A escravidão se tornou tão ordinária que a sociedade deixou de questioná-la
Num país que ainda carrega as marcas invisíveis de séculos de exploração humana, o jornalista Laurentino Gomes lança o segundo volume de sua trilogia sobre a escravidão brasileira, publicado pela Globo Livros em junho de 2021. A obra percorre o período entre a corrida do ouro em Minas Gerais e a chegada da corte portuguesa, revelando como um sistema de brutalidade sistemática foi gradualmente absorvido como normalidade pela sociedade. Mais do que um registro histórico, o livro propõe uma revisão do olhar: os escravizados não são objetos passivos da história, mas agentes que moldaram a língua, a culinária, a fé e a alma do Brasil moderno.
- A escravidão não aparece aqui como exceção histórica, mas como estrutura cotidiana — leilões em praças públicas, marcações a ferro quente e correntes faziam parte da paisagem ordinária do Brasil colonial.
- A historiografia tradicional apagou sistematicamente o protagonismo negro, reduzindo mulheres e homens escravizados a figuras passivas ou a estereótipos desumanizadores que o livro agora confronta diretamente.
- Gomes recupera vozes e trajetórias silenciadas — como a de Chica da Silva — para mostrar que resistência, ascensão e criação cultural floresceram mesmo dentro das condições mais brutais.
- A ferida que o livro expõe não é apenas histórica: a obra chega num momento em que o racismo estrutural brasileiro volta a se intensificar, tornando urgente o reconhecimento desse passado não resolvido.
Laurentino Gomes entrega o segundo volume de sua trilogia sobre a escravidão num Brasil que ainda não fez as pazes com aquele período. Com 512 páginas publicadas pela Globo Livros, o livro cobre o intervalo entre a corrida do ouro em Minas Gerais e a chegada da corte de dom João, focando em algo mais perturbador do que a brutalidade em si: o processo pelo qual essa brutalidade se tornou invisível.
Enquanto o primeiro volume rastreava as origens da escravidão no país, este segundo mostra sua normalização. Leilões de pessoas em praças públicas, corpos examinados e marcados a ferro quente com as iniciais dos proprietários, homens e mulheres conduzidos acorrentados para as senzalas — Gomes descreve esses rituais com precisão jornalística, sem poupar o leitor da desumanidade sistemática que os sustentava.
Mas o que distingue o livro é sua recusa em tratar os escravizados como meros objetos da história. Apoiado na historiografia mais recente, Gomes os reposiciona como protagonistas: agentes que construíram cidades, igrejas barrocas e palácios, e que ao mesmo tempo forjaram as bases culturais do Brasil moderno. A escravidão urbana, em particular, permitiu maior mobilidade e gerou uma fusão de hábitos africanos, europeus e indígenas que ainda se manifesta na culinária, nas festas e nos rituais religiosos do país.
O livro também resgata o papel das mulheres negras, confrontando séculos de distorção historiográfica. Figuras como Chica da Silva — nascida escrava, que ascendeu socialmente e deixou marca na história — ilustram uma dimensão de resiliência e protagonismo frequentemente apagada. A prosa acessível de Gomes, herdada de sua trajetória no jornalismo, torna a leitura fluida mesmo diante de um tema pesado. A obra chega num momento em que a ferida da escravidão parece se reabrir — e lembra, com urgência, que o passado continua moldando silenciosamente quem somos.
Laurentino Gomes entrega o segundo volume de sua trilogia sobre escravidão num momento em que o Brasil ainda não cicatrizou as feridas daquele período. O livro, publicado pela Globo Livros com 512 páginas, cobre o intervalo entre a corrida do ouro em Minas Gerais e a chegada da corte de dom João, focando em como um sistema brutal de exploração humana se tornou tão ordinário que a sociedade deixou de questioná-lo.
O que distingue este segundo volume do primeiro é justamente esse deslocamento de perspectiva. Enquanto o livro anterior traçava as origens da escravidão no Brasil, este mostra o processo de sua normalização — como leilões de pessoas em praças públicas viraram cenas do dia a dia, como homens e mulheres eram examinados, marcados a ferro quente com as iniciais de seus proprietários e depois conduzidos acorrentados para as senzalas, onde permaneceriam até a morte. Gomes descreve com precisão o ritual desumanizador do comércio de escravos, desde o sabão usado para limpar os corpos até as argolas que os prendiam uns aos outros.
Mas a força do livro está em sua recusa de tratar os escravizados como meros objetos da história. Gomes incorpora perspectivas da historiografia recente que colocam o negro em papel de protagonismo, como agente transformador da sociedade brasileira. Isso muda fundamentalmente como o leitor compreende o período. A escravidão não apenas moldou a economia — fornecendo mão de obra para o pau-brasil e o açúcar, depois se espalhando por todos os segmentos da sociedade — mas também criou as bases culturais do Brasil moderno.
A escravidão urbana, em particular, permitiu maior mobilidade aos escravizados e gerou desdobramentos profundos na cultura. Hábitos africanos se fundiram com práticas europeias e indígenas, deixando marcas na culinária, no vestuário, nas festas e nos rituais religiosos. Cidades inteiras, palácios e igrejas barrocas foram construídos por escravos e libertos. Além disso, os próprios africanos escravizados não formavam um grupo homogêneo — vinham de diferentes países, etnias e culturas, e essa mistura criou uma nova identidade cultural brasileira com raízes africanas mas feição própria.
Gomes também resgata o papel das mulheres negras, confrontando séculos de distorção historiográfica que as retratava com viés sexual e desumanizador. A obra mostra mulheres como protagonistas de histórias de resiliência e superação, com funções de destaque nos negócios e na saúde pública. O exemplo de Chica da Silva — nascida escrava, que ascendeu socialmente e se tornou uma grande personagem da história — ilustra essa dimensão frequentemente apagada.
A prosa de Gomes é clara e acessível, apoiada em sua experiência como jornalista. Os capítulos funcionam de forma independente, permitindo leituras fragmentadas, mas o livro convida à leitura contínua. É difícil ler sem se emocionar, sem que venha à mente a música "Canto das Três Raças", de Clara Nunes. A obra chega num momento em que a ferida da escravidão não apenas não cicatrizou como pode estar se abrindo novamente. Mais importante ainda, ela coloca em evidência como o passado continua influenciando silenciosamente quem somos hoje.
Notable Quotes
A obra vem num bom momento para lembrar a sociedade brasileira de uma ferida que, além de não ter cicatrizado, pode estar se abrindo— Análise da resenha
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que um livro sobre escravidão agora, em 2021? Não é um tema que já foi exaustivamente estudado?
O que Gomes faz é diferente. Não é apenas recontar o que aconteceu, mas mostrar como a escravidão se tornou invisível — tão naturalizada que ninguém questionava mais. Leilões de pessoas em praças públicas viraram rotina. Isso muda a forma como entendemos o Brasil.
E por que o segundo volume especificamente? O que o primeiro deixou em aberto?
O primeiro traçava as origens, as bases. Este mostra a consolidação, como o sistema se enraizou em cada aspecto da sociedade — economia, cultura, religião, até a arquitetura das cidades.
Você mencionou que o livro coloca os negros como protagonistas. Como isso é diferente de outras histórias sobre escravidão?
A historiografia tradicional os via como vítimas passivas. Gomes mostra agência — como criaram culturas novas, como se movimentaram dentro de um sistema opressivo, como mulheres como Chica da Silva ascenderam socialmente. Não é romantização, é reconhecimento.
A escravidão urbana parece ter tido um papel diferente da rural.
Exatamente. Permitiu mais mobilidade, mais contato com outras culturas. Por isso a fusão de hábitos africanos, europeus e indígenas foi tão profunda — na comida, nas festas, na religião. O Brasil que conhecemos hoje foi construído por essa mistura, mesmo que violenta.
E as mulheres negras? Por que elas foram apagadas?
A historiografia tradicional as retratava de forma distorcida, com viés sexual. Gomes confronta isso mostrando seu papel real — nos negócios, na saúde pública, em histórias de resiliência. Foram protagonistas, não figurantes.
O livro é acessível para quem não é historiador?
Muito. Gomes escreve como jornalista — claro, direto. Os capítulos são independentes. Mas aviso: é difícil ler sem se emocionar.