O olival moderno: aliado inesperado no combate às alterações climáticas

Nada sai de um lagar que não tenha uma segunda vida
Gonçalo Moreira descreve a economia circular completa que transformou resíduos em produtos de valor comercial.

O olival moderno português é o mais produtivo do mundo em azeite por hectare e consegue reter entre 1,5 a 15 toneladas de CO₂ por hectare anualmente, dependendo do tipo de cultivo. A gestão moderna utiliza sensores, satélites e drones para otimizar a rega e nutrientes, tornando o olival a cultura permanente que menos água consome em Portugal, contrariando mitos sobre desperdício hídrico.

  • O olival português retém 2,6 milhões de toneladas de CO₂ por ano
  • Representa 38% das emissões agrícolas nacionais e 4% do total de emissões de Portugal
  • Olival moderno retém entre 1,5 a 15 toneladas de CO₂ por hectare anualmente
  • Portugal foi o país mais produtivo do mundo em azeite por hectare em 2024
  • É a cultura permanente que menos água consome em Portugal

Gonçalo Moreira, gestor da Olivum, revela que o olival moderno português retém 2,6 milhões de toneladas de CO₂ anuais, representando 38% das emissões agrícolas nacionais e funcionando como barreira verde contra a desertificação.

Quando se atravessa o Alentejo ou o sul do país, é impossível não reparar nas fileiras intermináveis de oliveiras que cobrem a paisagem. Nos últimos anos, o olival moderno tornou-se alvo de crítica pública — acusado de consumir demasiada água, de desfigurar a paisagem, de esgotar o solo. Mas Gonçalo Moreira, gestor da Olivum, apresenta uma perspetiva radicalmente diferente: o olival moderno português é, na verdade, uma das ferramentas mais eficazes que temos para combater as alterações climáticas.

Portugal chegou a ser o país número um do mundo em capacidade de produção de olival moderno, tecnologia importada de Espanha que transformou completamente a forma como se gere estas culturas. Embora já não seja o maior em área — o país é pequeno demais para isso — mantém uma capacidade produtiva extraordinária. Em 2024, os olivais portugueses foram os mais produtivos do mundo em quantidade de azeite por hectare, e simultaneamente os de maior qualidade. Estes números refletem uma revolução silenciosa na agricultura portuguesa que poucos conhecem.

A capacidade de retenção de carbono é o argumento central. A totalidade dos olivais em Portugal consegue reter aproximadamente 2,6 milhões de toneladas de CO₂ por ano — o equivalente a 38% de todas as emissões de carbono da agricultura nacional e 4% do total de emissões de Portugal em todas as atividades económicas. Estes não são números negligenciáveis. O olival tradicional retém cerca de 1,5 toneladas de CO₂ por hectare anualmente, mas o olival moderno pode chegar a 15 toneladas por hectare. A diferença reside na forma como se cultiva: uma árvore de folha perene que faz fotossíntese durante todo o ano, um solo que não é revolvido (o que preserva a matéria orgânica e a humidade), e a presença de cobertura vegetal nas entrelinhas. Cada vez que se revira o solo para plantar culturas anuais, perde-se humidade, mineraliza-se a matéria orgânica e liberta-se carbono. O olival moderno evita isto.

A questão da água, porém, é onde o mito mais persiste. Jovens e ambientalistas questionam se Portugal está a secar-se para produzir azeite. A realidade é outra. A oliveira é uma planta originária do clima mediterrânico, naturalmente adaptada ao sequeiro — não precisa de rega para produzir, apenas produz menos sem ela. Mas a rega moderna não é feita «a olho». Sensores de humidade no solo a diferentes profundidades, imagens de satélite, drones e análise de dados permitem aos produtores saber exatamente quanto de água cada planta necessita em cada momento. O olival moderno é, de facto, a cultura permanente que menos água consome em Portugal. A água tem custo, e nenhum agricultor está disposto a desperdiçá-la. Além disso, quando se rega, frequentemente incorpora-se também nutrientes através da fertirregua — tudo medido, tudo ajustado ao ciclo de desenvolvimento da planta.

Mas talvez o aspeto mais impressionante seja a economia circular que se desenvolveu em torno da produção de azeite. Nada sai de um lagar ou de um olival sem uma segunda vida. O bagaço — o resíduo da extração — transforma-se em biogás, em composto para devolver ao solo, ou em energia. O caroço da azeitona, durante anos considerado um resíduo, é agora uma das biomassas com maior poder calorífico e é exportado. As folhas servem para produção de papel e extração de biomoléculas. As águas residuais dos lagares são recicladas na rega. Biomoléculas extraídas destas águas alimentam a indústria cosmética e farmacêutica. Em Espanha, plásticos de automóveis Ford incorporam bioplásticos feitos a partir do caroço de azeitona. Em Portugal, já existem sacos plásticos com a mesma origem. Em Barcelona, preparam-se para incorporar caroço de azeitona no alcatrão das estradas.

Esta transformação abriu portas a carreiras que vão muito além da agronomia tradicional. O setor precisa agora de analistas de dados, operadores de drones, técnicos de sensorização, especialistas em qualidade, engenheiros de energia, comunicadores. Os olivais modernos geram volumes brutais de dados — às vezes mais do que alguns escritórios em Lisboa. As máquinas de colheita são computadores sofisticados, os tratamentos fazem-se com drones, a monitorização é feita por satélite. Quando escolas visitam estes espaços, professores e alunos saem impressionados — a imagem que encontram nos livros escolares, onde o agricultor é sempre um poluidor ou um homem com uma vara a bater numa árvore, não corresponde à realidade que veem.

O desafio agora é comunicar isto. A agricultura portuguesa evoluiu, produz bem, é sustentável — mas comunica mal. Profissionais de comunicação começam a perceber que existe aqui um nicho de mercado e uma história com muito para contar. Quando Gonçalo Moreira fala do futuro, não fala apenas de tecnologia ou de números. Fala de um setor que aprendeu a ver problemas como oportunidades, que transformou resíduos em produtos de valor, que usa a inovação para proteger o planeta enquanto alimenta as pessoas. A próxima vez que se tempera uma salada com azeite português, há uma boa chance de se estar a consumir um produto que ajudou a limpar o ar do planeta.

O olival moderno tem uma capacidade de captação e retenção de carbono assinalável, funcionando como uma barreira verde contra a desertificação
— Gonçalo Moreira, gestor da Olivum
Não há nada que saia hoje em dia de dentro de um lagar ou de um olival que não tenha uma circularidade, uma segunda vida
— Gonçalo Moreira, gestor da Olivum
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Quando diz que o olival moderno retém carbono, está a falar de um processo passivo ou há algo que os agricultores fazem ativamente para potenciar isto?

Model

É principalmente passivo, mas com decisões ativas que o potenciam. A árvore faz fotossíntese naturalmente o ano inteiro porque é de folha perene. Mas o agricultor moderno potencia isto ao não revirar o solo — cada revolvimento liberta carbono acumulado. Mantém cobertura vegetal, usa sensores para perceber o que a planta precisa. É como criar as condições ideais para que a retenção aconteça.

Inventor

Há quanto tempo é que esta transformação começou em Portugal?

Model

A tecnologia foi importada de Espanha há alguns anos, mas acelerou muito na última década. O que é interessante é que não foi uma mudança imposta — foi uma resposta a desafios económicos. Quando limitaram as extratoras de bagaço, os lagares tiveram que inovar e transformar resíduos em oportunidades. A sustentabilidade surgiu como consequência de boas decisões de negócio.

Inventor

Mas se o olival moderno é tão eficiente, porque é que ainda existe tanta resistência pública?

Model

Porque as pessoas não veem. Os livros escolares mostram um agricultor com uma vara. Os media mostram conflitos sobre água. Ninguém mostra drones a monitorizar plantas ou satélites a medir hidratação. Quando as escolas vêm, saem chocadas — a realidade é completamente diferente daquilo que imaginavam.

Inventor

A questão da água continua a ser sensível. Como é que explicaria a um ambientalista que o olival não está a secar o país?

Model

Primeiro, a oliveira não precisa de rega para existir — é uma planta de sequeiro. Segundo, quando se rega, usa-se a quantidade mínima necessária, medida com sensores. Terceiro, é a cultura permanente que menos água consome em Portugal. Mas o ponto mais importante é este: o agricultor não incorpora água nos alimentos por desperdício, incorpora porque é necessário para produzir. Um tomate é 95% água — ninguém acusa o tomate de secar o país.

Inventor

E quanto ao futuro? Que tipo de profissional é que o setor precisa daqui para a frente?

Model

Tudo menos apenas agronomia. Precisamos de analistas de dados, operadores de drones, especialistas em sensorização, comunicadores. O olival moderno é uma indústria de tecnologia disfarçada de agricultura. Os desafios são de engenharia, de análise, de inovação. É por isso que universidades de informática e comunicação começam a enviar alunos para o setor — perceberam que isto é o futuro.

Contact Us FAQ