Uma colunista da Folha, a escritora Giovana Madalosso, reflete sobre algo que muitos artistas sentem sem saber nomear: romances escritos com fervor parecem, por vezes, antecipar a vida de quem os escreve. Ao narrar seus próprios livros e os de uma colega, ela sugere que essas coincidências não são profecias, mas o efeito de um mergulho profundo no inconsciente, que traz à superfície desejos que já habitavam silenciosamente a pessoa. Trata-se de uma reflexão íntima, que une a memória de quem escreve à velha suspeita humana de que a arte conhece caminhos que a razão ainda não percorreu.
O poder oracular da literatura: quando o romance antecipa a vida do autor
Tal qual um ímã, a escrita traz à superfície desejos que o autor nem sabia ter
Qual é a ideia central da coluna de Giovana Madalosso?
Que escrever um romance longo parece antecipar fatos da vida do autor. Ela chama isso de poder oracular do romance, mas explica pelo inconsciente, não por mágica.
Quais são os exemplos que ela dá?
A mudança de São Paulo para Curitiba enquanto escrevia "Batida Só", a ida da colega Jeovanna Vieira a Dubai depois de escrever uma narradora que vive lá, e a visão com borboletas azuis antes de "Suíte Tóquio".
Convém separar os planos. Tudo isso são relatos da própria autora; não há dado independente. A visão com Ayahuasca e o sucesso do livro, por exemplo, ela mesma liga, mas o texto não traz números de vendas.
É verdade, e ela não pretende provar nada. Ela diz que não vê bola de cristal, e sim um ímã que traz à tona desejos que o autor ainda não sabia ter.
E o caso de Jeovanna?
É o mais impressionante: ela escreveu sobre uma pilota da Emirates sem plano de sair do Rio, e meses depois, após a proposta de trabalho ao marido, mudou-se para Dubai. Madalosso o trata como grande coincidência.
Ela mesma o separa dos outros. Nos demais casos, a explicação do inconsciente é uma interpretação, não algo confirmado. Ninguém pode checar o que havia latente nela.
Então qual é o valor do texto?
Mostra como uma autora entende o próprio ofício: o romance como ralo, na imagem de Rosa Montero, que puxa a vida para o centro e devolve algum autoconhecimento.
O Pulso
- Uma mudança de cidade surge na ficção antes de se tornar real: a autora deixa São Paulo rumo a Curitiba, exatamente como sua protagonista.
- A colega Jeovanna Vieira vê seu romance sobre uma pilota de Dubai se converter em realidade, com o marido recebendo uma proposta para dar aulas nos Emirados.
- Madalosso começa a escrever 'Suíte Tóquio' hesitante, até uma visão de borboletas azuis prometer leitoras e um sucesso que se confirma.
- A explicação proposta é o inconsciente, não a premonição, mas tudo permanece no campo da experiência pessoal, sem dados verificáveis.
Uma colunista da Folha, a escritora Giovana Madalosso, reflete sobre algo que muitos artistas sentem sem saber nomear: romances escritos com fervor parecem, por vezes, antecipar a vida de quem os escreve. Ao narrar seus próprios livros e os de uma colega, ela sugere que essas coincidências não são profecias, mas o efeito de um mergulho profundo no inconsciente, que traz à superfície desejos que já habitavam silenciosamente a pessoa. Trata-se de uma reflexão íntima, que une a memória de quem escreve à velha suspeita humana de que a arte conhece caminhos que a razão ainda não percorreu.
A escritora Giovana Madalosso abre sua coluna na Folha com um ditado espanhol sobre bruxas e começa a contar uma observação que a acompanha há anos: escrever um romance parece antecipar acontecimentos. Ela chama isso de poder oracular do romance.
O primeiro exemplo está em "Batida Só". A protagonista deixa uma cidade grande e volta à menor onde cresceu. Quando Madalosso escrevia essa parte, deixou São Paulo para morar em Curitiba, onde vivem seus familiares. Autora e personagem se encontraram no mesmo caminho, sem que ela tivesse planejado.
O caso da colega Jeovanna Vieira é ainda mais intenso. Em "Toda Caixa Preta é Laranja", a narradora é uma pilota da Emirates que vive em Dubai, escolha feita apenas pela potência dos Airbuses. Com o livro quase pronto, o marido de Jeovanna recebeu uma proposta para dar aulas nos Emirados, e meses depois ela embarcava num Airbus rumo à cidade da própria narradora.
Já em "Suíte Tóquio", a antecipação aconteceu fora da trama. Insegura, a autora teve uma visão com borboletas azuis disputando espaço sobre o livro, interpretadas como leitoras. A capa trouxe uma borboleta sobre fundo azul, e o livro se tornou seu maior sucesso.
Madalosso não fala em bola de cristal. Para ela, o romance nasce de um acesso profundo ao inconsciente, que traz à tona desejos que já estavam latentes. Cita Rosa Montero, para quem o romance é um ralo que puxa para o centro tudo o que cerca o escritor. O texto, porém, é uma reflexão pessoal, sem dados verificáveis de forma independente.
A escritora Giovana Madalosso abre sua coluna na Folha com um ditado espanhol: não acredita em bruxas, mas que elas existem, existem. A frase serve de porta de entrada para uma observação que, segundo ela, a acompanha há anos: a escrita longa de um romance parece antecipar acontecimentos e assuntos. Ela chama isso de "poder oracular do romance", uma força premonitória que diz ter visto surgir quando o trabalho estava em movimento.
O primeiro exemplo vem de "Batida Só". Na história, a protagonista deixa uma cidade grande e se muda para uma menor, onde cresceu e onde moravam seus pais. Quando Madalosso começava a escrever justamente essa parte, um acontecimento a fez deixar São Paulo e se mudar para Curitiba, a cidade onde ela própria cresceu e onde vivem seus familiares. Sem que tivesse planejado, a trajetória da autora e a da personagem se entrelaçaram. A coincidência lhe deu material para escrever e, ao mesmo tempo, um campo ficcional para exercitar impactos e frustrações.
O caso da colega Jeovanna Vieira é, na avaliação da colunista, ainda mais intenso. O romance "Toda Caixa Preta é Laranja" tem como narradora uma pilota da Emirates que vive em Dubai. Quando escreveu o livro, Jeovanna morava no Rio de Janeiro e não tinha perspectiva alguma de se mudar de país; a escolha da companhia aérea se deu apenas pela potência dos Airbuses. Com a história já criada e quase toda escrita, o marido dela, professor de jiu-jítsu, recebeu uma proposta inesperada: dar aula nos Emirados Árabes. Meses depois, a autora embarcava num Airbus da Emirates rumo à cidade onde mora sua narradora.
Em "Suíte Tóquio", a antecipação aconteceu fora da narrativa. Madalosso começava a escrever, insegura quanto à história e temendo que ficasse ruim, quando consagrou Ayahuasca e teve uma visão: o livro aparecia coberto por dezenas de borboletas azuis, que disputavam espaço para pousar sobre ele. Ela interpretou os insetos como leitoras, um sinal de que a obra faria sucesso entre o público feminino.
O trabalho avançou. Quando o romance ficou pronto, a sugestão de capa que recebeu trazia uma borboleta sobre fundo azul. Segundo a autora, porém, o mais certeiro foi o êxito: "Suíte Tóquio" é seu livro de maior sucesso, com grande número de leitoras no Brasil e em outros países.
Madalosso, no entanto, não trata esses episódios como premonições de bola de cristal, "bruxaria" literal. Ela abre exceção ao caso de Jeovanna, que também atribui a uma enorme coincidência. Para os demais, a explicação é outra: o romance nasce de um acesso profundo e fluido ao inconsciente, que, como um ímã, traz à superfície desejos e percepções que o autor nem sabia ter. Talvez já existisse nela, latente, o desejo de voltar a Curitiba, despertado pelo acontecimento. E provavelmente, ao consagrar Ayahuasca, ela já soubesse, em algum canto do cérebro, que tinha nas mãos uma ideia de grande potencial narrativo.
A colunista cita ainda Rosa Montero, que descreve o romance como um ralo, capaz de puxar para o centro tudo o que cerca a vida do escritor. Dessa força centrípeta, escreve Madalosso, saem magia, mistério e algum autoconhecimento, uma compensação para um trabalho árduo e, muitas vezes, pouco reconhecido. O texto é uma reflexão pessoal, baseada em relatos da própria autora, sem dados que possam ser verificados de forma independente.
Citações Notáveis
O romance é como um ralo que puxa tudo o que está ao redor da vida do escritor para o seu centro.— Rosa Montero, citada por Giovana Madalosso