Neurocientista brasileira ganha prêmio internacional por pesquisa ligando psicoses a mecanismos imunológicos

Pacientes com esquizofrenia e outros transtornos psicóticos enfrentam sofrimento prolongado, com 30% não respondendo a tratamentos convencionais, impactando qualidade de vida e bem-estar.
Os obstáculos são reais, mas não são intransponíveis
Mensagem de Zuelli para meninas que sonham com carreira científica, refletindo sua própria trajetória.
Mark

Por que uma descoberta sobre o sistema imunológico em psicoses é tão importante agora, neste momento?

Mimi

Porque durante décadas tratamos transtornos mentais como se fossem apenas problemas do cérebro, isolados do resto do corpo. Quando você descobre que o sistema imunológico está envolvido, você muda completamente a forma como pensa em tratamento. Deixa de ser só psicofarmacologia e passa a ser medicina de verdade.

Mark

E quanto àqueles 30% que não respondem aos medicamentos convencionais? O que acontece com eles?

Mimi

Continuam sofrendo. Alguns passam por anos testando diferentes antipsicóticos, efeitos colaterais, esperança e decepção. Se conseguirmos identificar que a pessoa tem um perfil inflamatório específico, podemos prescrever algo que realmente funcione para ela, não para a média.

Mark

Você mencionou que sua mãe cuidou de sua irmã. Como isso influenciou sua escolha de pesquisa?

Mimi

Você vê de perto o que a doença faz. Não é abstrato. É ver alguém que você ama lutando contra algo que ninguém consegue explicar direito. Isso te move de um jeito que nenhuma bolsa de pesquisa consegue.

Mark

Qual é o maior obstáculo que você vê para mulheres na ciência brasileira?

Mimi

Não é falta de talento ou dedicação. É que a gente ainda carrega expectativas de cuidado que os homens não carregam. Você faz mestrado, doutorado, pós-doutorado — tudo bem. Mas quando chega a hora de liderar um grande projeto, de ter aquele cargo de topo, algo muda. E é estrutural, não é culpa de ninguém em particular.

Mark

O que você espera que esses ensaios clínicos randomizados revelem?

Mimi

Que é possível aliviar o sofrimento de forma muito mais eficiente quando você trata a pessoa como um todo, não só o sintoma. Se conseguirmos reduzir fadiga, trazer de volta o prazer nas coisas, estamos devolvendo qualidade de vida.

Mark

E para o Brasil, o que significa ter uma pesquisadora brasileira ganhando um prêmio desse tamanho?

Mimi

Significa que a gente produz ciência de ponta aqui. Não é importação. É criação. E isso abre portas para que mais gente acredite que é possível fazer pesquisa de excelência em universidade pública brasileira.

  • Cerca de 30% dos pacientes com esquizofrenia não respondem a antipsicóticos convencionais, vivendo em sofrimento prolongado sem alternativas terapêuticas eficazes.
  • A crença dominante de que transtornos mentais são problemas exclusivamente cerebrais vem sendo abalada por evidências genéticas e epidemiológicas que apontam para o sistema imunológico como ator central.
  • Zuelli foi selecionada por um júri de 600 especialistas — incluindo laureados com o Nobel — entre 90 mil inscritos, tornando-se a primeira brasileira a receber o USERN Prize.
  • Ensaios clínicos randomizados estão sendo preparados para identificar pacientes com maior vulnerabilidade imunológica e testar medicações direcionadas a sintomas como fadiga crônica e anedonia.
  • Além da pesquisa, Zuelli denuncia que apenas uma em cada quatro mulheres que iniciam carreiras científicas no Brasil chegam ao topo, e assume o papel de abrir caminhos para a próxima geração.

Por uma década, a neurocientista Fabiana Corsi Zuelli investigou o que a medicina insistia em ignorar: que a mente adoecida não está separada do corpo que a sustenta. Ao demonstrar que mecanismos imunológicos participam do desenvolvimento de psicoses, ela não apenas venceu o USERN Prize entre 90 mil pesquisadores — ela deslocou uma fronteira conceitual que limitava o cuidado de milhões. Sua descoberta, gestada nas universidades públicas brasileiras e amadurecida em Oxford, lembra que a ciência mais transformadora nasce, muitas vezes, da dor mais próxima.

Dez anos de pesquisa e uma experiência familiar dolorosa convergiram em um reconhecimento histórico: Fabiana Corsi Zuelli, neurocientista brasileira de 35 anos formada pela USP e hoje pós-doutoranda em Oxford, venceu o USERN Prize, escolhida entre 90 mil inscritos por um júri que inclui ganhadores do Nobel. O prêmio coroou uma descoberta que desafia décadas de consenso médico — a de que transtornos como a esquizofrenia são problemas puramente cerebrais.

Sua pesquisa, desenvolvida em parceria com um consórcio europeu, demonstra por meio de evidências genéticas e epidemiológicas que o sistema imunológico desempenha papel central no surgimento de psicoses. A implicação prática é imediata: aproximadamente 30% dos pacientes não respondem a antipsicóticos convencionais, e parte desses casos pode estar ligada a proteínas inflamatórias elevadas ou a fatores ambientais. Mapear o perfil imunológico de cada paciente pode tornar os tratamentos muito mais precisos e eficazes.

O interesse de Zuelli pelo tema não nasceu em laboratório. Sua mãe cuidou por anos de uma irmã com esquizofrenia, e essa proximidade com o sofrimento da doença orientou toda a sua trajetória. Hoje, ela trabalha em duas frentes: preparar ensaios clínicos para testar medicações direcionadas a pacientes com maior vulnerabilidade imunológica — buscando aliviar sintomas como fadiga e anedonia — e enfrentar a desigualdade de gênero na ciência, onde mulheres são maioria nos programas de pós-graduação brasileiros, mas apenas uma em cada quatro alcança o topo da carreira acadêmica.

Zuelli não lê seu prêmio como conquista individual. Para ela, é também um atestado da ciência produzida nas universidades públicas do Brasil — e um recado às meninas que sonham com a pesquisa: os obstáculos existem, mas não são o fim do caminho.

Dez anos de trabalho científico culminaram em um reconhecimento raro: Fabiana Corsi Zuelli, neurocientista brasileira de 35 anos, venceu o USERN Prize, prêmio internacional concedido a pesquisadores em início de carreira. Ela foi escolhida entre 90 mil inscritos por um júri de 600 notáveis, incluindo ganhadores do Prêmio Nobel. Sua pesquisa, desenvolvida em colaboração com um consórcio europeu de cientistas, desafia uma crença profundamente enraizada: a de que transtornos mentais como a esquizofrenia são exclusivamente problemas do cérebro.

O trabalho de Zuelli demonstra, através de evidências genéticas e epidemiológicas, que mecanismos imunológicos desempenham um papel central no desenvolvimento de psicoses. Essa descoberta abre caminho para uma medicina mais precisa. Atualmente, cerca de 30% dos pacientes que recebem antipsicóticos convencionais não respondem ao tratamento. Alguns desses casos podem estar relacionados a concentrações elevadas de proteínas inflamatórias no sangue ou a fatores ambientais. Compreender esses mecanismos imunológicos pode levar a prescrições muito mais eficazes, personalizadas de acordo com o perfil biológico de cada paciente.

Formada em enfermagem pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, da USP, Zuelli atualmente realiza pós-doutorado na Universidade de Oxford. Ela não vê seu prêmio como reconhecimento apenas de seu esforço individual, mas como atestado da qualidade da pesquisa conduzida em universidades públicas brasileiras. Sendo a primeira brasileira a receber o USERN Prize, ela carrega consigo a representatividade de uma comunidade científica que produz conhecimento de ponta apesar das limitações estruturais.

O interesse de Zuelli pelo tema nasceu de uma experiência pessoal. Sua mãe cuidou da irmã esquizofrênica durante anos, e essa proximidade com o sofrimento causado pela doença moldou sua trajetória profissional. Hoje, ela trabalha em duas frentes principais. A primeira envolve a preparação de ensaios clínicos randomizados para identificar pacientes com psicose que apresentam maior vulnerabilidade no sistema imunológico, permitindo testes de medicações mais específicas. O objetivo é verificar se tratamentos direcionados podem aliviar sintomas como fadiga crônica e anedonia — a perda do prazer em atividades que antes eram agradáveis.

A segunda frente de trabalho de Zuelli é igualmente importante: abrir caminhos para uma nova geração de cientistas, especialmente mulheres. Segundo ela, as mulheres representam a maioria dos alunos em programas de mestrado e doutorado no Brasil, mas apenas uma em cada quatro consegue chegar ao topo da carreira acadêmica. A sobrecarga histórica do cuidado, que recai desproporcionalmente sobre as mulheres, é um dos fatores que explica essa disparidade. Zuelli reconhece que enfrentou momentos de dúvida, mas nunca abandonou a crença no propósito de seu trabalho. Sua mensagem para meninas que sonham com a ciência é clara: os obstáculos são reais, mas não são intransponíveis.

A ciência precisa de vozes diferentes. No Brasil, as mulheres são maioria no mestrado e no doutorado, mas apenas uma em cada quatro pesquisadoras chega ao topo da carreira.
— Fabiana Corsi Zuelli
Nunca deixei de acreditar no propósito por trás do meu trabalho, e isso me motiva.
— Fabiana Corsi Zuelli
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