Sob trinta metros de gelo gronelandês, um radar experimental da NASA revelou em 2024 aquilo que décadas de neve haviam sepultado: Camp Century, uma base militar norte-americana da Guerra Fria construída em 1959 para servir um plano secreto de implantação de mísseis nucleares. A descoberta, feita por acaso durante testes de tecnologia avançada, não é apenas um achado arqueológico — é também um aviso, pois os resíduos perigosos abandonados na base em 1967 podem emergir à superfície à medida que o degelo acelera.
NASA descobre Camp Century sob gelo da Gronelândia com detalhe sem precedentes
Estavam à procura do leito de gelo e surgiu Camp Century
Como é que a NASA conseguiu ver uma base inteira enterrada a 30 metros de profundidade?
O radar UAVSAR é diferente dos sistemas anteriores. Não apenas aponta para baixo — também observa lateralmente. Isso permite distinguir estruturas individuais, não apenas perfis bidimensionais.
Mas a base já era conhecida, certo? Não é uma descoberta nova.
Verdade. O que é novo é a capacidade de visualizá-la com este nível de pormenor a partir do ar. As plantas antigas existiam, mas nunca tinham sido confirmadas visualmente desta forma.
E por que é que Camp Century foi construída?
Oficialmente era um projeto científico. Mas estava ligada ao Project Iceworm — um plano para implantar mísseis nucleares sob a Gronelândia, usando túneis para as armas se deslocarem.
Esse plano funcionou?
Não. O gelo era muito menos estável do que esperavam. As estruturas deformavam-se. A base foi abandonada em 1967.
Então o que torna isto importante agora?
Quando foi abandonada, ficaram resíduos lá dentro — materiais radioativos, químicos, biológicos. Durante décadas pensou-se que ficariam enterrados para sempre.
E agora?
Com o degelo acelerado, existe risco de serem libertados. É uma cápsula do tempo com consequências ambientais potencialmente graves.
Il Polso
- Um radar montado num avião da NASA captou padrões geométricos demasiado regulares para serem naturais, revelando acidentalmente uma cidade enterrada sob o gelo da Gronelândia.
- Camp Century escondia uma verdade dupla: apresentada ao mundo como base científica, era na realidade o coração do Project Iceworm, um plano para ocultar mísseis nucleares sob o Árctico.
- O próprio gelo traiu o projeto — os seus movimentos deformaram os túneis, tornando impossível manter a estrutura, e a base foi abandonada em 1967 com os seus resíduos perigosos no interior.
- A tecnologia UAVSAR permitiu visualizar a base com um detalhe sem precedentes, abrindo uma janela para a história que radares anteriores nunca conseguiram alcançar.
- O degelo acelerado pelas alterações climáticas ameaça transformar Camp Century numa bomba ambiental, libertando materiais físicos, químicos, biológicos e radiológicos sepultados há mais de meio século.
Sob trinta metros de gelo gronelandês, um radar experimental da NASA revelou em 2024 aquilo que décadas de neve haviam sepultado: Camp Century, uma base militar norte-americana da Guerra Fria construída em 1959 para servir um plano secreto de implantação de mísseis nucleares. A descoberta, feita por acaso durante testes de tecnologia avançada, não é apenas um achado arqueológico — é também um aviso, pois os resíduos perigosos abandonados na base em 1967 podem emergir à superfície à medida que o degelo acelera.
Em abril de 2024, um avião da NASA sobrevoava a Gronelândia a testar o sistema de radar UAVSAR — capaz de observar lateralmente e distinguir estruturas individuais sob o gelo — quando os investigadores depararam com algo inesperado. A cerca de 30 metros de profundidade, surgiam padrões geométricos demasiado regulares para serem naturais: corredores paralelos, linhas retas, a planta inconfundível de uma instalação humana. Era Camp Century.
Construída a partir de 1959, a base foi apresentada publicamente como um projeto científico, mas estava intimamente ligada ao Project Iceworm — um plano norte-americano para instalar uma rede de mísseis nucleares sob a Gronelândia, tornando-os difíceis de localizar por um adversário. A instalação chegou a ter 21 túneis escavados no gelo, dormitórios, laboratórios e capacidade para 200 pessoas, alimentada por um reator nuclear portátil.
O gelo, porém, revelou-se instável. Os seus movimentos deformavam progressivamente as galerias, e o projeto nunca se concretizou na escala prevista. Em 1967, Camp Century foi abandonada definitivamente, e a neve foi cobrindo tudo até ao esquecimento. Alex Gardner, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, resumiu a descoberta com simplicidade: estavam à procura do leito de gelo e surgiu Camp Century.
A Gronelândia tem revelado sucessivamente os seus segredos subglaciais — um desfiladeiro de 750 quilómetros identificado em 2013, uma cratera de impacto sob o glaciar Hiawatha em 2018, vestígios de antigas paisagens de tundra. Mas Camp Century carrega uma dimensão mais urgente: quando foi abandonada, ficaram no interior resíduos físicos, químicos, biológicos e radiológicos. Durante décadas acreditou-se que permaneceriam enterrados para sempre. Com o degelo acelerado pelas alterações climáticas, esse pressuposto está a ser posto em causa — e a cápsula do tempo da Guerra Fria pode tornar-se numa ameaça ambiental muito concreta.
Um avião da NASA sobrevoava a Gronelândia em abril de 2024, equipado com um radar experimental capaz de penetrar o gelo e mapear o que se escondia por baixo. O que os investigadores encontraram não era o que procuravam. A aproximadamente 30 metros de profundidade, as imagens começaram a revelar padrões geométricos demasiado regulares para serem naturais — linhas retas, corredores paralelos, formas que, vistas em conjunto, pareciam a planta de uma pequena cidade enterrada.
A equipa estava a testar a tecnologia UAVSAR, um sistema de radar montado num Gulfstream III que, ao contrário dos radares anteriores, não apenas apontava para baixo em perfis bidimensionais, mas também observava lateralmente. Essa capacidade permitiu distinguir estruturas individuais e comparar as imagens com plantas antigas. A descoberta surpreendeu inicialmente os investigadores, obrigando-os a consultar dados históricos. Rapidamente confirmaram o que tinham diante dos olhos: Camp Century, uma instalação militar norte-americana construída sob o gelo durante a Guerra Fria.
A base tinha sido construída a partir de 1959 como um projeto que, publicamente, era apresentado como científico. Na realidade, estava intimamente ligada ao Project Iceworm, um ambicioso plano norte-americano para implantar uma rede de mísseis nucleares sob a Gronelândia. A ideia era escavar túneis pelos quais as armas pudessem deslocar-se, tornando-as mais difíceis de localizar por um adversário. Camp Century chegou a contar com 21 túneis escavados no gelo, dormitórios, laboratórios, oficinas e outras instalações. A base tinha capacidade para acolher cerca de 200 pessoas e era alimentada por um reator nuclear portátil.
Mas o gelo revelou-se muito menos estável do que os engenheiros norte-americanos esperavam. Os seus movimentos deformavam progressivamente as galerias, tornando impossível manter a estrutura como planeado. O projeto nunca se concretizou na escala prevista. Camp Century foi abandonada definitivamente em 1967, e a neve continuou a acumular-se sobre a instalação até a ocultar completamente. Segundo a NASA, as estruturas sólidas permanecem atualmente pelo menos 30 metros abaixo da superfície.
Alex Gardner, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA, resumiu a descoberta com uma frase simples: estavam à procura do leito de gelo e surgiu Camp Century. A diferença tecnológica foi crucial. Os radares anteriores geravam imagens limitadas; este novo sistema permitiu visualizar a base com um nível de pormenor nunca antes alcançado a partir do ar.
Esta descoberta não é isolada. A Gronelândia tem revelado sucessivamente o que mantém enterrado sob o seu manto de gelo. Em 2013, radares aéreos identificaram um enorme desfiladeiro subglacial com aproximadamente 750 quilómetros de comprimento, estendendo-se desde o interior da ilha em direção ao norte. Cinco anos depois, cientistas detetaram sob o glaciar Hiawatha uma depressão circular de cerca de 31 quilómetros de largura — uma cratera de impacto preservada sob aproximadamente um quilómetro de gelo, apesar da intensa capacidade erosiva dos glaciares. Investigações sobre sedimentos extraídos revelaram ainda vestígios de uma antiga paisagem de tundra, prova de que partes da Gronelândia estiveram outrora livres de gelo e cobertas por vegetação.
Mas Camp Century tem uma dimensão que vai além da história militar ou da arqueologia do gelo. Quando a base foi abandonada em 1967, ficaram resíduos no interior do complexo — materiais físicos, químicos, biológicos e radiológicos. Durante décadas, acreditou-se que ficariam enterrados para sempre. Estudos posteriores alertaram que essa suposição pode estar errada. Com o degelo acelerado causado pelas alterações climáticas, existe o risco real de esses materiais perigosos serem libertados, transformando Camp Century numa cápsula do tempo com consequências ambientais potencialmente graves.
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Estávamos à procura do leito de gelo e surgiu o Camp Century— Alex Gardner, cientista do Laboratório de Propulsão a Jato da NASA