Novo consenso global atualiza manejo do ceratocone com abordagem multimodal

Diagnóstico que integra estrutura, função e biomecânica
A mudança central do novo consenso: sair da avaliação centrada em topografia para uma estratégia multimodal.
Mark

Por que essa mudança de abordagem agora? O que a tomografia corneana trouxe de novo?

Mimi

A tomografia permite ver a córnea em três dimensões — curvatura anterior, posterior, espessura, perfil. Antes, dependíamos muito de topografia e acuidade visual. Agora conseguimos identificar olhos em risco antes de qualquer sintoma aparecer.

Luke

Mas isso significa que vamos diagnosticar ceratocone em pessoas que nunca teriam problema? Qual é o risco de sobretratamento?

Mimi

Por isso o consenso criou a categoria "suspeita de ceratocone" — para não rotular precipitadamente. E a análise biomecânica ajuda a distinguir quem realmente vai progredir.

Mark

E em crianças? Oitenta e seis por cento dos especialistas apoiam cross-linking no diagnóstico, mesmo sem progressão. Isso não é agressivo?

Mimi

Em crianças, o ceratocone tende a progredir mais rápido. Estabilizar cedo evita perda visual significativa durante os anos de desenvolvimento.

Luke

Mas esse número — oitenta e seis por cento — significa que catorze por cento discordam. Qual é a base de evidência para essa indicação precoce em crianças?

Mimi

É uma recomendação de consenso, não de ensaio clínico. A evidência está em evolução. Por isso o documento deixa claro que o protocolo deve ser individualizado conforme idade, velocidade de progressão e espessura da córnea.

Mark

E quanto às lentes de contato? Elas ainda funcionam bem?

Mimi

Sim, lentes rígidas, esclerais e híbridas melhoram muito a visão. Mas não estabilizam a doença — por isso o cross-linking segue sendo essencial.

Luke

Então o tratamento ideal é cross-linking mais lentes de contato?

Mimi

Geralmente sim. Mas se a doença estabilizar e a visão com lentes não for satisfatória, aí entram as opções cirúrgicas — PRK, segmentos de anel, até ceratoplastia em casos mais graves.

  • 128 especialistas de 12 sociedades científicas internacionais
  • Publicado em julho de 2026 na revista Cornea
  • 86% dos especialistas apoiam cross-linking em crianças no diagnóstico, mesmo sem progressão documentada
  • Tomografia de Scheimpflug e OCT do segmento anterior agora centrais no diagnóstico
  • Ceratoplastia lamelar anterior profunda preferida quando endotélio está saudável

Tomografia corneana e avaliação biomecânica permitem diagnóstico mais precoce e identificação de olhos suscetíveis antes de alterações clínicas evidentes. Cross-linking corneano permanece principal estratégia de estabilização, com recomendação de indicação em crianças no momento do diagnóstico mesmo sem progressão documentada.

Consenso Delphi de 128 especialistas internacionais atualiza abordagem do ceratocone com critérios multimodais, integrando tomografia corneana, análise biomecânica e novas estratégias terapêuticas para diagnóstico, estadiamento e planejamento cirúrgico.

Há pouco mais de um ano, a oftalmologia global reformulou seu entendimento sobre como diagnosticar, acompanhar e tratar o ceratocone. O documento, publicado em julho de 2026 na revista Cornea, representa uma mudança fundamental: sair de uma avaliação centrada principalmente em topografia e acuidade visual para uma estratégia que reúne dados estruturais, funcionais e biomecânicos. Cento e vinte e oito especialistas indicados por doze sociedades científicas internacionais trabalharam em sete grupos temáticos, usando um método Delphi modificado, para consolidar essa nova abordagem multimodal.

O ceratocone, definido como ectasia corneana primária, bilateral e tipicamente assimétrica, marcado pelo aumento progressivo da curvatura e afinamento da córnea, ganhou critérios mais precisos para seu reconhecimento. A tomografia de Scheimpflug e a OCT do segmento anterior agora ocupam lugar central no diagnóstico, permitindo integrar curvatura anterior e posterior, perfil de espessura e achados biomicroscópicos. O que muda na prática: a avaliação biomecânica pode identificar olhos suscetíveis antes mesmo de alterações clínicas evidentes aparecerem. O consenso também formalizou a categoria "suspeita de ceratocone" para olhos com alterações sugestivas ainda insuficientes para diagnóstico definitivo. Em crianças de seis a dezoito anos com astigmatismo superior a dois dioptrias, recomenda-se investigação com topografia de Plácido ou tomografia corneana. Para o estadiamento, propõe-se o sistema Belin ABCD.

O cross-linking corneano permanece como a principal estratégia de estabilização do ceratocone progressivo. A recomendação é indicar o procedimento quando a progressão estiver confirmada por parâmetros tomográficos ou topográficos. Mas há uma mudança significativa para crianças e adolescentes: oitenta e seis por cento dos especialistas consideraram razoável indicar cross-linking no momento do diagnóstico, mesmo sem progressão previamente documentada. A técnica epi-off segue como a mais utilizada, com destaque para o protocolo acelerado de nove mW/cm² por dez minutos e o protocolo clássico de Dresden. O epi-on fica reservado a situações selecionadas. Quando há progressão após o tratamento inicial, noventa por cento apoiaram novo cross-linking; após falha do epi-on, oitenta e seis por cento preferiram retratamento com epi-off. Em córneas com espessura estromal inferior a quatrocentos micrômetros, oitenta e seis por cento consideraram o cross-linking uma opção, embora sem consenso sobre um protocolo específico.

Para a reabilitação visual, lentes rígidas gás-permeáveis, híbridas, sistemas piggyback e lentes esclerais seguem centrais. Elas melhoram a função visual, mas não interrompem a progressão. O controle da alergia, do prurido e da irritação ocular, com orientação para evitar coçar os olhos, integra a abordagem clínica. Quando a doença está estável e a visão continua insatisfatória, podem ser considerados ceratectomia fotorrefrativa, segmentos de anel intracorneano, segmentos de anel intraestromal corneano alogênico, lentes intraoculares fácicas e ceratoplastia por adição de lentículo estromal. A ceratoplastia deve ser considerada quando a acuidade visual corrigida permanece insatisfatória e há baixa tolerância às lentes. A ceratoplastia lamelar anterior profunda é preferida quando o endotélio está saudável; a ceratoplastia penetrante fica reservada sobretudo para casos de disfunção endotelial ou cicatrização estromal profunda.

Na cirurgia refrativa eletiva, a tomografia corneana é obrigatória no pré-operatório. O consenso recomenda mapeamento epitelial, avaliação biomecânica e história familiar; o teste genético de rotina não foi recomendado. Em olhos com maior risco de ectasia, houve preferência pela ceratectomia fotorrefrativa em relação ao LASIK. Na cirurgia de catarata, a estabilidade corneana deve ser confirmada. Após cross-linking ou segmentos de anel intracorneano, recomenda-se aguardar pelo menos três meses. O cálculo da lente intraocular deve considerar múltiplas fórmulas, curvatura anterior e posterior, paquimetria e estabilidade das medidas. A Barrett True-K foi apontada como opção de primeira escolha, associada a outras estratégias. É importante notar que essas recomendações emergem de um consenso Delphi, não de um ensaio clínico ou metanálise. Tecnologias como segmentos de anel intraestromal corneano alogênico, ceratoplastia por adição de lentículo estromal, alguns protocolos epi-on e abordagens biomecânicas ainda apresentam evidências em evolução.

A principal mudança é a passagem de uma avaliação centrada sobretudo na topografia e na acuidade visual para uma estratégia que integra informações estruturais, funcionais e biomecânicas.
— Consenso Delphi 2026
Em crianças e adolescentes, 86% dos especialistas consideraram razoável indicar cross-linking no momento do diagnóstico, mesmo sem progressão previamente documentada.
— Consenso Delphi 2026
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