Nove partidos repassam R$ 21,6 mi a candidatos ligados ao crime organizado

A infiltração de candidatos ligados ao crime organizado na política compromete a representação democrática e desvia recursos públicos destinados a campanhas legítimas.
Dinheiro público segue para candidatos sob investigação enquanto tribunais decidem
Vinte candidatos apontados como ligados ao crime organizado continuam recebendo financiamento eleitoral durante análise de seus registros.
Mark

Como é possível que partidos continuem repassando dinheiro público para candidatos que estão sendo investigados por ligação com crime organizado?

Mimi

Porque existe um vácuo legal. Enquanto o TSE não toma uma decisão final, os candidatos têm direito de manter suas campanhas e receber recursos. Os partidos argumentam que estão apenas exercendo suas prerrogativas legais.

Luke

Mas espera — o tribunal já indeferiu alguns registros. Esses candidatos com registro indeferido ainda estão recebendo dinheiro?

Mimi

Sim. Clébio Jacaré, por exemplo, teve registro indeferido mas já recebeu R$ 1 milhão e aplicou R$ 100 mil. Ele pode continuar usando esses recursos enquanto aguarda decisão do TSE.

Mark

E os partidos dizem que não têm responsabilidade nisso?

Mimi

Muitos alegam que não têm meios para monitorar infiltração do crime organizado. Alguns discordam que seja atribuição deles fazer esse monitoramento.

Luke

Mas o tribunal do Rio está enviando candidaturas rejeitadas para a Procuradoria investigar a responsabilidade dos partidos. Isso sugere que alguém acha que sim, é responsabilidade deles.

Mimi

Exato. A Justiça Eleitoral e o Ministério Público estão cobrando dos partidos providências para prevenir isso. É uma pressão crescente.

Mark

Quanto dinheiro estamos falando?

Mimi

R$ 21,6 milhões em pelo menos vinte candidatos. Cícero Lucena sozinho recebeu R$ 5 milhões.

Luke

E ele foi condenado? Tem processo criminal?

Mimi

Não. Sua defesa nega qualquer envolvimento. O tribunal paraibano deferiu sua candidatura apesar do questionamento da Procuradoria. Os motivos do questionamento estão sob sigilo.

Mark

Então não sabemos exatamente por que a Procuradoria o questionou?

Luke

Não. E isso é um problema. Como avaliar se a decisão do tribunal foi correta se não conhecemos as acusações específicas?

  • R$ 21,6 milhões repassados por nove partidos a vinte candidatos
  • Cícero Lucena (MDB) recebeu R$ 5 milhões, maior beneficiário
  • Candidatos podem manter campanhas enquanto TSE analisa recursos contra indeferimentos
  • Rio de Janeiro teve maioria das impugnações por ligação com crime organizado

Candidatos suspeitos de ligação com facções criminosas, milícias e fraudes continuam recebendo financiamento público enquanto aguardam decisão do TSE sobre seus registros. Ex-senador Cícero Lucena (MDB) foi o maior beneficiário com R$ 5 milhões; TRE da Paraíba deferiu seu registro apesar de questionamento da Procuradoria sobre vínculo com crime organizado.

Nove partidos políticos repassaram ao menos R$ 21,6 milhões de verbas públicas para campanhas de 20 candidatos apontados pelo Ministério Público Eleitoral como vinculados ao crime organizado, milícias e fraudes.

Nove partidos políticos canalizaram pelo menos R$ 21,6 milhões em dinheiro público para financiar campanhas de vinte candidatos que o Ministério Público Eleitoral e tribunais regionais apontam como ligados ao crime organizado, milícias e esquemas de fraude. Os recursos continuam fluindo enquanto o sistema judicial examina se essas candidaturas devem ser rejeitadas — um vácuo que permite que homens e mulheres sob suspeita de envolvimento com facções criminosas, grupos paramilitares e fraudes contra cofres públicos mantenham suas campanhas ativas e gastem dinheiro dos contribuintes.

Os dados, extraídos da plataforma DivulgaCand da Justiça Eleitoral até 22 de setembro, revelam uma distribuição ampla entre legendas. O União Brasil lidera com cinco candidatos na lista; MDB e PRD têm três cada; PP, PSDB e Podemos têm dois; Avante, PT e Republicanos têm um. No Rio de Janeiro, onde a maioria das impugnações ocorreu, o tribunal eleitoral passou a encaminhar candidaturas rejeitadas à Procuradoria para investigar se os próprios partidos tiveram responsabilidade ao indicar esses nomes — uma medida tomada após pressão da Justiça Eleitoral e do Ministério Público para que as legendas criassem barreiras contra a infiltração criminosa.

O maior beneficiário é Cícero Lucena, ex-senador do MDB candidato ao governo da Paraíba, que recebeu R$ 5 milhões do fundo eleitoral. A Procuradoria questionou seu registro alegando vínculo com crime organizado, mas o tribunal paraibano deferiu a candidatura mesmo assim — os motivos do questionamento permanecem sob sigilo. A defesa de Lucena nega qualquer envolvimento criminal e afirma que ele não responde a processos em qualquer instância, que nunca foi alvo de medidas preventivas relacionadas a facções e que investigações não encontraram um único contato telefônico ou por mensagem com pessoas ligadas a grupos criminosos. A Procuradoria já recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral.

No Rio, Marcos Dias do Podemos recebeu cerca de R$ 4 milhões para sua campanha ao Senado. A Procuradoria o questionou por suspeitas de fraudes na saúde durante o governo Wilson Witzel, mas o tribunal deferiu sua candidatura porque ele não foi incluído nas denúncias formais do Ministério Público Federal — apenas foi alvo de busca e apreensão. Antonio Rueda, presidente do União Brasil no Rio e candidato a deputado federal, é o terceiro maior receptor com aproximadamente R$ 3 milhões. A Procuradoria se opôs a sua candidatura, argumentando que ele mantém relação com integrantes de milícia na Baixada Fluminense, mas o tribunal autorizou sua campanha no dia 22. Rueda respondeu que a decisão afasta as alegações e que o que ocorreu foi tentar converter vizinhança geográfica e convivência política em crime eleitoral.

Em São Paulo, Ney Santos, ex-prefeito de Embu das Artes e filiado ao Republicanos, recebeu R$ 2,4 milhões dos fundos eleitoral e partidário. A Procuradoria o vinculou ao PCC, mas o tribunal paulista deferiu sua candidatura, entendendo que é necessária uma condenação por órgão colegiado para impedir uma candidatura — não bastam inquéritos em andamento ou menções em ações pretéritas. Santos é aliado do governador Tarcísio de Freitas, que disputa reeleição. Sua defesa nega as acusações e afirma que a autorização para concorrer significa que não há irregularidade no uso dos recursos.

Entre os candidatos cujos registros foram indeferidos, Clébio Jacaré do União Brasil no Rio recebeu o maior volume: R$ 1 milhão do partido, dos quais já aplicou R$ 100 mil em uma empresa da qual é sócio. A Procuradoria afirma que ele participou de fraudes em licitações na Prefeitura de Itatiaia, integrando o que o tribunal chamou de "milícia de gravata" — um termo criado para descrever grupos envolvidos em fraudes organizadas contra os cofres públicos. Sua campanha defendeu a contratação como legítima e em conformidade com normas eleitorais.

Os partidos, quando responderam à Folha, apresentaram posições defensivas. O União Brasil disse que aguarda decisão do TSE e que não houve determinação expressa vetando o repasse de recursos. O Podemos afirmou que manterá as candidaturas enquanto houver possibilidade jurídica de discussão. O MDB declarou ter vetado candidatos já condenados e que respeitará decisões judiciais que comprovem culpabilidade. O PP-RJ anunciou que expulsará Mariana de Souza de seus quadros — ela é casada com suspeito de ser número dois na hierarquia do Comando Vermelho no estado e teve candidatura indeferida. Os demais partidos não responderam.

O sistema de financiamento eleitoral brasileiro é majoritariamente público. Em 2026, o fundo eleitoral foi estipulado em R$ 4,96 bilhões, distribuído apenas em anos de eleição. O fundo partidário, usado para manutenção das legendas todos os anos e também para campanhas, recebeu R$ 1,43 bilhão em parcelas mensais. Os candidatos têm autorização legal para manter campanhas e receber recursos enquanto o TSE analisa recursos contra indeferimentos — um intervalo que permite que dinheiro público continue fluindo para pessoas sob investigação por envolvimento com crime organizado.

O que se tentou foi converter vizinhança geográfica, convivência política e ato de terceiro lícito em ilícito eleitoral
— Antonio Rueda, presidente do União Brasil no Rio
A direção crê na importância das investigações, e vai respeitar as decisões judiciais que comprovarem a culpabilidade dos citados
— MDB, em resposta à Folha
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