A cecília Maria foi identificada através de análise genética e microtomografia após ser coletada em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. O estudo também revelou que o gênero Luetkenotyphlus é sinônimo de Siphonops, e identificou potencialmente duas outras novas espécies em São Paulo e Espírito Santo.
Nova espécie de anfíbio recebe nome 'Maria' em homenagem às mulheres brasileiras
Material coletado no Brasil no século 19 está trancado em Londres
Por que batizar uma espécie de anfíbio com um nome tão comum? Não parece estranho usar Maria em vez de algo mais científico?
É exatamente o ponto. Maria é o nome mais popular do Brasil — mais de 12 milhões de pessoas. Mas também é um ato de memória: homenageia uma mulher escravizada que ajudou a reflorestar a Tijuca. A ciência não precisa ser fria e distante.
Espera aí. A fonte menciona essa mulher escravizada, mas não dá nome, data ou detalhes. Sabemos realmente quem ela era ou é mais um gesto simbólico?
É um gesto, sim. Mas um gesto intencional. Para Maciel, é pessoal — sua mãe e tias se chamam Maria. Há camadas aqui.
E quanto à descoberta em si? Como levou 11 anos para descrever formalmente uma espécie coletada em 2015?
Porque cecílias são difíceis. Parecem todas iguais a olho nu. Precisavam de análise genética, microtomografia, tomografia computadorizada. E precisavam comparar com exemplares históricos em museus.
Aí está o problema real. Eles não conseguiram acessar os espécimes que precisavam. O Museu de História Natural de Londres negou permissão para extrair DNA. Isso bloqueou a confirmação de outras duas possíveis espécies.
Exatamente. Material coletado no Brasil no século 19 está trancado em Londres. Os cientistas brasileiros não conseguem estudar sua própria biodiversidade.
Então há mais espécies esperando para serem descritas, mas a ciência está presa a uma questão de acesso?
Sim. E a fonte deixa claro que isso é um problema estrutural, não um acidente. Começou na colonização e continua.
Maciel diz que seguem buscando. Pode levar mais alguns anos, mas a busca continua.
The Pulse
- Cecília Maria coletada em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos, Rio de Janeiro
- Identificada através de análise genética e microtomografia após 11 anos de estudo
- Gênero Luetkenotyphlus declarado sinônimo de Siphonops
- Duas outras linhagens potencialmente novas espécies identificadas em São Paulo e Espírito Santo
- Museu de História Natural de Londres negou acesso a exemplares coletados no Brasil no século 19
A cecília Maria foi identificada através de análise genética e microtomografia após ser coletada em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. O estudo também revelou que o gênero Luetkenotyphlus é sinônimo de Siphonops, e identificou potencialmente duas outras novas espécies em São Paulo e Espírito Santo.
Pesquisadores descrevem nova espécie de cecília exclusiva do Rio de Janeiro, batizada Maria em homenagem ao nome mais popular do Brasil e a uma mulher escravizada que ajudou a reflorestar a Tijuca.
Um anfíbio que passa a vida inteira debaixo da terra, com olhos tão reduzidos que mal enxerga, acaba de ganhar um nome que ecoa em mais de 12 milhões de brasileiros. A cecília Maria, descrita formalmente por pesquisadores do Museu Paraense Emilio Goeldi, é uma espécie encontrada exclusivamente no Rio de Janeiro — e seu batismo carrega duas histórias que se entrelaçam.
Adriamo Oliveira Maciel, primeiro autor do estudo, explica que a escolha do nome Maria funciona em múltiplas camadas. É, claro, uma homenagem a um nome que atravessa gerações no Brasil — o mais popular do país e um dos mais usados no mundo. Mas também reverencia uma mulher escravizada que trabalhou no reflorestamento da Tijuca, um ato de memória embutido na nomenclatura científica. Para Maciel, a decisão é pessoal também: sua mãe e quase todas as suas tias se chamam Maria.
A descoberta não foi rápida. O espécime que serviu como referência para toda a espécie — o que os cientistas chamam de holótipo — foi coletado em 2015 no Parque Nacional da Serra dos Órgãos. Quando Maciel o recebeu, notou algo fora do lugar. O número de anéis que marcam o corpo do animal e sua dentição não correspondiam ao que se conhecia sobre a espécie Siphonops hardyi, a qual inicialmente se pensava tratar. O sequenciamento genético confirmou: era uma linhagem completamente diferente, nunca antes descrita pela ciência.
Cecílias são anfíbios fossoriais — vivem majoritariamente enterradas, percebendo o mundo através de órgãos sensoriais na cabeça em vez de olhos funcionais. O nome cecília vem do latim caecus, cego. Diferenciar uma espécie de outra é tarefa árdua porque suas características externas são notavelmente semelhantes. Mas ferramentas modernas abriram caminho: análise genética, microtomografia e tomografia computadorizada de alta resolução permitiram aos pesquisadores visualizar sutilezas no crânio e na estrutura óssea que distinguem S. maria de seus parentes próximos.
O trabalho se estendeu por anos. Em 2018 e 2022, Maciel viajou ao Museu de História Natural de Paris e ao Museu Nacional do Rio para examinar outras cecílias do mesmo gênero. Foi então que encontrou exemplares catalogados como S. hardyi que, na verdade, apresentavam as características de S. maria — um deles coletado em 1902, também na Serra dos Órgãos. A comparação com múltiplos espécimes consolidou a descrição da nova espécie.
O estudo trouxe uma descoberta adicional: o gênero Luetkenotyphlus não se distinguia suficientemente de Siphonops, levando os pesquisadores a declará-lo um sinônimo. Mas há mais. Ao comparar S. maria com outras espécies, os cientistas identificaram duas outras linhagens de cecílias que se assemelham a S. hardyi e que potencialmente representam espécies ainda não descritas. Uma foi detectada em Ubatuba, no litoral de São Paulo; outra nos municípios de Castelo e Domingos Martins, no Espírito Santo.
Aqui emerge um obstáculo que revela tensões históricas na ciência. Para confirmar se essas linhagens são de fato novas espécies, os pesquisadores precisariam acessar o holótipo original de S. hardyi, coletado em Porto Real, no Rio de Janeiro — mas não o possuem. Pior: exemplares dessa espécie coletados no Brasil no século 19 estão depositados no Museu de História Natural de Londres. Quando os pesquisadores solicitaram permissão para extrair uma pequena amostra de tecido e sequenciar o DNA usando técnicas modernas que funcionam com material degradado, o museu negou. Outros espécimes também estão espalhados por instituições europeias, fora do alcance dos cientistas que estudam a biodiversidade brasileira.
Essa prática de coleta e armazenamento de material científico em instituições do Norte Global começou no período colonial e persiste. Dificulta aos países em desenvolvimento conhecer sua própria biodiversidade. Nos últimos anos, cientistas do Sul Global têm proposto soluções — facilitação de acesso, repatriação de exemplares — mas o progresso é lento. Por enquanto, Maciel e seus colaboradores seguem buscando mais exemplares com características similares na Mata Atlântica, sabendo que a confirmação de novas espécies pode levar ainda alguns anos.
Notable Quotes
Acabou sendo também uma homenagem às mulheres do Brasil, uma vez que é o nome mais popular do país e um dos mais utilizados no mundo. Aqui há mais de 12 milhões de Marias.— Adriano Oliveira Maciel, pesquisador do Museu Paraense Emilio Goeldi
Pedimos para retirar um pequeno pedaço de tecido que pudesse ser sequenciado por técnicas modernas que extraem DNA de amostras degradadas, mas o museu não deu autorização.— Toledo, pesquisador da Unicamp