O ajuste fiscal de ocasião compromete a credibilidade das regras orçamentárias

Quando as regras podem ser flexibilizadas ao sabor das circunstâncias, deixam de ser regras
Reflexão sobre como a inconsistência nas políticas fiscais transforma normas em sugestões sem força vinculante.
Mark

Por que o governo flexibilizou regras que havia criado apenas meses antes?

Mimi

Porque essas regras começaram a bloquear coisas que o Congresso queria fazer em ano eleitoral. Agentes comunitários de saúde, benefícios tributários — tudo isso ficou preso nas exigências de compensação que a equipe econômica havia estabelecido.

Mark

Mas a equipe econômica não era a mesma que defendia essas regras no Supremo?

Mimi

Exatamente. Semanas antes, estavam no STF argumentando que qualquer aumento de despesa sem compensação deveria ser inconstitucional. Depois aprovaram um projeto que fazia exatamente isso.

Mark

Isso é hipocrisia ou apenas pragmatismo político?

Mimi

É mais profundo que hipocrisia. É a normalização de um padrão: as regras valem quando convêm, e são descartadas quando incomodam. Bolsonaro fez assim, Lula está fazendo assim.

Mark

Qual é o dano real disso?

Mimi

O dano é invisível no curto prazo. Não aparece em um déficit específico. Aparece na desconfiança de que o país nunca vai manter de verdade um compromisso com a estabilidade fiscal.

Mark

Então o problema não é a flexibilidade em si?

Mimi

Não. O problema é a falta de constância. Se o governo dissesse "vamos mudar as regras porque achamos que estavam muito rígidas", tudo bem. Mas mudar porque ficou inconveniente? Isso corrói a credibilidade de qualquer regra que vier depois.

  • A equipe econômica ergueu em 2025 um arcabouço rigoroso contra renúncias tributárias e gastos sem compensação — regras com dentes reais, ancoradas na Lei de Responsabilidade Fiscal.
  • O ano eleitoral transformou essas mesmas regras em obstáculo: Congresso e governo agiram em conjunto para flexibilizá-las, abrindo espaço para despesas que antes seriam bloqueadas.
  • A contradição ficou exposta de forma aguda: semanas antes, a equipe econômica pressionava o STF para tornar obrigatório o cálculo de impacto fiscal em qualquer nova despesa — princípio que o próprio governo logo depois decidiu afrouxar.
  • O padrão não é exclusivo desta gestão: tanto o governo Bolsonaro quanto o governo Lula cederam ao ajuste de ocasião, normalizando a prática de reescrever as regras quando elas se tornam inconvenientes.
  • O custo não aparece imediatamente nas planilhas, mas corrói algo mais difícil de recuperar: a confiança de que as instituições fiscais brasileiras são capazes de resistir à pressão política.

Em ano eleitoral, o governo Lula aprovou um projeto que flexibiliza os mesmos mecanismos de controle fiscal que sua equipe econômica havia construído meses antes — e defendido publicamente no Supremo Tribunal Federal. O episódio não é apenas uma contradição pontual: é o retrato de um padrão recorrente na política brasileira, em que as regras orçamentárias resistem até o momento em que começam a incomodar. A credibilidade fiscal de um país não se mede pelas normas que cria, mas pela disposição de sustentá-las quando o custo político se eleva.

A verdadeira prova do compromisso fiscal de um governo não está nas regras que ele cria — está na capacidade de mantê-las quando começam a apertar. Em 2026, o governo Lula enfrentou esse teste e não passou.

Meses antes, a equipe econômica havia construído um arcabouço sólido: a Lei de Diretrizes Orçamentárias proibia novos benefícios fiscais, uma segunda norma vedava incentivos quando as renúncias já superavam 2% do PIB — patamar que o Brasil havia ultrapassado há tempos —, e tudo isso se apoiava nos princípios da Lei de Responsabilidade Fiscal. Era um desenho sem brechas aparentes.

Mas o ano eleitoral chegou, e as regras tornaram-se incômodas. A solução foi aprovar um projeto que as flexibilizava, abrindo caminho para despesas que antes teriam sido bloqueadas. O momento mais revelador veio semanas antes: o Congresso havia aprovado aposentadorias mais vantajosas para agentes comunitários de saúde, com impacto bilionário, e a equipe econômica articulava no STF uma súmula que tornasse obrigatório o cálculo prévio de impacto fiscal. Os princípios que defendia no tribunal eram praticamente os mesmos que o governo logo depois decidiu afrouxar.

A incoerência não é acidental — é um padrão. Tanto a gestão Bolsonaro quanto a administração Lula falharam no mesmo ponto: a constância diante da pressão política. O debate sobre a intensidade do ajuste fiscal é legítimo; o problema é outro. Quando as regras orçamentárias podem ser reescritas ao sabor das circunstâncias, elas deixam de ser regras e passam a ser sugestões. E sugestões não contêm despesa, não estabilizam expectativas e não restauram confiança. O legado mais corrosivo não é o déficit imediato — é a normalização do ajuste de ocasião, aquele que se faz quando convém e se desfaz quando incomoda.

A verdadeira medida do compromisso de um governo com a saúde das contas públicas não reside na severidade das regras que ele estabelece no início de seu mandato. Reside, sim, na capacidade de resistir às pressões que surgem quando essas mesmas regras começam a apertar. É nesse momento de tensão que a credibilidade se revela — ou se desmorona.

O governo Lula enfrentou exatamente esse teste em 2026, e o resultado não é animador. Meses antes, a equipe econômica havia construído um arcabouço rigoroso para conter o crescimento descontrolado de renúncias tributárias e despesas sem compensação. A Lei de Diretrizes Orçamentárias daquele ano proibia expressamente a criação de novos benefícios fiscais. Uma segunda norma vedava incentivos quando os benefícios já concedidos ultrapassassem 2% do PIB — patamar que o país já havia superado há tempos. Essas regras reforçavam princípios ainda mais antigos da Lei de Responsabilidade Fiscal, que exigem medidas de compensação sempre que se cria uma despesa nova ou se abre mão de receita.

Era um desenho claro, sem brechas aparentes. Mas quando o ano eleitoral chegou, tanto o Congresso quanto o governo descobriram que essas mesmas regras representavam um obstáculo incômodo. A solução foi direta: aprovar um projeto que flexibilizasse ou simplesmente afastasse esses dispositivos. Na mesma oportunidade, incluíram algumas despesas extras que antes teriam sido bloqueadas.

O que torna essa reviravolta particularmente reveladora é o que havia acontecido semanas antes. O Congresso havia aprovado condições mais vantajosas de aposentadoria para agentes comunitários de saúde — uma medida com impacto bilionário nos cofres da União. A equipe econômica, contrária à iniciativa, havia intensificado suas articulações no Supremo Tribunal Federal para que a corte aprovasse uma súmula que tornasse obrigatório o cálculo prévio de impacto e a apresentação de medidas compensatórias em qualquer aumento de despesa ou renúncia de receita. Sem isso, argumentava, as propostas deveriam ser consideradas inconstitucionais.

São princípios praticamente idênticos aos que o governo, poucos dias depois, julgou conveniente afrouxar. A incoerência não é acidental. Ela revela um padrão que transcende este governo ou aquele. Tanto a gestão Bolsonaro quanto a administração Lula falharam no teste fundamental: manter a constância quando as pressões políticas aumentam.

Não se trata aqui de debater o mérito de cada medida individual, nem de discutir qual deve ser a intensidade do ajuste nas contas públicas. Essas são questões legítimas de política econômica, sobre as quais pessoas razoáveis podem discordar. O problema é outro: é a falta de constância, a disposição de mudar as regras quando elas se tornam inconvenientes. Essa postura deixa como legado algo muito mais corrosivo do que qualquer déficit: a normalização do ajuste fiscal de ocasião, aquele que se faz quando convém e se desfaz quando incomoda.

Quando as regras orçamentárias podem ser flexibilizadas ao sabor das circunstâncias políticas, elas deixam de ser regras. Tornam-se sugestões. E sugestões não contêm despesa, não estabilizam expectativas, não restauram confiança. O custo dessa incoerência não aparece imediatamente nas planilhas. Mas aparece na credibilidade das instituições e na disposição dos mercados de acreditar que o país, de fato, está comprometido com a estabilidade fiscal.

O comprometimento com a estabilidade das contas não se mede pela rigidez das regras, mas sim pela resistência às tentativas de flexibilização que surgem ao primeiro sinal de aperto no Orçamento
— Análise editorial
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