Não há falta de futuros, mas falta de sentidos para viver

Não falta futuro, falta sentido para viver neles
O vazio que move os protestos não é escassez de possibilidades, mas ausência de significado moral nas lideranças.
Mark

Então o problema não é que o mundo está parado, mas que estamos anestesiados diante dele?

Mimi

Exatamente. Há guerras, avanços tecnológicos, crises — tudo acontecendo. Mas a mediação das redes sociais nos deixa distantes, como se assistíssemos a tudo através de um vidro.

Luke

Mas como você separa a dessensibilização da realidade de que as pessoas realmente têm menos segurança econômica do que tinham antes? Isso não é só percepção.

Mimi

Não é só percepção. Mas o argumento é que mesmo com bens materiais, sem significado moral, a vida fica vazia.

Mark

E quem deveria oferecer esse significado?

Mimi

As lideranças. Democratas, progressistas — alguém que consiga imaginar um futuro desejável e contar uma história sobre ele.

Luke

Mas isso pressupõe que as lideranças têm poder para mudar a percepção. E se a dessensibilização for estrutural, vinda da própria tecnologia?

Mimi

Então é um problema ainda mais profundo. Mas o texto sugere que a imaginação progressista simplesmente desapareceu, deixando apenas a imaginação destrutiva.

Mark

Então os protestos na França — eles estão pedindo o quê, exatamente?

Luke

Aí está o ponto: talvez nem eles saibam. Sabem que estão fartos, mas não têm uma narrativa clara do que querem.

Mimi

E sem narrativa, sem sentido, a revolta fica vulnerável a ser capturada por qualquer um que ofereça uma história — mesmo que seja Marine Le Pen.

  • Estudantes franceses protestam com a convicção de que não há futuro, mas o mundo vive simultaneamente guerras, avanços exponenciais em IA e crises financeiras — a escassez não é de acontecimentos, é de significado.
  • O excesso de drama mediado por telas produz um ciclo perverso: a indignação inicial cede à depressão e, por fim, à desmobilização — o sofrimento global torna-se paisagem de fundo.
  • A imaginação política progressista encontra-se paralisada, ocupada apenas em reagir à ofensiva destrutiva da direita, sem energia ou espaço para construir narrativas próprias sobre o futuro.
  • A dicotomia entre agenda material e narrativa revela-se falsa: sem sentidos morais que justifiquem a democracia e o progresso, nem a abundância de bens é suficiente para produzir vidas que valham ser vividas.
  • O risco concreto é que o vazio de sentido abra caminho para Marine Le Pen em 2027 — não por força de um projeto, mas pela ausência de alternativas capazes de nomear o que as pessoas sentem.

Nas ruas da França, jovens proclamam a ausência de futuro — mas o mundo ao redor transborda de guerras, revoluções tecnológicas e possibilidades divergentes. O que falta não são acontecimentos nem horizontes: é a capacidade de atribuir sentido ao que existe em excesso. Quando a mediação tecnológica entorpece a percepção e a imaginação progressista se esgota no cinismo, o vazio que resta não é político — é existencial.

Nos protestos estudantis que percorrem a França em 2026, as palavras mais repetidas são também as mais antigas: "não há futuro para nós". Já ecoaram em revoltas anteriores, em eleições frustradas ao redor do mundo. E há quem avalie que esse descontentamento pode, mais uma vez, pavimentar o caminho para a extrema-direita — desta vez, para Marine Le Pen em 2027.

Mas a queixa resiste ao escrutínio? O mundo contemporâneo não padece de escassez de acontecimentos: guerras simultâneas, limpeza étnica, avanço exponencial da inteligência artificial, pandemias, golpes, crises financeiras. Tampouco faltam futuros possíveis — da superabundância tecnológica ao colapso ecológico, do fim do trabalho à sociedade em rede. O que existe, na verdade, é excesso: excesso de drama, excesso de possibilidades, gerando confusão e pânico.

O verdadeiro vazio é outro. A primeira causa é a dessensibilização produzida pelas redes sociais: a desgraça do mundo passa pelos dedos nas telas, indigna por um instante, depois deprime e, por fim, desmobiliza. A segunda é a crise de imaginação que atravessa a política progressista, a cultura e as artes — restando apenas uma imaginação cínica e destrutiva, à qual os democratas respondem sem jamais propor alternativas.

A discussão sobre se a esquerda deve priorizar narrativa ou pautas materiais parte de uma dicotomia falsa. É possível oferecer bens concretos às pessoas — mas sem lhes oferecer sentidos para a democracia, para o progresso, para a própria existência coletiva, não haverá vidas que valham a pena ser vividas. O vazio que alimenta a revolta começa precisamente aí: a humanidade busca significados morais e não encontra lideranças dispostas a oferecê-los.

Nos protestos estudantis que tomam conta da França, as vozes que ecoam carregam uma fadiga particular. "Estamos fartos", diz um participante. "Não há futuro para nós", completa outro. Essas frases não são novas — ecoaram em revoltas anteriores, em reações de eleitores ao redor do mundo sempre que uma eleição não correu como esperado. É possível, até provável, que esses protestos de 2026 terminem por abrir caminho para a eleição de Marine Le Pen no ano seguinte. Mas a pergunta que vale fazer é se esse lugar-comum realmente faz sentido.

O incômodo de que "nada acontece" virou justificativa para uma tendência aceleracionista na política, particularmente à direita, mas não exclusivamente. A ideia é provocar uma transformação política e social tão radical quanto possível, qualquer que seja ela. Mas basta olhar ao redor: é possível dizer com seriedade que nada acontece? Há múltiplas guerras em curso simultâneo. Há limpeza étnica e políticos que aceitam ou até promovem ideias de genocídio, da Ucrânia a Gaza. O avanço tecnológico, especialmente em inteligência artificial, segue uma trajetória exponencial. Pandemias surgiram. Eleições e referendos produziram resultados inesperados. Crises financeiras explodiram. Golpes de Estado ocorreram. Como alguém pode genuinamente reclamar de tédio diante de um mundo assim?

O tédio pode ser real, mas suas raízes devem estar em outro lugar. O mesmo vale para essa sensação de ausência de futuro. Na verdade, nunca houve tantos futuros possíveis e tão divergentes: desde a superabundância tecnológica até o colapso ecológico, do fim do trabalho à sociedade em rede. Não falta escolha. Mas a sensação de falta de futuro persiste, e não é suficiente dizer a esses jovens que se dediquem a uma dessas versões desejáveis do amanhã e lutem por ela.

O problema não é, portanto, de escassez. Nem de falta de acontecimentos, nem de falta de futuros possíveis. É mais preciso falar em excesso: excesso de acontecimentos dramáticos e excesso de possibilidades futuras, gerando confusão e pânico. O verdadeiro vazio é outro — é a falta de sentidos. E isso ocorre por duas razões distintas.

A primeira é a dessensibilização, alimentada em grande medida pelas redes sociais e pela mediação tecnológica entre os humanos e os eventos. Não é que poucas coisas aconteçam; é que estamos como que entorpecidos e distantes delas. O sofrimento fica longe. Enquanto passamos os dedos pelas telas dos celulares, a desgraça do mundo começa por indignar, depois deprime e, por fim, desmobiliza.

A segunda razão é a crise de imaginação em que estamos imersos. Ela atravessa a política progressista, a cultura e até as artes. A única imaginação que sobra é cínica e destrutiva. Democratas e progressistas ficam presos a responder à ofensiva dessa imaginação destrutiva, sem tempo ou espaço mental para inventar alternativas próprias.

Muito se discute se a agenda do campo progressista deve focar em narrativa ou em questões materiais. Mas essa dicotomia é falsa. É possível oferecer abundância de bens materiais às pessoas. Mas sem lhes oferecer sentidos — para a democracia, para o progresso, para a humanidade — não teremos vidas que valham a pena ser vividas. O vazio que explica a revolta começa justamente aí. A humanidade busca significados morais e não encontra lideranças dispostas a oferecê-los.

Estamos fartos. Não há futuro para nós.
— Participantes dos protestos estudantis na França
A humanidade busca significados morais e não tem lideranças que lhos queiram dar.
— Análise do colunista
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