o padrão. Mas isso não os ajudou a evitar a pandemia — apenas a compreender mais rapidamente o que estava a acontecer.
E se um vírus novo surgisse amanhã? Estaríamos preparados?
Melhor do que estávamos em 2019, mas ainda não o suficiente. Temos sistemas de vigilância melhores, conhecimento mais profundo de como os vírus evoluem. Mas o verdadeiro desafio é a velocidade — conseguir detetar, sequenciar, analisar e comunicar tudo isto antes que o vírus se espalhe demasiado.
Qual é o cenário que mais preocupa os epidemiologistas?
Um vírus novo com a transmissibilidade do sarampo. O sarampo é extraordinariamente contagioso — uma pessoa infetada pode transmitir a mais de uma dúzia de outras. Se um vírus completamente novo tivesse essa capacidade, combinado com a capacidade de se transmitir entre humanos, seria potencialmente mais devastador do que a Covid-19.
Então estamos à espera de uma bomba-relógio?
Não é bem assim. Estamos à espera de algo que pode ou não acontecer. Mas quando acontecer — e a história sugere que acontecerá — o tempo que levamos a detectá-lo será a diferença entre uma crise controlada e uma catástrofe global.