Em um dia comum, a escritora Tati Bernardi buscava apenas entretenimento leve nas redes sociais — e encontrou, em vez disso, o mecanismo preciso pelo qual plataformas como o Instagram transformam a atenção humana em combustível para a raiva. O episódio revela algo mais amplo do que uma experiência pessoal: é o retrato de um design deliberadamente construído para explorar vulnerabilidades emocionais, mantendo usuários presos em ciclos de conflito e engajamento tóxico. A resistência, conclui ela, exige mais do que boas intenções — exige consciência, leitura crítica e, às vezes, uma bênção.
O demônio do meio-dia e meia: quando o algoritmo nos convida à raiva
O algoritmo sabe que você sabe. Mesmo assim funciona.
Você está dizendo que o Instagram deliberadamente recomenda conteúdo de pessoas que você bloqueou?
Exatamente. Não é um bug, é a lógica do sistema. Quanto mais você se irrita, mais você clica, mais tempo passa lá. O bloqueio não interrompe nada — estimula.
Mas como você sabe que é deliberado e não apenas um efeito colateral do algoritmo otimizar para engajamento?
Porque o padrão é muito consistente. Toda vez que bloqueio alguém, aquela pessoa aparece mais. Não é coincidência.
E você reconhece isso acontecendo enquanto está acontecendo?
Sim. Li os livros, conheço a mecânica. Mas o conhecimento não te protege. O algoritmo sabe que você sabe. Mesmo assim funciona.
Então o problema não é ignorância, é que a plataforma é mais forte que a consciência crítica?
É. A plataforma apela para algo mais profundo que a razão. Para a raiva, para a história das minhas avós, para o que está no meu fígado.
E a benzedeira no final — isso é ironia ou é de verdade?
De verdade. É a única coisa que funciona. Não é irracional. É reconhecer que existe uma força tentando te possuir e você precisa de proteção.
El Pulso
- O algoritmo do Instagram recomendou repetidamente para Bernardi o perfil de uma pessoa bloqueada, como se a provocação fosse um produto cuidadosamente embalado para consumo.
- A plataforma entregou, na sequência, vídeos de jovens resenhistas acusando-a publicamente de falhas que ela mesma já havia confessado em seu próprio livro — a ironia passou despercebida por eles.
- A soma de pequenas provocações algorítmicas transformou uma tarde simples em uma espiral emocional que ela própria reconheceu como armadilha, mesmo sem conseguir evitá-la completamente.
- Bernardi recorreu a uma mãe de santo para encerrar o dia — um gesto que ela transforma em manifesto: a paz de espírito precisa ser maior do que Mark Zuckerberg, mesmo quando não consegue sê-lo.
Em um dia comum, a escritora Tati Bernardi buscava apenas entretenimento leve nas redes sociais — e encontrou, em vez disso, o mecanismo preciso pelo qual plataformas como o Instagram transformam a atenção humana em combustível para a raiva. O episódio revela algo mais amplo do que uma experiência pessoal: é o retrato de um design deliberadamente construído para explorar vulnerabilidades emocionais, mantendo usuários presos em ciclos de conflito e engajamento tóxico. A resistência, conclui ela, exige mais do que boas intenções — exige consciência, leitura crítica e, às vezes, uma bênção.
Tati Bernardi queria apenas assistir a um vídeo do Porchat. O link não abria, e a busca a conduziu diretamente ao Instagram — plataforma da qual se mantém deliberadamente afastada há meses, e do antigo Twitter há anos. Era tarde demais quando percebeu onde havia chegado.
O que se seguiu foi simultaneamente fascinante e irritante. Uma pessoa que ela bloqueia há tempos continuou sendo celebrada pelo algoritmo como se fosse um convite à raiva. A plataforma parecia sussurrar: sinta, brigue, alimente-se desse líquido amargo. Bernardi reconhece em si mesma uma herança de mulheres que não recuavam diante do conflito — mas também reconhece a armadilha. Leu os livros. Sabe o que está sendo feito com ela.
No lugar dos bebês das amigas e dos vídeos do Xamã que esperava encontrar, recebeu uma sequência de provocações: jovens resenhistas a acusando, em tom de revelação, exatamente do que ela já havia confessado livremente em seu último livro. Uma feminista criticou a forma como ela escreve sobre sexo. Cada vídeo isolado gerava curiosidade ou compaixão. A soma deles azedou a tarde inteira.
Ela terminou o dia sendo benzida pela mãe de santo. Oxalá quem guia. Oxalá quem te mandou. Paz e proteção. A conclusão que escreve é ao mesmo tempo irônica e sincera: deseja tudo de melhor para todos, seus imbecis. A revolução, diz ela, é que a fé e a paz de espírito precisam ser maiores do que Mark Zuckerberg. Nem sempre dá certo. Daí nasce a coluna.
Tati Bernardi queria apenas assistir a um vídeo do Porchat. O link não abria — o episódio havia sido censurado momentaneamente. Mas a busca por aquele conteúdo a levou direto para a armadilha que ela conhece bem: o algoritmo do Instagram, aquela máquina invisível que sabe exatamente como fazer alguém se sentir mal.
Bernardi mantém dois perfis na plataforma. Um privado, reservado para amigos e jornalistas. Outro aberto, gerenciado por uma empresa de mídia social, para divulgar seu trabalho. Há meses ela se mantém afastada dessa "desgraça", como chama. Há anos não entra no antigo Twitter. Mas naquele dia, procurando pelo vídeo do Porchat, só encontrou cortes vindos do Instagram. Era tarde demais.
O que aconteceu depois a fascinou e a irritou simultaneamente. Existe uma pessoa cujo nome ela não tolera ouvir, cuja cara presunçosa a repugna. Essa pessoa está bloqueada. Bloqueada, porém, não significa invisível — muito pelo contrário. O algoritmo a celebra compulsivamente para Bernardi, como se sussurrasse: vai lá, sinta raiva, sinta mesmo, arrume briga, se fortaleça desse líquido azedo e macabro produzido dentro do seu fígado. A colunista reconhece a herança que carrega: descendente de mulheres que promoviam confusão quando se sentiam roubadas, descendente de uma bisavó que quadruplicou as horas de trabalho em um parreiral português, grávida e abandonada, para se meter no porão de um navio e vir ao Brasil tomar satisfações. Brigue, sussurra a história. Brigue.
Mas Bernardi já fez sua lição de casa. Leu "A Geração Ansiosa" e "A Máquina do Caos". Sabe exatamente o que o Instagram estava fazendo com ela. Entra na plataforma esperando encontrar fotos das amigas com seus bebês, um vídeo qualquer do Xamã — "como é gostoso", escreve — e em vez disso recebe a sugestão: quer ser novamente amiga dessa pessoa falsa e detestável? Sente-se convidada a ter o comportamento de um cachorro cujo cérebro foi infectado por Lyssavirus. A plataforma segue entregando pérolas de fomento ao desgosto.
Seu último livro, "A Boba da Corte", nasceu de um anseio peculiar em acabar com sua vida social e se expor ao máximo do ridículo. Ela mesma, antecipada e desbragada, explana ao longo do texto como foi má com seus pais, dinheirista, péssima. Mas alguns jovens resenhistas em vídeos leem o livro e, em tom de descoberta excepcional, a acusam do que ela já havia confessado livremente. Não percebem que ao xingá-la estão a plagiando. Seus doze seguidores aplaudem: vamos acabar com ela, vamos dizer verdades. Na sequência, uma feminista critica um texto recente, dizendo que a maneira como Bernardi fala de sexo não fica bem para uma mulher. Isolados, esses vídeos causam curiosidade e compaixão — quase sempre são pessoas que estudaram mais do que ela para terminarem resenhando suas besteiras. Mas a soma infinita deles azeda a tarde.
Ela só queria ver o vídeo do Porchat, os bebês das amigas e o Xamã. Mas caiu na ratoeira e em sua expectativa singela de que se tornasse uma assassina. Terminou o dia sendo benzida pela mãe de santo. Oxalá quem guia. Oxalá quem te mandou. Paz e proteção. Deseja tudo de melhor para vocês, seus imbecis, escreve. É uma luta diária, mas essa é a revolução: a fé e a paz de espírito precisam ser maiores que Mark Zuckerberg. Nem sempre dá certo. Daí escreve uma coluna.
Citas Notables
Vai lá! Sente raiva, sente! Vai! Arruma briga! Se fortaleça desse líquido azedo e macabro produzido dentro do seu fígado.— Tati Bernardi descrevendo o sussurro do algoritmo
A fé e a paz de espírito precisam ser maiores que o Mark Zuckerberg.— Tati Bernardi