Nova combinação de medicamentos reduz em 44% risco de progressão do câncer de mama HER2-positivo metastático

Cerca de 63% das pacientes tiveram reações graves ao tratamento, principalmente neutropenia, hipocalemia e anemia; 12,1% do grupo experimental apresentou pneumonite ou doença pulmonar intersticial.
Tratamento paliativo não é terminal
O oncologista Romualdo Barros explica que o objetivo no câncer metastático é controlar a doença, não encerrar a esperança.
Mark

O número que mais chama atenção é 44%. O que ele significa na prática?

Mimi

É a redução do risco de progressão ou morte. Na prática, a mediana de sobrevida livre de progressão foi de 40,7 meses contra 26,9 meses no tratamento padrão.

Mark

Quase 14 meses a mais, então.

Luke

Em controle da doença, sim. Mas isso não é o mesmo que viver mais. A sobrevida global ainda não foi publicada.

Mimi

Exato. Muitos participantes seguem vivos e com a doença controlada, então ainda não houve tempo para avaliar esse desfecho.

Mark

E os efeitos colaterais?

Mimi

Reações graves em cerca de 63% das pacientes, sobretudo neutropenia, hipocalemia e anemia. A pneumonite apareceu em 12,1% do grupo experimental, a maioria leve, e em 1% do controle.

Luke

O texto não informa quanto dos 63% pertence a cada grupo, então não dá para comparar a toxicidade geral entre os braços.

Mark

E o grupo com placebo?

Luke

Sem resultados divulgados. Barros diz que a análise previa avaliar cada braço de forma independente, mas é uma informação que ainda falta.

Mimi

Para o paciente brasileiro há outro ponto: o Enhertu só está na saúde suplementar, e o uso em primeira linha ainda aguarda a FDA.

  • O câncer de mama HER2-positivo metastático avança rápido, e as pacientes do estudo enfrentavam uma doença que não tinha mais cura definitiva.
  • A nova combinação estendeu a sobrevida livre de progressão para 40,7 meses, contra 26,9 meses do tratamento padrão, uma diferença que muda a rotina de quem recebe o diagnóstico.
  • Cerca de 63% das pacientes tiveram reações graves, como queda de neutrófilos e anemia, e 12,1% desenvolveram pneumonite, forçando médicos a equilibrar ganho e risco.
  • O medicamento já é aprovado no Brasil para a segunda linha, mas só está disponível na saúde suplementar, enquanto a FDA analisa seu uso em primeira linha e a sobrevida global segue sem divulgação.

Num caminho que a medicina percorre há décadas, entre esperança e cautela, um estudo internacional com participação brasileira sugere que a combinação de trastuzumabe deruxtecana com pertuzumabe pode adiar por mais tempo o avanço de um dos subtipos mais agressivos do câncer de mama. Para as mulheres que convivem com a doença metastática, o dado mais significativo não é a cura, que ainda não está ao alcance de todas, mas a extensão do tempo vivido com o câncer sob controle. Ainda assim, o caminho até os consultórios e aos sistemas públicos é desigual, e o que vem depois de primeira linha permanece em aberto.

Entre 2021 e 2023, 1.157 mulheres com câncer de mama metastático HER2-positivo, recrutadas em 279 centros de 20 países, incluindo o Brasil, entraram em um estudo sem saber o peso que a escolha do tratamento teria sobre o tempo de controle da doença. Elas foram divididas em três grupos, e os resultados, publicados no New England Journal of Medicine, mostram uma diferença concreta: a combinação de trastuzumabe deruxtecana com pertuzumabe reduziu em até 44% o risco de progressão ou morte, com sobrevida livre de progressão de 40,7 meses contra 26,9 meses no esquema padrão.

O ganho não veio sem custo. Cerca de 63% das pacientes tiveram reações graves, sobretudo neutropenia, hipocalemia e anemia, e 12,1% do grupo experimental desenvolveu pneumonite ou doença pulmonar intersticial, em geral de grau leve. A resposta completa, quando o tumor desaparece, atingiu 15,1% das pacientes, frente a 8,5% no controle.

O oncologista Romualdo Barros, do Hospital Brasília e um dos autores, lembra que o tratamento metastático é paliativo, mas não necessariamente terminal: o objetivo é manter a doença sob controle, como no diabetes, e alguns pacientes vivem oito, dez ou até quinze anos com boa qualidade de vida. Já Camilo Campos, do Hospital Casa Premium, vê um ganho sem precedentes e acredita que o achado deve influenciar as diretrizes, mas alerta que a sobrevida global ainda não foi divulgada.

O acesso, porém, é desigual. Taxano, trastuzumabe e pertuzumabe estão no SUS, enquanto o trastuzumabe deruxtecana, aprovado pela Anvisa para a segunda linha, só existe na saúde suplementar. O pedido para uso em primeira linha segue em análise na FDA, e a discussão sobre se a nova combinação pode virar o padrão inicial de tratamento apenas começou.

Quando as pacientes do estudo foram sorteadas para um dos três grupos de tratamento, entre 2021 e 2023, nenhuma delas sabia que a escolha poderia pesar tanto na duração do controle da doença. Os resultados, publicados no New England Journal of Medicine, mostram que a combinação de trastuzumabe deruxtecana com pertuzumabe reduziu em até 44% o risco de progressão ou morte em mulheres com câncer de mama metastático HER2-positivo, em comparação com o regime usado há mais de 15 anos.

A diferença aparece na sobrevida livre de progressão, o tempo em que metade das pacientes segue sem que o câncer cresça ou piore após o início do tratamento. Foi de 40,7 meses no grupo da nova combinação e de 26,9 meses no grupo que recebeu o tratamento padrão, formado por um taxano, trastuzumabe e pertuzumabe, conhecido como THP.

O subtipo HER2-positivo responde por cerca de 10% a 15% dos casos de câncer de mama no mundo, segundo o NIH, o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. O tumor tem alta expressão da proteína HER2, que estimula o crescimento das células tumorais, e costuma crescer mais rápido e se comportar de forma mais agressiva.

O ensaio reuniu 1.157 pacientes com doença metastática que ainda não haviam recebido tratamento para essa fase. Elas foram recrutadas em 279 centros de 20 países, incluindo o Brasil, e divididas aleatoriamente em três grupos: trastuzumabe deruxtecana com pertuzumabe, trastuzumabe deruxtecana com placebo (para medir o papel do pertuzumabe) e o tratamento padrão, que serviu de controle.

Com dados coletados até fevereiro de 2025, o índice de resposta objetiva, a proporção de pacientes cujo tumor encolheu, foi de 85,1% no grupo experimental e de 78,6% no controle. A resposta completa, quando o tumor desaparece, ocorreu em 15,1% das pacientes da nova combinação e em 8,5% das que receberam o tratamento padrão.

Há custos. Reações graves atingiram cerca de 63% das pacientes, principalmente neutropenia, hipocalemia e anemia, em perfil semelhante ao esperado para cada medicamento. Doença pulmonar intersticial ou pneumonite apareceu em 12,1% do grupo experimental, a maioria em grau leve, contra 1% no controle.

Os resultados do grupo com placebo ainda não foram divulgados. O oncologista Romualdo Barros, do Hospital Brasília e um dos autores, diz que isso não compromete a análise, pois cada braço é comparado separadamente com o controle. Ele lembra que o tratamento do câncer metastático é paliativo, mas afirma que isso não significa terminalidade: o objetivo é controle, como no diabetes. Segundo ele, com as novas terapias alguns pacientes alcançam cura e outros vivem oito, dez ou até quinze anos com boa qualidade de vida.

No acesso, o cenário é desigual. Taxano, trastuzumabe e pertuzumabe estão no SUS. Já o trastuzumabe deruxtecana (Enhertu), aprovado pela Anvisa a partir da segunda linha de tratamento, só está disponível na saúde suplementar. O pedido de uso em primeira linha está em análise na FDA, agência regulatória dos EUA, e Barros explica que a aprovação de novas indicações depende das empresas detentoras da molécula e de um processo regulatório global.

O oncologista Camilo Campos, gerente médico do Hospital Casa Premium, da Rede Casa, vê um ganho de controle da doença sem precedentes, que deve influenciar as diretrizes. Ele ressalta, porém, que o estudo não terminou: a sobrevida global ainda não foi publicada, porque muitos participantes estão vivos e com a doença controlada. Sociedades médicas já discutem se o esquema pode virar o novo padrão de primeira linha.

Tratamento paliativo não é terminal; o objetivo é controle.
— Romualdo Barros, oncologista do Hospital Brasília e coautor do estudo
O estudo mostra um ganho de controle da doença sem precedentes e deve influenciar as futuras diretrizes clínicas.
— Camilo Campos, gerente médico do Hospital Casa Premium
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