Neil deGrasse Tyson esgotou apresentações do StarTalk em Portugal em apenas quatro dias, demonstrando alcance internacional da divulgação científica. O astrofísico enfatiza que inovações em ciência e tecnologia são motores das economias futuras, alertando para custos sociais da falta de literacia científica.
Neil deGrasse Tyson: "A minha sala de estar é o Universo"
A minha sala de estar é o Universo
Como é que alguém passa de ser um astrofísico desconhecido para se tornar numa figura global que esgota apresentações em quatro dias?
Tyson diz que tudo começou com um gesto inconsciente durante uma entrevista televisiva. Percebeu que as pessoas não retinham a informação técnica, mas retinham o movimento, a imagem. A partir daí, começou a treinar deliberadamente — frases curtas, interessantes, divertidas.
Mas isso é uma simplificação, não é? Ele teve acesso a uma plataforma nacional, dirigia o maior planetário de Nova Iorque, tinha credibilidade institucional. Nem toda a gente com um bom gesto consegue isso.
Verdade. Mas o ponto dele é que a técnica importa. Ele passou décadas a refinar como comunicar, observando expressões faciais, guardando frases que funcionavam.
E o Chuck Nice? Como é que a parceria com um humorista funciona para comunicar ciência?
Chuck diz que quando se conheceram, achou a ideia estúpida. Mas a dinâmica evita que pareça uma leitura de Wikipédia. Do ponto de vista da neurociência, quando evocas uma emoção, estás a consolidar memórias. As pessoas aprendem porque se estão a divertir.
Isso é uma afirmação neurocientífica que Chuck faz. Não sabemos se ele tem formação em neurociência ou se está apenas a repetir algo que ouviu. É uma coisa que funciona na prática, outra é ter a ciência por trás.
Justo. Mas o que é certo é que o StarTalk tem dois episódios por semana há quase duas décadas. Isso é sustentável porque funciona.
Tyson fala muito sobre a iliteracia científica. Mas qual é realmente o custo?
Ele argumenta que as inovações em ciência e tecnologia são os motores das economias do futuro. Sem conhecimento científico generalizado, as pessoas podem ficar pobres. É um argumento económico, não apenas educacional.
Mas isso é uma correlação que ele está a fazer. Não há números específicos aqui — quanto é que a iliteracia científica custa à economia? Quanto é que a literacia científica aumenta o PIB? Ele está a fazer uma afirmação grande com base numa lógica intuitiva.
Verdade, mas ele está a falar num contexto de geopolítica espacial, onde a China está a investir pesadamente. Talvez o ponto seja que sem ciência, um país fica para trás.
E quanto ao facto de ele nunca estar sem resposta? Isso é real ou é uma exageração?
Chuck conta uma história de uma festa onde alguém mostrou a Tyson uma constelação no telemóvel e ele corrigiu a localização. Tyson apontou para o cérebro — a sua aplicação é o conhecimento.
Mas uma história anedótica não é prova de que ele nunca está sem resposta. É possível que tenha estado sem resposta noutras ocasiões e simplesmente não o mencione. O que sabemos é que tem décadas de experiência e conhecimento acumulado.
Il Polso
- Neil deGrasse Tyson esgotou apresentações do StarTalk em Portugal em apenas quatro dias
- O astrofísico começou a treinar comunicação científica há mais de 30 anos após uma entrevista televisiva
- Parceria com Chuck Nice no StarTalk dura quase duas décadas, com dois episódios por semana
- Tyson dirige o Hayden Planetarium em Nova Iorque desde os nove anos, quando visitou a instituição pela primeira vez
Neil deGrasse Tyson esgotou apresentações do StarTalk em Portugal em apenas quatro dias, demonstrando alcance internacional da divulgação científica. O astrofísico enfatiza que inovações em ciência e tecnologia são motores das economias futuras, alertando para custos sociais da falta de literacia científica.
O astrofísico Neil deGrasse Tyson apresenta o podcast StarTalk ao vivo em Lisboa, discutindo a importância da divulgação científica e o combate à iliteracia científica global.
Neil deGrasse Tyson chegou a Lisboa com uma missão que já o ocupa há mais de três décadas: fazer com que as pessoas olhem para cima. O astrofísico norte-americano esgotou as apresentações do seu podcast StarTalk em apenas quatro dias num país que nunca havia visitado, um feito que ele descreve não como pressão, mas como alegria — exatamente a razão pela qual faz o que faz.
Tudo começou há 31 anos, durante uma entrevista televisiva sobre a descoberta de um planeta a orbitar outra estrela. Tyson, então um cientista praticamente desconhecido que dirigia o maior planetário de Nova Iorque, fez um gesto inconsciente com a anca enquanto explicava conceitos complexos. Desse movimento de oscilação, de toda a informação rigorosa que transmitiu naquele dia, foi o que ficou. Percebeu então que bastava uma frase curta, algo interessante e divertido, para despertar a curiosidade das pessoas. A partir daí, começou a treinar em frente ao espelho, pedindo à sua mulher para gritar palavras como "buraco negro" ou "Saturno", e criava três frases — às vezes duas, às vezes quatro — que fossem informativas, fizessem sorrir e fossem apelativas. Milhões de pessoas começaram a olhar para cima.
Em Lisboa, Tyson e o seu parceiro de longa data, o humorista Chuck Nice, pararam no Pavilhão do Conhecimento para dar o pontapé de saída de um debate sobre o Espaço e a geopolítica. À porta do museu, formou-se uma fila que demorou mais de meia hora a chegar ao fim. Pessoas de todas as idades avançavam para tirar fotos com o astrofísico, ainda que ele não fosse participante no debate. Ninguém precisava de convite; a sua presença era razão suficiente. Tyson tinha estado em Portugal desde quarta-feira, 7 de outubro, comendo porco preto em Estremoz e percebes em Lisboa, vendo uma competição de surf na Ericeira. Mas o grande foco era a apresentação do StarTalk na Sala Tejo do MEO Arena, com as cientistas convidadas Zita Martins e Marta Cortesão.
O segredo de Tyson reside na precisão da sua comunicação. Quando explica que o Sol tem um volume de cerca de 1.400 milhões de quilómetros cúbicos, a informação pode entrar por um ouvido e sair pelo outro. Mas se disser que, se o Sol fosse oco, poderias despejar um milhão de Terras lá para dentro e ainda sobraria espaço, nunca mais vai esquecer. "Não disse 'deixar cair uma Terra de cada vez', disse 'despejar'. Isso cria uma imagem, como se fosse quase líquido", explica. A sua frase favorita que alguma vez compôs é: "Os planetas em rotação orbitam a sua estrela hospedeira ao longo dos seus caminhos designados, como dançarinos a fazer piruetas num balé cósmico coreografado pelas forças da gravidade". É metaforicamente precisa, não simplificada. O seu trabalho é não falhar da primeira vez, para que as pessoas entendam exatamente como devem entender, não numa versão aguada.
A parceria com Chuck Nice dura há quase duas décadas. O StarTalk começou em 2009 como programa de rádio, transformando-se numa presença permanente no bolso de todos — dois episódios por semana, mais de uma hora de conversa. Chuck admite, de forma humilde, que o conhecimento tem entrado. Tyson brinca que quer arranjar um diploma para lhe dar, um doutoramento do StarTalk. Quando se conheceram, Chuck pensou que a ideia de um programa que cruzasse cultura pop, ciência e humor era muito estúpida. Mas a dinâmica funcionou: enquanto Tyson mantém o foco na ciência, Chuck é o engraçado. Às vezes é Chuck quem conduz a explicação científica enquanto Tyson se encosta à cadeira. "Nem precisava realmente de um comediante ao seu lado", diz Chuck, mas a combinação evita que pareça uma leitura de uma página da Wikipédia.
Na sala do Pavilhão do Conhecimento, Chuck contou uma história que retrata a expertise de Tyson. Estavam numa festa quando alguém se aproximou, mostrando algo no telemóvel sobre uma constelação. Tyson disse: "Não está aí, está ali". Ao que o sujeito respondeu: "Ah, então usas a aplicação?", como se Tyson precisasse de uma aplicação. Tyson apontou para o cérebro. A sua aplicação é o conhecimento acumulado de décadas. Ele equipara questões sobre o Universo às deliberações mais simples do quotidiano. "Perguntar-me sobre o universo é como perguntar a alguém sobre o seu guarda-roupa. São perguntas que me estão a fazer sobre a minha sala de estar. E a minha sala de estar é o Universo."
Mas por trás da leveza e do humor, existe uma preocupação séria. Numa altura em que a iliteracia científica se manifesta de forma cada vez mais sonante, o papel de quem promove o conhecimento científico aumenta proporcionalmente. Durante o debate no Pavilhão do Conhecimento, especialistas como Ricardo Conde, Presidente da Agência Espacial Portuguesa, e Jessica Dempsey, diretora do SKA Observatory, discutiram o impacto da geopolítica no futuro da exploração espacial. Tyson apontou que a força motriz do interesse rejuvenescido por uma nova odisseia lunar advém de um esforço redobrado do lado de Pequim, não de uma necessidade científica. Isso acaba por gerar teóricos da conspiração e céticos que querem desacreditar tudo, não apenas sobre o Espaço, mas toda a Ciência.
Para Tyson, a melhor forma de combater a falta de literacia científica passa por mostrar às pessoas o custo para a sociedade de não abraçar a fronteira em evolução da ciência. Um custo que classifica como enorme. "As inovações em ciência e tecnologia são os motores das economias do futuro. Mesmo na indústria agrícola, as eficiências são trazidas pela ciência e tecnologia. Tudo importa. E as pessoas não querem morrer nem querem morrer pobres." Sem ciência, sem um conhecimento científico generalizado na sociedade, as pessoas podem morrer pobres. E se a classe governante for rica, pode sinalizar uma mudança na condição humana. É por isso que ele continua a olhar para cima, e continua a convidar os outros a fazer o mesmo.
Citazioni salienti
A minha missão é moldar uma resposta de forma a que seja inesquecível— Neil deGrasse Tyson
As inovações em ciência e tecnologia são os motores das economias do futuro— Neil deGrasse Tyson