No Brasil de 2024, enquanto o sistema público de saúde permanecia distante de milhões, um círculo próximo ao poder presidencial articulava a venda de 1,2 milhão de frascos de canabidiol ao governo federal por R$ 626 milhões — sem licitação, sem transparência, e com a cumplicidade de quem guardava a porta do presidente. O filho do presidente, sua advogada, um empresário ligado a fraudes previdenciárias e o chefe de gabinete do Palácio formavam o núcleo de um plano que confundia interesse privado com acesso público. O negócio nunca se consumou, mas os rastros digitais encontrados pela Polícia Fe
O fator Lulinha na reta final: negócio de canabidiol sem licitação
Trabalho pra caralho e nunca dá em nada
Por que esse negócio do canabidiol importa? Parece um esquema entre amigos.
Porque envolve R$ 626 milhões de dinheiro público e mostra como a proximidade com o poder pode abrir portas que não deveriam estar abertas. Sem licitação, sem transparência.
E o Marcola, o chefe de gabinete? Qual era exatamente seu papel?
Ele era o intermediário dentro do palácio. Recebia a minuta do contrato, conhecia o plano. A advogada até explicava para ele como contornar a licitação invocando emergência.
O Careca do INSS — como um cara envolvido em fraudes na Previdência consegue chegar tão perto do filho do presidente?
Através da advogada Luchsinger, que era amiga de Lulinha e do Marcola. Ela era a ponte. E ela estava financiando tudo — as viagens, os hotéis, os empréstimos.
Nada foi comprado no final. Então qual é o crime aqui?
O crime é a tentativa. Os documentos mostram conspiração para contornar processos licitatórios. A Polícia Federal encontrou tudo nos celulares deles.
Lulinha reclama que trabalha muito e nada dá certo. Isso é irônico?
Muito. Ele estava trabalhando para fazer esse negócio dar certo. Quando finalmente parecia que ia funcionar, tudo desabou.
The Pulse
- Um esquema de R$ 626 milhões para vender canabidiol ao SUS sem licitação foi articulado por pessoas diretamente ligadas ao presidente Lula, incluindo seu filho e seu chefe de gabinete.
- A advogada Roberta Luchsinger propunha fabricar um 'cenário de emergência' para justificar a dispensa de licitação, explorando brechas da nova lei de compras públicas.
- O empresário conhecido como Careca do INSS — posteriormente associado a R$ 53,5 milhões desviados da Previdência — financiou viagens, passagens e diárias dos envolvidos, além de montar empresa em Portugal para fornecimento dos frascos.
- O chefe de gabinete do presidente, Marcola, era destinatário da minuta do contrato e havia recebido empréstimo de R$ 249 mil da mesma advogada que coordenava o esquema.
- A Polícia Federal encontrou os documentos nos celulares dos envolvidos; nenhum frasco foi comprado, mas a crise eclodiu a um mês das eleições, com Lulinha vivendo na Espanha e sua defesa admitindo que ele pode retornar para prestar esclarecimentos.
No Brasil de 2024, enquanto o sistema público de saúde permanecia distante de milhões, um círculo próximo ao poder presidencial articulava a venda de 1,2 milhão de frascos de canabidiol ao governo federal por R$ 626 milhões — sem licitação, sem transparência, e com a cumplicidade de quem guardava a porta do presidente. O filho do presidente, sua advogada, um empresário ligado a fraudes previdenciárias e o chefe de gabinete do Palácio formavam o núcleo de um plano que confundia interesse privado com acesso público. O negócio nunca se consumou, mas os rastros digitais encontrados pela Polícia Federal revelam com que naturalidade o poder e o privilégio se entrelaçam quando a vigilância parece adormecida.
Em março de 2024, Lulinha desabafava com sua advogada que trabalhava muito e nada dava certo. Meses depois, investigações revelaram que ele estava no centro de um plano para vender 1,2 milhão de frascos de canabidiol ao governo federal por R$ 626 milhões — sem qualquer processo licitatório.
O esquema reunia três figuras centrais: Roberta Luchsinger, advogada de confiança de Lulinha; Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, empresário posteriormente associado a R$ 53,5 milhões desviados de entidades ligadas à Previdência; e Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete do presidente Lula. A advogada havia emprestado R$ 249 mil ao Marcola, dívida que ele quitou. Ele era também o destinatário da minuta do contrato encontrada nos celulares dos envolvidos pela Polícia Federal.
Luchsinger estava eufórica. Dizia que o nível deles era outro e que o futuro era a Suíça. Em janeiro de 2025, pagou uma viagem de Lulinha e família à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal. Em novembro de 2024, Lulinha e o Careca viajaram juntos a Lisboa — em assentos separados — para prospectar fornecedores portugueses. O Careca bancou tudo e depois montou uma empresa no Porto, comprando um galpão por 2,7 milhões de euros.
Havia um obstáculo central: o canabidiol não integra o rol de medicamentos do SUS, e incluí-lo exigiria licitação. A solução proposta pela advogada era criar um documento invocando emergência sanitária para dispensar o processo — uma brecha prevista na nova lei de licitações. As mensagens também mencionavam visitas a Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde, com tom de familiaridade.
No fim, nenhum frasco foi comprado. O plano desmoronou antes de se concretizar, mas seus rastros digitais sobreviveram. A crise estourou a um mês das eleições. Lulinha, que reclamava de trabalhar sem resultado, agora enfrenta investigações federais enquanto vive na Espanha há mais de um ano.
Em março de 2024, o filho do presidente reclamava com sua advogada que trabalhava muito e nada dava certo. Poucos meses depois, descobriu-se que ele estava envolvido num esquema para vender ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de medicamentos à base de canabidiol. O negócio movimentaria R$ 626 milhões.
O plano envolvia três personagens principais. Havia Roberta Luchsinger, a advogada de confiança de Lulinha. Havia Antonio Carlos Camilo Antunes, conhecido como Careca do INSS, um empresário que mais tarde seria revelado ter recebido R$ 53,5 milhões de entidades envolvidas em roubos contra segurados da Previdência. E havia Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, chefe de gabinete do presidente e guardião da porta de Lula. A advogada havia emprestado R$ 249 mil ao Marcola, que depois quitou a dívida.
O contexto em que esse negócio germinou era de uma série de operações que pareciam normais e legais, mas que deixavam um rastro questionável. Em 2023, a J&F dos irmãos Batista havia contratado um parecer de Ricardo Lewandowski logo após sua aposentadoria do Supremo e antes de se tornar ministro da Justiça. Em 2024, um banqueiro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes por R$ 3,6 milhões mensais durante três anos. No mesmo ano, o ministro Dias Toffoli suspendeu multas devidas pela Odebrecht. Dias depois, mandou investigar uma ONG de transparência. Nesse cenário, o negócio do canabidiol parecia apenas mais um passo.
A advogada Luchsinger estava eufórica com as perspectivas. Dizia que o nível deles era outro, que o futuro era a Suíça, que poucos negócios eram tão bons. Em janeiro de 2025, ela pagou uma viagem de Lulinha e sua família à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal, organizada por uma especialista em viagens de luxo. Em novembro de 2024, Lulinha e o Careca embarcaram juntos num voo para Lisboa, em assentos separados, com o objetivo de prospectar empresas portuguesas para o fornecimento dos frascos. O Careca pagou as passagens e as diárias. Depois, montou uma empresa em Porto e comprou um galpão por 2,7 milhões de euros.
Em dezembro de 2025, um ex-funcionário do Careca revelou que Lulinha recebia uma mesada de R$ 300 mil do patrão, que se referia a ele como filho do rapaz. Mas havia um problema fundamental no plano: o canabidiol não estava no rol de medicamentos do SUS. Para incluí-lo seria necessário passar por um processo de licitação, algo que não é fácil de contornar. A advogada, porém, tinha uma solução. Mensagens encontradas pela Polícia Federal nos celulares de Luchsinger e do Careca mostravam uma minuta de contrato e um plano de negócio. Nelas, a advogada explicava que era possível criar um documento robusto pedindo a dispensa de licitação, invocando um cenário de emergência previsto na nova lei de licitações.
O destinatário da minuta era o Marcola. Havia também uma conexão com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo do Ministério da Saúde, um quadro histórico do partido do presidente. Mensagens entre Lulinha e a advogada mencionavam visitas a Barbosa, com tom de familiaridade.
No final, nenhum frasco de canabidiol foi comprado. A cobiça e a soberba palaciana explodiram numa crise a um mês das eleições. Lulinha, que se queixava de trabalhar muito sem resultado, agora enfrenta investigações da Polícia Federal. Ele vive na Espanha há mais de um ano. Sua defesa admitiu que ele pode vir ao Brasil para prestar esclarecimentos, algo que poderia ter sido feito meses antes.
Notable Quotes
Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom. Esse povo aqui tá em outra vibe— Roberta Luchsinger, advogada, em mensagens sobre o negócio
É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação— Roberta Luchsinger, explicando como contornar o processo licitatório