O antissemitismo destrói também as sociedades que o toleram

Artistas judeus sofrem exclusão e cancelamento sistemático em festivais e espaços culturais por sua identidade ou posições políticas.
O antissemitismo destrói também a sociedade que o tolera
Reflexão central do texto sobre como a intolerância prejudica não apenas as vítimas, mas o tecido social inteiro.
Mark

Por que o caso de Ariana Harwicz importa tanto? Ela é uma entre muitos artistas que enfrentam pressão política.

Mimi

Importa porque ela foi cancelada não por algo que fez, mas por se recusar a aceitar uma lógica de culpa coletiva. Sua coerência — aplicar o mesmo princípio a russos e israelenses — a tornou perigosa.

Luke

Mas precisamos ser precisos: ela foi excluída de um festival específico. Não sabemos quantos outros espaços a aceitaram. O cancelamento é real, mas a escala importa.

Mark

E a conexão histórica com Portugal e a Alemanha — é válida? Estamos comparando coisas muito diferentes.

Mimi

A estrutura é a mesma. Em todos os casos, uma sociedade escolhe expulsar ou marginalizar pessoas por sua identidade. E em todos os casos, quem sofre mais é a própria sociedade que faz essa escolha.

Luke

Verdade, mas há uma diferença: Portugal e a Alemanha nazista tinham poder estatal. Hoje estamos falando de patrulhas culturais, de exclusão de festivais. Não é a mesma coisa — ainda que seja prejudicial.

Mark

Então o argumento é que o antissemitismo contemporâneo é menos violento, mas igualmente destrutivo?

Mimi

Menos violento, talvez. Mas igualmente corrosivo. Destrói conhecimento, criatividade, a capacidade de uma sociedade pensar livremente. E cria um clima onde a intolerância se normaliza.

Luke

O texto não oferece dados sobre quantos artistas foram realmente excluídos, ou qual é o impacto econômico real. Sabemos que Harwicz foi excluída. Sabemos que há um padrão. Mas a escala do dano que o autor descreve — é documentada ou é extrapolação?

Mark

Espinosa é mencionado como prova de perda. Mas ele viveu séculos depois da expulsão dos judeus de Portugal.

Mimi

Verdade, mas ele era descendente dessa diáspora. Representa o que Portugal poderia ter tido se não tivesse expulsado seus judeus. É simbólico, mas poderoso.

Luke

Simbólico é a palavra certa. Não sabemos se Espinosa teria nascido em Portugal, ou se sua obra teria florescido lá. É uma especulação histórica, ainda que plausível.

  • A escritora argentina Ariana Harwicz foi removida de um festival literário em Granada simplesmente por defender que indivíduos não respondem pelos atos de seus governos — uma posição que ela aplicou com igual coerência a artistas israelenses e russos.
  • O que começou como boicote a artistas israelenses rapidamente se voltou contra judeus que ousaram questionar essa lógica, tornando cada vez mais difícil distinguir o antissionismo declarado do antissemitismo de sempre.
  • A história oferece advertências precisas e ignoradas: Portugal expulsou seus judeus no século 15 e perdeu gerações de intelectuais — entre eles Espinosa —, enquanto os povos que os acolheram colheram os frutos dessa riqueza desperdiçada.
  • A Alemanha nazista purgou suas universidades de cientistas judeus e, ao tentar se reconstruir após a guerra, descobriu que havia destruído sua própria capacidade de retomar a liderança científica mundial.
  • O padrão que se repete nas patrulhas culturais contemporâneas ameaça corroer, uma vez mais, o conhecimento, a tolerância e o futuro das sociedades ocidentais que o permitem prosperar.

Quando Ariana Harwicz foi excluída de um festival em Granada por recusar a lógica da culpa coletiva, o episódio revelou algo mais antigo do que qualquer disputa geopolítica contemporânea. O antissemitismo que a história já condenou retorna agora com vocabulário renovado, mas com o mesmo mecanismo de sempre: identificar, isolar, expulsar. E a lição que Portugal e a Alemanha aprenderam a um custo devastador permanece válida — as sociedades que toleram essa lógica não destroem apenas os perseguidos, mas a si mesmas.

Com uma regularidade quase administrativa, um novo nome aparece na lista dos cancelados. Desta vez foi Ariana Harwicz, escritora argentina de talento reconhecido, expulsa de um festival em Granada. Seu delito: defender que as pessoas não devem ser responsabilizadas pelos atos de seus governos — posição que manteve com igual firmeza diante dos boicotes a artistas israelenses e russos. Sua coerência custou-lhe o espaço público.

O padrão é revelador. Primeiro boicotam-se artistas israelenses em nome da política de Netanyahu. Depois excluem-se judeus que questionam essa lógica. Em algum ponto, torna-se impossível fingir que não estamos diante do antissemitismo tradicional, apenas com roupagem contemporânea. É uma tragédia para os judeus do Ocidente — mas também para o próprio Ocidente, que deveria ter aprendido o que a história já ensinou com clareza: o antissemitismo não destrói apenas quem é judeu. Destrói a sociedade inteira que o tolera.

Portugal conhece essa lição na pele. A expulsão e perseguição dos judeus portugueses a partir do final do século 15 representou uma das maiores catástrofes econômicas e culturais do país. Quem ganhou foram os povos que os receberam. Nos cemitérios de Amsterdã estão gravados os sobrenomes que Portugal perdeu — e depois está Espinosa, um nome que sozinho vale mais do que toda a filosofia portuguesa reunida.

A Alemanha do século 20 oferece a mesma lição, ainda mais brutal. As universidades purgadas de cientistas judeus durante o nazismo perderam homens e mulheres que levaram consigo conhecimento e capacidade criativa irrecuperáveis. Quando a Alemanha tentou se reconstruir, descobriu que havia destruído a si mesma. O veneno que escolheu beber envenenou também seu próprio futuro.

Toda semana, com uma regularidade que parece quase administrativa, surge mais um nome na lista dos cancelados. Desta vez foi Ariana Harwicz, escritora argentina de talento reconhecido, expulsa de um festival em Granada, na Espanha. Seu delito? Ter defendido a ideia simples e incômoda de que as pessoas não devem ser responsabilizadas pelos atos de seus governos.

Harwicz havia se posicionado contra o boicote coletivo de artistas israelenses. Manteve essa mesma posição quando começaram as campanhas de exclusão contra escritores, cantores e artistas russos após a invasão da Ucrânia. Sua coerência — a recusa em aplicar lógicas diferentes para casos análogos — transformou-a em alvo. As patrulhas que se dizem antissionistas a removeram do espaço público por ser judia e por recusar a culpa coletiva que lhe queriam impor.

O padrão é revelador. Primeiro, boicotam-se artistas israelenses em nome da política de Netanyahu. Depois, excluem-se judeus que ousam questionar essa lógica. Em algum ponto, fica difícil fingir que não estamos diante do antissemitismo tradicional, apenas com roupagem contemporânea. É uma tragédia para os judeus do Ocidente, sem dúvida. Mas é também uma tragédia para o próprio Ocidente, que deveria ter aprendido uma lição que a história já ensinou com clareza: o antissemitismo não destrói apenas quem é judeu. Destrói a sociedade inteira que o tolera. Corrói riqueza, conhecimento, tolerância e futuro.

Portugal conhece essa lição na pele. A partir do final do século 15, a expulsão, a conversão forçada e a perseguição sistemática dos judeus portugueses representaram uma das maiores catástrofes da história econômica e cultural do país. Quem ganhou? Os povos que os receberam. Nas lápides do cemitério de Ouderkerk, em Amsterdã, estão gravados nomes como Mendes, Lopes, Pintos, Nunes e Coutinhos — um inventário do que Portugal perdeu quando escolheu expulsar seus próprios filhos. E depois está Espinosa, um nome que sozinho vale mais do que toda a filosofia portuguesa reunida.

A Alemanha do século 20 oferece a mesma lição, ainda mais brutal. Durante o nazismo, as universidades foram purgadas de cientistas judeus. Esses homens e mulheres fugiram, levando consigo seu conhecimento e sua capacidade criativa. Quando a Alemanha tentou reconstruir-se após a hecatombe, descobriu que havia destruído a si mesma — perdeu a possibilidade de retomar seu lugar como potência científica de primeira linha. O veneno que ela havia escolhido beber envenenou também seu próprio futuro.

Os indivíduos não são culpados pelos atos de seus governos
— Posição defendida por Ariana Harwicz
O antissemitismo não destrói apenas o judeu; destrói também a sociedade por onde esse veneno se espalha
— Argumento central do texto
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