Candidatos suspeitos de ligação com facções criminosas, milícias e fraudes continuam recebendo financiamento público enquanto aguardam decisão do TSE sobre seus registros. Ex-senador Cícero Lucena (MDB) foi o maior beneficiário com R$ 5 milhões; TRE da Paraíba deferiu seu registro apesar de questionamento da Procuradoria sobre vínculo com crime organizado.
Nove partidos repassam R$ 21,6 mi a candidatos ligados ao crime organizado
Dinheiro público segue para candidatos sob investigação enquanto tribunais decidem
Como é possível que partidos continuem repassando dinheiro público para candidatos que estão sendo investigados por ligação com crime organizado?
Porque existe um vácuo legal. Enquanto o TSE não toma uma decisão final, os candidatos têm direito de manter suas campanhas e receber recursos. Os partidos argumentam que estão apenas exercendo suas prerrogativas legais.
Mas espera — o tribunal já indeferiu alguns registros. Esses candidatos com registro indeferido ainda estão recebendo dinheiro?
Sim. Clébio Jacaré, por exemplo, teve registro indeferido mas já recebeu R$ 1 milhão e aplicou R$ 100 mil. Ele pode continuar usando esses recursos enquanto aguarda decisão do TSE.
E os partidos dizem que não têm responsabilidade nisso?
Muitos alegam que não têm meios para monitorar infiltração do crime organizado. Alguns discordam que seja atribuição deles fazer esse monitoramento.
Mas o tribunal do Rio está enviando candidaturas rejeitadas para a Procuradoria investigar a responsabilidade dos partidos. Isso sugere que alguém acha que sim, é responsabilidade deles.
Exato. A Justiça Eleitoral e o Ministério Público estão cobrando dos partidos providências para prevenir isso. É uma pressão crescente.
Quanto dinheiro estamos falando?
R$ 21,6 milhões em pelo menos vinte candidatos. Cícero Lucena sozinho recebeu R$ 5 milhões.
E ele foi condenado? Tem processo criminal?
Não. Sua defesa nega qualquer envolvimento. O tribunal paraibano deferiu sua candidatura apesar do questionamento da Procuradoria. Os motivos do questionamento estão sob sigilo.
Então não sabemos exatamente por que a Procuradoria o questionou?
Não. E isso é um problema. Como avaliar se a decisão do tribunal foi correta se não conhecemos as acusações específicas?
El Pulso
- R$ 21,6 milhões repassados por nove partidos a vinte candidatos
- Cícero Lucena (MDB) recebeu R$ 5 milhões, maior beneficiário
- Candidatos podem manter campanhas enquanto TSE analisa recursos contra indeferimentos
- Rio de Janeiro teve maioria das impugnações por ligação com crime organizado
Candidatos suspeitos de ligação com facções criminosas, milícias e fraudes continuam recebendo financiamento público enquanto aguardam decisão do TSE sobre seus registros. Ex-senador Cícero Lucena (MDB) foi o maior beneficiário com R$ 5 milhões; TRE da Paraíba deferiu seu registro apesar de questionamento da Procuradoria sobre vínculo com crime organizado.
Nove partidos políticos repassaram ao menos R$ 21,6 milhões de verbas públicas para campanhas de 20 candidatos apontados pelo Ministério Público Eleitoral como vinculados ao crime organizado, milícias e fraudes.
Nove partidos políticos canalizaram pelo menos R$ 21,6 milhões em dinheiro público para financiar campanhas de vinte candidatos que o Ministério Público Eleitoral e tribunais regionais apontam como ligados ao crime organizado, milícias e esquemas de fraude. Os recursos continuam fluindo enquanto o sistema judicial examina se essas candidaturas devem ser rejeitadas — um vácuo que permite que homens e mulheres sob suspeita de envolvimento com facções criminosas, grupos paramilitares e fraudes contra cofres públicos mantenham suas campanhas ativas e gastem dinheiro dos contribuintes.
Os dados, extraídos da plataforma DivulgaCand da Justiça Eleitoral até 22 de setembro, revelam uma distribuição ampla entre legendas. O União Brasil lidera com cinco candidatos na lista; MDB e PRD têm três cada; PP, PSDB e Podemos têm dois; Avante, PT e Republicanos têm um. No Rio de Janeiro, onde a maioria das impugnações ocorreu, o tribunal eleitoral passou a encaminhar candidaturas rejeitadas à Procuradoria para investigar se os próprios partidos tiveram responsabilidade ao indicar esses nomes — uma medida tomada após pressão da Justiça Eleitoral e do Ministério Público para que as legendas criassem barreiras contra a infiltração criminosa.
O maior beneficiário é Cícero Lucena, ex-senador do MDB candidato ao governo da Paraíba, que recebeu R$ 5 milhões do fundo eleitoral. A Procuradoria questionou seu registro alegando vínculo com crime organizado, mas o tribunal paraibano deferiu a candidatura mesmo assim — os motivos do questionamento permanecem sob sigilo. A defesa de Lucena nega qualquer envolvimento criminal e afirma que ele não responde a processos em qualquer instância, que nunca foi alvo de medidas preventivas relacionadas a facções e que investigações não encontraram um único contato telefônico ou por mensagem com pessoas ligadas a grupos criminosos. A Procuradoria já recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral.
No Rio, Marcos Dias do Podemos recebeu cerca de R$ 4 milhões para sua campanha ao Senado. A Procuradoria o questionou por suspeitas de fraudes na saúde durante o governo Wilson Witzel, mas o tribunal deferiu sua candidatura porque ele não foi incluído nas denúncias formais do Ministério Público Federal — apenas foi alvo de busca e apreensão. Antonio Rueda, presidente do União Brasil no Rio e candidato a deputado federal, é o terceiro maior receptor com aproximadamente R$ 3 milhões. A Procuradoria se opôs a sua candidatura, argumentando que ele mantém relação com integrantes de milícia na Baixada Fluminense, mas o tribunal autorizou sua campanha no dia 22. Rueda respondeu que a decisão afasta as alegações e que o que ocorreu foi tentar converter vizinhança geográfica e convivência política em crime eleitoral.
Em São Paulo, Ney Santos, ex-prefeito de Embu das Artes e filiado ao Republicanos, recebeu R$ 2,4 milhões dos fundos eleitoral e partidário. A Procuradoria o vinculou ao PCC, mas o tribunal paulista deferiu sua candidatura, entendendo que é necessária uma condenação por órgão colegiado para impedir uma candidatura — não bastam inquéritos em andamento ou menções em ações pretéritas. Santos é aliado do governador Tarcísio de Freitas, que disputa reeleição. Sua defesa nega as acusações e afirma que a autorização para concorrer significa que não há irregularidade no uso dos recursos.
Entre os candidatos cujos registros foram indeferidos, Clébio Jacaré do União Brasil no Rio recebeu o maior volume: R$ 1 milhão do partido, dos quais já aplicou R$ 100 mil em uma empresa da qual é sócio. A Procuradoria afirma que ele participou de fraudes em licitações na Prefeitura de Itatiaia, integrando o que o tribunal chamou de "milícia de gravata" — um termo criado para descrever grupos envolvidos em fraudes organizadas contra os cofres públicos. Sua campanha defendeu a contratação como legítima e em conformidade com normas eleitorais.
Os partidos, quando responderam à Folha, apresentaram posições defensivas. O União Brasil disse que aguarda decisão do TSE e que não houve determinação expressa vetando o repasse de recursos. O Podemos afirmou que manterá as candidaturas enquanto houver possibilidade jurídica de discussão. O MDB declarou ter vetado candidatos já condenados e que respeitará decisões judiciais que comprovem culpabilidade. O PP-RJ anunciou que expulsará Mariana de Souza de seus quadros — ela é casada com suspeito de ser número dois na hierarquia do Comando Vermelho no estado e teve candidatura indeferida. Os demais partidos não responderam.
O sistema de financiamento eleitoral brasileiro é majoritariamente público. Em 2026, o fundo eleitoral foi estipulado em R$ 4,96 bilhões, distribuído apenas em anos de eleição. O fundo partidário, usado para manutenção das legendas todos os anos e também para campanhas, recebeu R$ 1,43 bilhão em parcelas mensais. Os candidatos têm autorização legal para manter campanhas e receber recursos enquanto o TSE analisa recursos contra indeferimentos — um intervalo que permite que dinheiro público continue fluindo para pessoas sob investigação por envolvimento com crime organizado.
Citas Notables
O que se tentou foi converter vizinhança geográfica, convivência política e ato de terceiro lícito em ilícito eleitoral— Antonio Rueda, presidente do União Brasil no Rio
A direção crê na importância das investigações, e vai respeitar as decisões judiciais que comprovarem a culpabilidade dos citados— MDB, em resposta à Folha