No cruzamento entre inclusão digital e suspeita de corrupção, o Supremo Tribunal Federal suspendeu os pagamentos à ONG Instituto Conhecer Brasil, contratada pela Prefeitura de São Paulo para levar internet gratuita às periferias da capital. A investigação aponta que R$ 26 milhões em recursos públicos podem ter sido desviados para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro — enquanto milhares de pontos de Wi-Fi prometidos jamais foram instalados. O prefeito Ricardo Nunes, pressionado entre a suspeita judicial e a promessa política, avisa que cancelar o contrato significa apagar a luz digital nas c
Nunes ameaça cancelar Wi-Fi gratuito em SP se STF encerrar contrato com ONG de Karina da Gama
Diferença de R$ 26 milhões por serviços nunca prestados
Por que o prefeito ameaça cancelar o serviço se o contrato for encerrado? Não poderia simplesmente contratar outra empresa?
Nunes diz que a Prodam, a empresa municipal, cobra muito mais caro — R$ 6.699,99 por ponto contra R$ 1.260 que o Instituto Conhecer Brasil cobra. Se tiver que usar a Prodam, o custo fica insustentável e ele prefere encerrar a oferecer um serviço mais caro.
Mas espera aí. A Polícia Civil diz que o Instituto Conhecer Brasil cobra R$ 1.800 por ponto, não R$ 1.260. E que isso já é mais do dobro do que a Prodam costumava cobrar quando fazia o serviço antes. Os números do prefeito não batem com o que a polícia encontrou.
Então o contrato com o Instituto Conhecer Brasil já era caro desde o início?
Parece que sim. A polícia identificou que o edital tinha critérios genéricos, que a organização não tinha experiência em telecomunicações, e que o valor era muito acima do mercado. Além disso, só 3.200 dos 5 mil pontos foram instalados, mas a prefeitura pagou como se tivessem sido.
E há suspeitas de que parte desse dinheiro foi desviado para financiar um filme sobre Bolsonaro. A Polícia Civil calculou uma diferença de R$ 26 milhões entre o que deveria ter sido pago e o que foi efetivamente transferido.
Então se o STF cancelar o contrato, a população periférica fica sem Wi-Fi?
É o que Nunes está dizendo. Ele argumenta que não consegue oferecer o mesmo serviço com a Prodam pelos mesmos valores, então teria que encerrar o programa enquanto abre um novo chamamento público.
Mas isso é uma escolha dele. Ele poderia manter o serviço com a Prodam, mesmo que mais caro, ou abrir um novo chamamento rápido. Dizer que vai cancelar é uma forma de pressionar o STF a manter o contrato com o Instituto Conhecer Brasil.
E o Instituto Conhecer Brasil, quem é?
É presidido por Karina da Gama, que também é sócia de uma produtora que fez um filme sobre Jair Bolsonaro. A polícia suspeita que recursos públicos do programa de Wi-Fi foram desviados para financiar esse filme.
Importante notar que são suspeitas. A investigação ainda está em andamento. Mas o Supremo já suspendeu os pagamentos, o que sugere que há preocupação suficiente para agir.
Le Pouls
- A Polícia Civil identificou 'consistentes suspeitas' de que dinheiro destinado ao Wi-Fi gratuito foi desviado para produção de um filme político, com movimentações suspeitas entre empresas ligadas à presidente da ONG.
- O Instituto Conhecer Brasil recebeu R$ 113,9 milhões mas entregou apenas 3.200 dos 5 mil pontos contratados — e o ritmo de instalação desacelerou drasticamente após as eleições de 2024.
- O STF suspendeu os pagamentos e o ministro Flávio Dino retirou o sigilo dos documentos, expondo ao público a extensão das irregularidades apontadas pelo Tribunal de Contas e pela polícia.
- O prefeito Nunes defende o contrato como legítimo e econômico, argumentando que a alternativa municipal custaria mais de cinco vezes o valor pago à ONG.
- A população periférica de São Paulo permanece como refém involuntária da disputa: se o contrato for cancelado sem transição adequada, o serviço de internet gratuita pode ser interrompido antes de qualquer solução.
No cruzamento entre inclusão digital e suspeita de corrupção, o Supremo Tribunal Federal suspendeu os pagamentos à ONG Instituto Conhecer Brasil, contratada pela Prefeitura de São Paulo para levar internet gratuita às periferias da capital. A investigação aponta que R$ 26 milhões em recursos públicos podem ter sido desviados para financiar um filme sobre Jair Bolsonaro — enquanto milhares de pontos de Wi-Fi prometidos jamais foram instalados. O prefeito Ricardo Nunes, pressionado entre a suspeita judicial e a promessa política, avisa que cancelar o contrato significa apagar a luz digital nas comunidades mais vulneráveis da cidade.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, se viu nesta segunda-feira diante de uma crise que ameaça um dos programas mais visíveis de sua gestão. Após o ministro do STF Flávio Dino suspender pagamentos à ONG Instituto Conhecer Brasil e retirar o sigilo de documentos comprometedores, Nunes avisou: se o contrato for encerrado, o serviço de Wi-Fi gratuito nas periferias terá que ser desligado.
O Instituto Conhecer Brasil, presidido por Karina da Gama — produtora do filme "Dark Horse", sobre Jair Bolsonaro —, assinou contrato com a prefeitura em junho de 2024 para instalar cinco mil pontos de internet nas áreas periféricas por R$ 108 milhões. Até maio deste ano, havia recebido R$ 113,9 milhões, mas instalou apenas 3.200 pontos. A Polícia Civil apontou "confusão patrimonial" e suspeita que R$ 26 milhões foram desviados via empresas subcontratadas ligadas a Karina para financiar a produção cinematográfica.
Os números reforçam a suspeita: enquanto a Prodam cobrava R$ 230 pela implantação de cada ponto, o contrato com a ONG estabeleceu R$ 1.800 — mais que o dobro. A polícia também notou que o ritmo de instalação acelerou durante o período eleitoral de 2024 e desacelerou abruptamente após as eleições. Com base no fornecimento efetivo, o município deveria ter pago cerca de R$ 43 milhões; pagou R$ 69 milhões.
Nunes, porém, insiste que não há ilegalidade. Afirma que o processo ficou aberto por trinta dias sem impugnações, que as observações do Tribunal de Contas foram atendidas e que a imprensa distorce os fatos com base em "denúncia lunática". Seu argumento econômico é que a Prodam cobrava R$ 6.699,99 por ponto quando prestava serviço equivalente — tornando o contrato com a ONG, na sua visão, uma economia real para os cofres públicos.
A Procuradoria da Prefeitura já pediu a Flávio Dino que permita ao Instituto continuar executando este contrato específico ou que seja concedido prazo maior para transição. Enquanto a disputa entre a prefeitura, o STF e a Polícia Civil se desenrola, são os moradores das periferias paulistas que aguardam, em silêncio, para saber se a conexão que chegou até eles vai permanecer.
O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes, respondeu nesta segunda-feira a uma ameaça que paira sobre um dos programas mais visíveis de sua gestão: se o Supremo Tribunal Federal encerrar o contrato de internet gratuita firmado com a ONG Instituto Conhecer Brasil, ele terá que desligar o serviço nas periferias da capital. A declaração veio por mensagem de WhatsApp, após o ministro Flávio Dino retirar o sigilo de documentos que apontam suspeitas graves de desvio de recursos públicos.
O Instituto Conhecer Brasil, presidido pela produtora Karina da Gama — responsável pelo filme "Dark Horse", sobre a vida de Jair Bolsonaro — assinou contrato com a prefeitura em junho de 2024 para instalar cinco mil pontos de Wi-Fi nas áreas periféricas. O acordo previa o repasse de R$ 108 milhões. Até maio deste ano, a organização havia recebido R$ 113,9 milhões da prefeitura, mas instalou apenas 3.200 dos pontos prometidos. A Polícia Civil de São Paulo identificou o que chamou de "consistentes suspeitas" de que recursos públicos destinados ao programa foram desviados para financiar a produção do filme. Segundo o relatório policial, houve "confusão patrimonial", com valores sendo movimentados através de contas de empresas subcontratadas e outras organizações ligadas a Karina para "lavagem" dos valores desviados.
O argumento de Nunes para manter o contrato repousa em uma questão de custo. A Prodam, empresa municipal de processamento de dados, não consegue oferecer o mesmo serviço pelo valor que o Instituto Conhecer Brasil cobra — R$ 1.260 por ponto. Segundo o prefeito, a Prodam cobrava R$ 6.699,99 por ponto quando executava serviço equivalente. Nunes afirma que se o contrato for cancelado, terá que abrir um novo chamamento público e, nesse meio tempo, o serviço na periferia seria interrompido. A Procuradoria da Prefeitura já enviou pedido a Flávio Dino solicitando que o Instituto Conhecer Brasil continue executando este contrato específico ou que seja concedido prazo maior para transição.
Os números que a Polícia Civil apresenta, porém, contam uma história diferente. Enquanto a Prodam cobrava R$ 230 pela implantação de cada ponto e R$ 306 pela manutenção mensal, o contrato com o Instituto Conhecer Brasil estabeleceu R$ 1.800 por ponto — mais que o dobro do que a administração municipal costumava pagar. A polícia também observou que o ritmo de instalação foi acelerado durante o período eleitoral de 2024, atingindo 1.605 pontos ativos no final de outubro. Após as eleições, o ritmo desacelerou drasticamente, chegando a apenas 3.200 pontos em junho de 2025. Os 1.800 pontos restantes nunca foram instalados. Com base nesses dados, a polícia calculou que o município deveria ter pago cerca de R$ 43 milhões pelos meses em que houve fornecimento efetivo de internet. No entanto, foram transferidos R$ 69 milhões — uma diferença de R$ 26 milhões por serviços não prestados.
O Tribunal de Contas de São Paulo apontou ao menos vinte irregularidades graves no edital que resultou na contratação. Entre elas, o uso de critérios genéricos para escolher uma organização social sem experiência prévia em telecomunicações. A Polícia Civil também identificou vício de origem no processo de seleção e disparidade flagrante de custos.
Nunes continua defendendo que não há ilegalidade no contrato. Em mensagem, afirmou que a imprensa se baseia em "denúncia lunática" de um membro do PT do Rio Grande do Sul e que o processo foi aberto por trinta dias para receber propostas, sem impugnações ou contestações. Argumenta que as observações do Tribunal de Contas foram atendidas e que não houve direcionamento. O prefeito reafirma que a história do Wi-Fi precisa ser restabelecida e que os fatos estão sendo distorcidos.
Karina da Gama preside o Instituto Conhecer Brasil e é sócia da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme sobre Bolsonaro. Segundo a investigação, a relação entre essas entidades está no centro das suspeitas de confusão patrimonial. O que estava previsto como um programa de inclusão digital para a periferia paulista agora está no centro de uma disputa entre a prefeitura, o Supremo Tribunal Federal e a Polícia Civil — com a população das áreas periféricas em risco de perder o acesso à internet gratuita enquanto a questão se resolve.
Citations marquantes
A Prodam não consegue fazer o serviço com valor de R$ 1.260 por ponto. Vou ter que cancelar e fazer outro chamamento— Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo
Há consistentes suspeitas de confusão patrimonial e de que os recursos públicos do programa 'WiFi Livre SP' tenham sido desviados para custear as atividades de produção do filme— Relatório da Polícia Civil de São Paulo