Roubini: mercados estão a disciplinar Trump e a forçar recuos em políticas

Se algo estiver errado, os mercados punem
Roubini argumenta que os mercados funcionam como mecanismo automático de disciplina sobre decisões políticas.

No palco do QSP Summit no Porto, o economista Nouriel Roubini — conhecido por ter antecipado a crise de 2008 — apresentou os mercados financeiros como uma espécie de árbitro silencioso do poder político: quando governos erram, os mercados punem, e quando punem, os governos recuam. O caso de Trump, forçado a rever tarifas e posições internacionais após quedas de mercado, surge como prova viva de que existe um mecanismo de correção que não depende de eleições nem de parlamentos, mas da soma de milhões de decisões de investidores que protegem o seu próprio dinheiro.

  • Roubini alerta que nenhum governo, nem mesmo o dos EUA, está imune à pressão dos mercados globais — todos dependem da 'bondade de estranhos' para financiar as suas políticas.
  • As quedas de mercado provocadas por decisões controversas de Trump — tarifas agressivas, confrontos com o Irão — forçaram recuos concretos e em tempo real, tornando visível o poder disciplinador dos investidores.
  • O caso de Liz Truss, derrubada em 44 dias não pelos seus pares políticos mas pelos mercados, é citado como exemplo extremo de como a punição financeira pode ser mais eficaz do que qualquer mecanismo institucional.
  • Roubini reconhece que os mercados não são infalíveis, mas defende que, na maioria das vezes, conseguem distinguir boas de más políticas e agir em conformidade — recompensando umas e punindo as outras.
  • O economista termina com um otimismo invulgar: a existência deste freio automático sobre o poder executivo pode impedir que as piores políticas causem danos irreversíveis antes que seja tarde demais.

Nouriel Roubini, o economista que previu o colapso de 2008, subiu ao palco do QSP Summit no Porto com uma mensagem inesperadamente reconfortante: os mercados estão a fazer o trabalho que os políticos não conseguem fazer sozinhos. Quando Trump toma decisões que desagradam aos investidores, os mercados caem. E quando caem, Trump recua. É punição em tempo real, e funciona.

O mecanismo, explicou Roubini, é ao mesmo tempo simples e brutal. Milhões de investidores em todo o mundo avaliam constantemente a regulação, a governança e a estabilidade política de cada país, fazendo apostas com dinheiro real. Quando um governo implementa más políticas, a resposta é imediata: venda de ativos, desvalorização da moeda, pressão sobre a dívida soberana. O exemplo de Liz Truss — derrubada em 44 dias não pelos seus pares, mas pelos mercados — ilustra até onde pode chegar essa pressão. Os EUA, apesar do seu poder, não são exceção: estão igualmente à mercê da 'bondade de estranhos'.

Roubini foi, porém, cuidadoso em não idealizar os mercados. Admitiu que os investidores não são perfeitos e que nem sempre estão certos. Mas argumentou que, na maioria das vezes, conseguem ver o mundo com clareza suficiente para recompensar quem faz as coisas bem e punir quem não faz.

O que o deixou mais otimista do que o habitual foi precisamente a existência deste freio automático embutido no sistema: um limite ao poder executivo que não depende de eleições nem de votações parlamentares, mas de decisões de investimento tomadas por pessoas que tentam, acima de tudo, proteger o seu próprio dinheiro. Essa disciplina, concluiu, pode ser a barreira que impede as piores políticas de causar danos irreversíveis.

Nouriel Roubini, o economista que antecipou o colapso financeiro de 2008, subiu ao palco da 19.ª edição do QSP Summit no Porto com uma mensagem que soava quase reconfortante: os mercados estão a fazer o trabalho que os políticos não fazem sozinhos. Quando Trump toma decisões que desagradam aos investidores — tarifas agressivas, confrontos com o Irão — os mercados caem. E quando caem, Trump recua. É punição em tempo real, disse Roubini, e funciona.

O mecanismo é simples na sua descrição. Os mercados financeiros, compostos por milhões de investidores domésticos e estrangeiros, avaliam constantemente se um país tem a regulação adequada, as políticas estruturais certas, a governança apropriada, a estabilidade política necessária. Fazem apostas com dinheiro real baseadas nessa avaliação. Quando um governo implementa o que consideram ser más políticas, punem-no através da venda de ativos, da desvalorização da moeda, da pressão sobre a dívida soberana. É brutal, mas é eficaz.

Roubini usou um exemplo recente para ilustrar o ponto. Liz Truss, ex-primeira-ministra britânica, durou apenas 44 dias no cargo. Não foi porque os políticos se revoltaram contra ela. Foi porque os mercados não gostaram das suas políticas e a forçaram para fora. Os EUA, apesar da sua poder, não estão imunes a este mecanismo. Estão, como disse Roubini, à mercê da "bondade de estranhos" — os mercados globais que decidem se vale a pena investir no país ou não.

Mas Roubini foi cuidadoso em não canonizar os mercados. Admitiu que nem sempre estão certos. Os investidores não são perfeitos. Mas a sua observação foi que, na maioria das vezes, conseguem ver o mundo com clareza suficiente para recompensar os países, empresas e setores que fazem as coisas bem e punir os que não fazem. E essa punição, por mais brutal que seja, muitas vezes força as mudanças políticas e as reformas estruturais que são necessárias.

O que deixou Roubini mais otimista do que o habitual foi precisamente isto: a ideia de que existe um mecanismo de correção automática embutido no sistema. Se algo está errado, os mercados punem. Se os mercados punem, os políticos recuam ou mudam de rumo. É um freio sobre o poder executivo, um limite que não depende de eleições ou de votações no parlamento, mas de decisões de investimento tomadas por pessoas em todo o mundo que estão a tentar proteger o seu dinheiro. Essa disciplina, argumentou, vai restringir as piores políticas antes que causem danos irreversíveis.

A disciplina do mercado vai restringir más políticas
— Nouriel Roubini
Nem sempre o mercado está certo, mas quase sempre consegue recompensar os países que fazem a coisa certa e punir aqueles que não estão
— Nouriel Roubini
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Quando diz que os mercados estão a "punir" Trump, está a falar de uma queda de 3% ou de algo mais estrutural?

Model

É mais estrutural. Cada vez que há uma decisão controversa — uma tarifa nova, uma ameaça — vê-se uma reação imediata nos índices, na moeda, na dívida. Trump vê isso e recua. Não é uma punição simbólica.

Inventor

Mas os mercados não são também voláteis, irracionais às vezes? Como é que isso é um mecanismo de disciplina fiável?

Model

Claro que há irracionalidade. Mas Roubini estava a dizer que, na maioria das vezes, milhões de investidores a avaliar simultaneamente conseguem ver padrões que importam. Não é perfeito, mas funciona melhor do que nada.

Inventor

E se um presidente simplesmente ignorar os mercados? Se disser que não se importa com as quedas?

Model

Aí é onde entra a realidade política. Pode ignorar uma queda de um dia. Mas se a queda for persistente, se afectar empregos, se a moeda desvalorizar muito, a pressão política interna torna-se insuportável. Os mercados forçam ajustes indirectamente.

Inventor

Liz Truss é um bom exemplo, mas ela durou 44 dias por razões políticas também, não apenas por mercados.

Model

Verdade. Mas Roubini estava a usar isso como ilustração de que os mercados podem ser o factor decisivo quando tudo o resto falha. Ela implementou políticas que os mercados rejeitaram, e isso acelerou o colapso político.

Inventor

Então a sua mensagem é que devemos confiar nos mercados como guardiões da boa política?

Model

Não exatamente. É mais que os mercados são um mecanismo de feedback que funciona. Não são perfeitos, mas são poderosos. E quando tudo o resto falha — quando os políticos não se auto-regulam — os mercados forçam a realidade.

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