Milhares protestam contra G7 em Genebra com reforço de segurança

Genebra sentiu-se na obrigação moral de garantir a liberdade
A cidade suíça aceitou acolher o protesto invocando os seus valores internacionalistas, após a França recusar.

Em Genebra, dezenas de milhares de vozes europeias convergiram para contestar o G7 reunido a poucos quilómetros, em Évian-les-Bains — um gesto que a França recusou acolher no seu próprio território, deixando à Suíça o papel de guardiã do direito de expressão. A cidade que abriga o multilateralismo internacional viu-se assim obrigada a equilibrar os seus princípios fundadores com um aparato de segurança sem precedentes, lembrando que a liberdade de protestar e a necessidade de ordem pública raramente coexistem sem tensão.

  • Mais de sessenta organizações europeias uniram-se sob a bandeira 'Não ao G7', transformando Genebra numa encruzilhada de ativismo continental.
  • A França fechou as portas à manifestação, forçando negociações diplomáticas que acabaram por transferir o protesto para solo suíço — e os custos de segurança com ele.
  • Dez mil elementos entre polícias e militares foram mobilizados, vinte e uma passagens de fronteira encerradas, e o percurso dos manifestantes cuidadosamente desenhado para os manter longe do centro da cidade.
  • O fantasma do G8 de 2003, quando grupos violentos devastaram partes de Genebra, pairou sobre toda a preparação e justificou cada restrição imposta.
  • A Organização Mundial do Comércio reforçou a sua própria segurança, consciente de que representa, para muitos manifestantes, o símbolo mais tangível do sistema que contestam.

Dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Genebra para protestar contra a cimeira do G7, reunida a apenas 45 quilómetros, em Évian-les-Bains. A mobilização foi organizada pela coligação 'Não ao G7', que reunia mais de sessenta associações, sindicatos e grupos de esquerda europeus, unidos na contestação aos líderes das sete economias mais industrializadas do mundo — cujas discussões incluíam o Médio Oriente e a guerra na Ucrânia.

O protesto deveria ter ocorrido em França, mas o governo francês recusou categoricamente autorizar qualquer manifestação no seu território. Genebra aceitou acolher o evento após negociações difíceis, com Carole-Anne Kast, do governo cantonal, a invocar a identidade da cidade como centro do multilateralismo internacional. Recusar o direito de manifestação, argumentou, seria contraditório com os valores que Genebra representa. Paris manteve-se irredutível: não autorizou a marcha nem contribuiu para os custos de segurança.

As autoridades suíças mobilizaram seis mil polícias e quatro mil militares, encerraram vinte e uma das vinte e seis passagens de fronteira com a França e impuseram um percurso que mantinha os manifestantes afastados do centro da cidade. A memória do G8 de 2003 — quando grupos violentos causaram danos extensos em Genebra — justificou cada uma dessas medidas. A Organização Mundial do Comércio, considerada um alvo simbólico, reforçou também a sua própria segurança.

Durante os dias da cimeira, Genebra permaneceu sob vigilância intensiva, transformada numa cidade que se via a si mesma como prova viva de que é possível — ainda que com dificuldade — honrar simultaneamente o direito de protestar e a obrigação de manter a paz.

Dezenas de milhares de pessoas tomaram as ruas de Genebra no fim de semana para protestar contra a cimeira do G7, que se reunia a apenas 45 quilómetros de distância, na cidade francesa de Évian-les-Bains. A mobilização era a maior que a cidade suíça enfrentava em anos, e as autoridades responderam com um aparato de segurança sem precedentes: seis mil polícias e quatro mil militares patrulhavam as ruas, enquanto vinte e uma das vinte e seis passagens de fronteira com a França permaneciam fechadas.

O protesto havia sido organizado por uma coligação chamada "Não ao G7", um guarda-chuva que reunia mais de sessenta associações, sindicatos e grupos de esquerda de toda a Europa. Estes grupos queriam fazer ouvir a sua voz contra a reunião dos líderes das sete economias mais industrializadas do mundo, que tinham na agenda discussões sobre a situação no Médio Oriente e a guerra na Ucrânia. Mas havia um problema: o governo francês tinha recusado categoricamente autorizar qualquer manifestação no seu território. A solução veio de Genebra, que aceitou acolher o evento após negociações difíceis entre as autoridades suíças e francesas.

Carole-Anne Kast, do governo cantonal de Genebra, explicou a decisão invocando a identidade da cidade como centro do multilateralismo internacional. Genebra é a sede europeia das Nações Unidas e de dezenas de outras organizações internacionais, argumentou. Recusar o direito de manifestação seria contraditório com os valores que a cidade representa. A França, porém, manteve-se firme: não apenas recusou autorizar a marcha no seu território, como também se recusou a contribuir para os custos de segurança.

As autoridades suíças tinham razões para estar preocupadas. O precedente mais violento era o da cimeira do G8 em 2003, que também tinha ocorrido em Évian. Nessa ocasião, embora a reunião dos líderes tivesse decorrido em solo francês, os protestos tinham-se estendido a Genebra, onde grupos extremamente violentos causaram danos materiais extensos. Desta vez, as lições do passado foram aplicadas com rigor. As autoridades impuseram um percurso que mantinha os manifestantes afastados do centro da cidade, restringindo a sua passagem à margem direita do lago de Genebra e impedindo-os de atravessar a icónica Ponte do Mont Blanc. O trajeto passava pela sede da ONU, mas mantinha os protestantes longe de outros símbolos políticos sensíveis.

A Organização Mundial do Comércio, localizada nas proximidades, reforçou a sua própria segurança. A instituição era considerada um alvo potencial, símbolo do capitalismo e do livre mercado que muitos dos manifestantes contestavam. O histórico de violência em protestos contra o comércio internacional tornava essa preocupação bem fundada. Semanas antes do evento, Genebra tinha-se preparado meticulosamente, antecipando possíveis atos de vandalismo, sabotagem ou confrontos que frequentemente marcam estas mobilizações globais.

O que tornava este protesto particularmente significativo era a sua escala e composição. Grupos de vários países europeus confirmaram a sua presença e estavam a chegar a Genebra, transformando a cidade numa encruzilhada de ativismo europeu. A cimeira do G7 decorreria até quarta-feira, e as ruas da cidade permaneceriam sob vigilância intensiva durante todo esse período. A tensão entre o direito de manifestação e a necessidade de manter a ordem pública tinha encontrado um equilíbrio precário em Genebra, uma cidade que se via obrigada a equilibrar os seus princípios internacionalistas com as realidades práticas da segurança.

Genebra, considerada uma cidade internacional e o coração do multilateralismo, sentiu-se na obrigação moral de garantir a liberdade de expressão e o direito de manifestação
— Carole-Anne Kast, governo cantonal de Genebra
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que a França recusou acolher o protesto no seu próprio território, já que a cimeira se realizava lá?

Model

A França queria manter a cimeira isolada de perturbações. Recusando o protesto no seu solo, tentava evitar confrontos diretos e danos às infraestruturas. Mas isso criou um vazio que Genebra teve de preencher.

Inventor

E porque é que Genebra aceitou, sabendo dos riscos?

Model

Porque Genebra é a sede da ONU e de dezenas de organizações internacionais. Recusar o direito de manifestação seria negar os seus próprios valores. A cidade sentiu-se moralmente obrigada a garantir a liberdade de expressão.

Inventor

Os números de segurança são impressionantes. Dez mil elementos para uma manifestação. Isso não parece excessivo?

Model

Não, quando se olha para o precedente de 2003. Nessa altura, grupos extremamente violentos causaram danos materiais extensos em Genebra. As autoridades estavam a aprender com a história.

Inventor

Mas as restrições ao percurso, fechar a Ponte do Mont Blanc, manter os manifestantes longe do centro... isso não limita o direito de protesto?

Model

Tecnicamente, permite o protesto. Mas canaliza-o, controla-o. Os manifestantes ainda podem marchar, ainda passam pela ONU, mas não podem ocupar o coração da cidade. É um compromisso tenso.

Inventor

A OMC reforçou a segurança. Porque é que essa instituição é um alvo?

Model

Porque representa tudo aquilo que muitos destes grupos contestam: o capitalismo global, o livre mercado, as políticas que beneficiam as grandes economias. Já foi alvo de violência no passado.

Inventor

E o que acontece se tudo correr bem? Se não houver violência?

Model

Então Genebra terá provado que é possível acolher dissidência numa escala global sem ceder aos extremos. Mas a cidade permanece vigilante até à última hora.

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