No cruzamento entre inovação financeira e fragilidade regulatória, o Nubank disputa R$ 719,8 milhões retidos na liquidação da Entrepay, credenciadora encerrada pelo Banco Central em março. A batalha jurídica revela tensões estruturais sobre quem, afinal, tem direito preferencial sobre recursos em trânsito no sistema de pagamentos brasileiro — o lojista que vendeu, o banco que comprou o recebível, ou o Estado que intervém. Por trás dos números, investigações de fraude e a presença de Roberto Campos Neto na governança do Nubank conferem ao caso uma dimensão que transcende o contencioso comercial
Nubank pede R$ 719,8 mi de restituição em disputa com credenciadora ligada a fraudes
incertezas sobre o paradeiro do dinheiro alimentam suspeitas
Por que o Nubank está pedindo R$ 719,8 milhões especificamente? De onde vem esse número?
O banco alega ter direitos creditórios sobre a Entrepay — basicamente, dinheiro que deveria receber dela. Quando a credenciadora foi liquidada, o Nubank entrou na Justiça para recuperar o que diz ser seu.
Mas qual é a origem desses direitos? O Nubank comprou recebíveis de lojistas que passaram pela Entrepay?
Exatamente. O Nubank adquiriu direitos de recebimento de comerciantes. Agora discute se esses direitos estão protegidos ou se devem ser devolvidos aos lojistas originais.
E o Banco Central discorda dessa posição?
Sim. A Procuradoria do BC diz que os lojistas têm preferência — eles recebem primeiro, antes de qualquer cessionário que tenha comprado o direito.
Então há uma questão legal real aqui sobre quem tem prioridade. Mas há também a questão das fraudes — por que a Entrepay está envolvida em investigações?
A Entrepay está ligada a apurações sobre fraudes envolvendo o Banco Master e o financiamento do filme "Dark Horse" através de aportes no exterior. Ainda não está claro o que exatamente aconteceu com o dinheiro.
Isso significa que o dinheiro que o Nubank alega ter direito pode ter desaparecido?
Fontes do mercado mencionam "incertezas sobre o paradeiro do dinheiro". Ninguém sabe ao certo onde foi parar. O Nubank diz que é cessionário de boa-fé, mas se houve fraude, a origem desses fundos fica questionável.
E há ainda a questão de Roberto Campos Neto estar no Conselho do Nubank. Ele era presidente do BC quando tudo isso acontecia.
Isso cria um conflito de interesse?
Não está claro. Mas é uma conexão que vale notar — o ex-regulador agora trabalha para uma das partes em disputa com o regulador.
O Pulso
- O Nubank elevou seu pedido de restituição para R$ 719,8 milhões, tornando a disputa com a Entrepay liquidada uma das maiores batalhas jurídicas recentes no setor de pagamentos.
- A Procuradoria do Banco Central resiste à tese do banco digital, defendendo que lojistas têm preferência legal sobre qualquer cessionário que tenha adquirido direitos creditórios.
- Conexões com a Operação Carbono Oculto, o Banco Master e o financiamento internacional do filme 'Dark Horse' ampliam as suspeitas de fraude e tornam o caso politicamente explosivo.
- Fontes do mercado alertam que o paradeiro real do dinheiro pago à Entrepay permanece incerto, alimentando desconfiança sobre a integridade das operações da credenciadora.
- A presença de Roberto Campos Neto, ex-presidente do BC, como vice-presidente do Conselho do Nubank adiciona uma camada de complexidade política ao conflito técnico-jurídico.
No cruzamento entre inovação financeira e fragilidade regulatória, o Nubank disputa R$ 719,8 milhões retidos na liquidação da Entrepay, credenciadora encerrada pelo Banco Central em março. A batalha jurídica revela tensões estruturais sobre quem, afinal, tem direito preferencial sobre recursos em trânsito no sistema de pagamentos brasileiro — o lojista que vendeu, o banco que comprou o recebível, ou o Estado que intervém. Por trás dos números, investigações de fraude e a presença de Roberto Campos Neto na governança do Nubank conferem ao caso uma dimensão que transcende o contencioso comercial.
O Nubank ampliou para R$ 719,8 milhões seu pedido de restituição contra a Entrepay, credenciadora liquidada pelo Banco Central em março. A disputa conecta o banco digital a investigações sobre fraudes que envolvem também o Banco Master e o financiamento do filme 'Dark Horse' por meio de transferências internacionais.
Na petição mais recente, o Nubank alega exposição de R$ 675,6 milhões junto à Entrepay e outros R$ 44,2 milhões com a Acqio, subsidiária de Antonio Carlos Freixo — o 'Mineiro', investigado em duas operações policiais. O banco sustenta ser proprietário exclusivo dos direitos creditórios e que os valores retidos não deveriam compor a massa liquidanda.
A Procuradoria-Geral do Banco Central discorda: as regras do setor garantem aos lojistas preferência sobre qualquer cessionário. O Nubank rebate argumentando que o inadimplemento da credenciadora não invalida a cessão de crédito e que as bandeiras de cartão devem garantir o repasse integral aos comerciantes.
Enquanto o banco insiste que está protegido como cessionário de boa-fé, fontes do mercado apontam incertezas crescentes sobre o paradeiro do dinheiro pago à Entrepay. A situação ganha contornos ainda mais delicados com Roberto Campos Neto — ex-presidente do Banco Central — ocupando a vice-presidência do Conselho de Administração do Nubank, cargo assumido logo após deixar a autoridade regulatória.
O Nubank ampliou sua demanda judicial contra a Entrepay para R$ 719,8 milhões em restituição, segundo informações divulgadas pelo Valor Econômico na quinta-feira. A Entrepay, credenciadora liquidada pelo Banco Central em março, é o centro de uma disputa que expõe tensões profundas no setor de pagamentos brasileiro — e conecta o banco digital a investigações sobre fraudes que envolvem também o Banco Master e o financiamento do filme "Dark Horse" através de transferências internacionais.
Na petição mais recente, os advogados do Nubank argumentam que a instituição tem exposição de R$ 675,6 milhões junto à Entrepay e outros R$ 44,2 milhões com a Acqio, subsidiária de Antonio Carlos Freixo, conhecido como "Mineiro". Freixo foi alvo da terceira fase da Operação Carbono Oculto e também investigado na Operação Compliance Zero. O Nubank sustenta ser o proprietário exclusivo dos direitos creditórios em questão e que o montante retido não deveria integrar a massa liquidanda — o conjunto de bens e direitos disponíveis para distribuição entre credores durante a liquidação.
A posição do banco digital enfrenta resistência da Procuradoria-Geral do Banco Central, que reforçou em seu posicionamento que as regras do setor garantem aos lojistas preferência no recebimento em relação a qualquer cessionário que tenha comprado o direito de receber. Em resposta, o Nubank argumenta que o inadimplemento da credenciadora perante os comerciantes não invalida a eficácia da cessão de crédito e que cabe às bandeiras de cartão garantir o repasse integral aos lojistas.
O banco digital insiste que não sofre impacto material significativo e que está protegido pela legislação como cessionário de boa-fé. Porém, fontes do mercado consultadas pelo Valor apontam incertezas crescentes sobre o paradeiro do dinheiro que foi pago à credenciadora — uma preocupação que ganha peso diante das suspeitas de fraude que cercam a Entrepay e suas operações.
Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central, ocupa a posição de vice-presidente do Conselho de Administração do Nubank e é chefe global de políticas públicas da instituição, cargo que assumiu pouco depois de deixar a presidência do BC. Sua presença na estrutura de governança do banco adiciona uma camada de complexidade política a um conflito que já envolve questões técnicas delicadas sobre direitos creditórios, responsabilidade de intermediários de pagamento e a integridade do sistema financeiro.
Citações Notáveis
O Nubank sustenta ser o exclusivo proprietário dos direitos creditórios de boa-fé e que o valor retido não integra a massa liquidanda— Defesa do Nubank
Fontes do mercado apontam incertezas sobre o paradeiro do dinheiro pago à credenciadora em virtude das suspeitas de fraude— Fontes do mercado consultadas pelo Valor Econômico