Rodríguez Castro, 42 anos, tornou-se figura central nas negociações entre Cuba e governo Trump, apesar de nunca ter ocupado cargo público oficial. Documentos judiciais indicam que ele pode ter facilitado contrabando de mercadorias roubadas e recebido presentes de luxo como suborno de traficantes.
Neto de Raúl Castro sai de guarda-costas para negociador-chave entre EUA e Cuba
Dói-me que muitas pessoas não possam viver como eu vivo
Como alguém que nunca ocupou cargo público chega a negociar com a CIA e o Secretário de Estado?
Porque ele é o neto de Raúl Castro e tem acesso que ninguém mais tem. Ele estava ao lado do avó em praticamente todas as reuniões importantes — inclusive com o papa. Quando você tem esse tipo de proximidade com o poder, você se torna útil.
Mas há essas acusações de contrabando. Como isso não o desqualifica?
Porque ninguém o acusou formalmente. Os documentos judiciais vêm de outras pessoas condenadas, não dele. E o governo cubano nega tudo. Para os americanos, aparentemente, o fato de ele gostar de coisas caras é um sinal de que é capitalista — logo, negociável.
Ele realmente nega ter riqueza própria?
Sim. Diz que amigos ricos pagaram por tudo. Mas recebeu uma lancha de 38 pés, um Rolex, uma Suzuki, roupas da Louis Vuitton. Segundo os documentos, tudo isso veio de contrabandistas que queriam manter a alfândega e a Guarda Costeira afastadas.
E as pessoas que foram torturadas no México? Elas sabem quem facilitou isso?
Provavelmente não. Elas estavam em casas usadas como esconderijos, sendo torturadas porque não conseguiam pagar as taxas. Os contrabandistas sabiam que Rodríguez Castro era a chave para que tudo funcionasse em Cuba. Mas as vítimas? Elas só sabem que foram presas e sofreram.
Ele quer ser o próximo líder de Cuba?
Quer, segundo as pessoas que conversaram com ele. Mas não está claro se tem apoio interno para isso. O que está claro é que ele tem ambição e acesso. Numa empresa familiar como o governo cubano, às vezes isso é tudo que você precisa.
E se as negociações com os EUA fracassarem?
Então ele terá tentado ser útil ao regime em um momento crítico. Se tiverem sucesso, ele terá ajudado a salvar Cuba das sanções. Ou ambas as coisas. Depende de quem está contando a história.
O Pulso
- Raúl G. Rodríguez Castro, 42 anos, neto do ex-líder cubano
- Acusado de facilitar contrabando de mercadorias roubadas e receber presentes de luxo como suborno
- Reuniu-se com diretor da CIA John Ratcliffe e secretário de Estado Marco Rubio em negociações recentes
- Investigação federal resultou na condenação de pelo menos 21 pessoas; Rodríguez Castro não foi formalmente acusado
- Migrantes cubanos foram detidos no México e torturados quando não conseguiam pagar taxas de tráfico
Rodríguez Castro, 42 anos, tornou-se figura central nas negociações entre Cuba e governo Trump, apesar de nunca ter ocupado cargo público oficial. Documentos judiciais indicam que ele pode ter facilitado contrabando de mercadorias roubadas e recebido presentes de luxo como suborno de traficantes.
Raúl G. Rodríguez Castro, neto do ex-líder cubano, ascendeu de guarda-costas a negociador-chave com os EUA, mas enfrenta acusações de facilitar contrabando e receber subornos.
Dez anos atrás, quando Raúl Castro visitava Paris como líder de Cuba, um guarda-costas corpulento em sua comitiva não saía do seu lado. O homem se mantinha tão próximo enquanto percorriam o tapete vermelho no Palácio do Eliseu que a guarda de honra francesa tentou afastá-lo. Até o presidente François Hollande fez um gesto para que recuasse. Ninguém sabia, então, que aquele agente de segurança insistente era o neto de Castro, Raúl G. Rodríguez Castro, e que uma década depois ele se tornaria uma figura central nas negociações entre Cuba e os Estados Unidos.
Hoje, aos 42 anos, Rodríguez Castro ocupa um lugar extraordinário no regime cubano sem nunca ter ocupado um cargo público oficial. Ele funciona como assistente pessoal de seu avó, agora com 95 anos, e goza de acesso que poucos possuem — esteve presente em praticamente todas as reuniões de Raúl Castro, inclusive com o papa Francisco. Quando o regime cubano iniciou negociações secretas com os EUA neste ano em busca do fim das sanções impostas pelo governo Trump, foi Rodríguez Castro quem se reuniu separadamente com o diretor da CIA, John Ratcliffe, e com o secretário de Estado, Marco Rubio. Seu nome chegou a ser mencionado como alguém que o governo Trump poderia considerar aceitável para se tornar o próximo líder da ilha.
Mas há uma sombra sobre essa ascensão. Documentos judiciais e entrevistas com pessoas familiarizadas com investigações criminais sugerem que Rodríguez Castro pode ter usado sua influência para proteger uma operação de contrabando. Dois réus do caso — José Miguel González Vidal e Reynaldo Crespo Márquez — apontaram-no como colaborador de uma rede conhecida como Máfia Cubana de Quintana Roo. O grupo usava embarcações roubadas na Flórida para retirar clandestinamente de Cuba pessoas que queriam chegar aos EUA. Os migrantes cubanos eram levados para o México, onde ficavam detidos em casas usadas como esconderijos até pagarem as taxas do tráfico. Quando não conseguiam pagar, eram torturados. A investigação federal resultou na condenação de pelo menos 21 pessoas com penas de décadas de prisão.
Segundo González Vidal, os contrabandistas subornavam Rodríguez Castro para manter afastadas a Guarda Costeira e a alfândega cubanas. Em troca de permitir que mercadorias compradas no México passassem pela alfândega cubana, ele recebeu uma lancha Fountain 38, um relógio Rolex, uma motocicleta Suzuki e roupas da Louis Vuitton. Os produtos eram posteriormente vendidos em lojas do regime cubano. Mensagens de texto e de voz extraídas pelo FBI dos celulares de integrantes da rede corroboraram o relato de González Vidal. Rodríguez Castro não foi formalmente acusado, e o Departamento de Justiça dos EUA não comentou se ele é alvo de investigação em andamento.
Quando questionado sobre sua riqueza visível, Rodríguez Castro afirmou em entrevista ao USA Today que não possui riqueza própria. Segundo ele, "amigos ricos e admiradores" haviam pago por roupas de moda, veículos de luxo e viagens caras. Ele não pede desculpas por seu estilo de vida. "Dói-me que muitas pessoas não possam viver como eu vivo", disse ao jornal americano. "E trabalho todos os dias para mudar essa situação."
O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, chamou as acusações de calúnia em entrevista ao New York Times. Uma autoridade do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba recorreu às redes sociais para afirmar que Rodríguez Castro havia sido alvo de um "assassinato de reputação" na imprensa dos EUA. Curiosamente, um americano próximo das conversas entre Washington e Havana afirmou que, apesar das acusações de contrabando, Rodríguez Castro era considerado um representante adequado para interagir com o governo Trump — precisamente porque seu gosto por bens materiais indicava que ele estava aberto a ideias capitalistas.
O papel de destaque de Rodríguez Castro nas negociações pareceu espantar algumas autoridades cubanas, que o viam apenas como alguém encarregado de cuidar do avó. Mas segundo pessoas que conversaram com ele, ele não esconde sua ambição maior: tornar-se o próximo líder de Cuba, embora não esteja claro se conta com apoio interno para isso. Tim Rieser, assessor de política externa do ex-senador democrata Patrick Leahy, que se encontrou várias vezes com Rodríguez Castro, descreveu o funcionamento do governo cubano como "muito parecido com uma empresa familiar". A trajetória de Rodríguez Castro — de guarda-costas a negociador-chave em poucos anos — exemplifica perfeitamente essa dinâmica. Enquanto Cuba tenta sobreviver e conduzir o impasse com os EUA, a figura do neto de Raúl Castro permanece no centro das conversas, cercada por questões sobre sua verdadeira influência e seus verdadeiros interesses.
Citações Notáveis
É muito parecido com uma empresa familiar. Assim, alguém que há uma década nos foi apresentado como guarda-costas do presidente Castro, por qualquer motivo e por quaisquer meios, tornou-se algo muito maior do que isso.— Tim Rieser, assessor de política externa do ex-senador Patrick Leahy
Ele é um exemplo de como aquele governo funciona— Tim Rieser, assessor de política externa do ex-senador Patrick Leahy