O cruzeiro de 46 dias pela Antárctida e Atlântico Sul resultou em múltiplas mortes e infecções por hantavírus, a estirpe dos Andes sendo a mais perigosa. Cabo Verde recusou a atracagem do navio; Espanha aceitou receber o MV Hondius em Tenerife para repatriação de passageiros e isolamento médico.
MV Hondius: do fim do mundo ao alarme global de hantavírus
O navio tornou-se epicentro de um surto enquanto navegava para o fim do mundo
Como é que um cruzeiro de luxo pela Antárctida se torna num foco de um vírus tão perigoso?
O hantavírus tem um período de incubação de uma a seis semanas, portanto as pessoas podem ter sido infetadas antes de embarcar, talvez em Ushuaia ou noutros locais durante a viagem. O vírus transmite-se normalmente através de contacto com roedores infetados.
Mas a OMS também admite transmissão de pessoa para pessoa. Isso é crucial — significa que o navio pode ter sido um amplificador, não apenas um transportador.
E porque é que ninguém percebeu o que estava a acontecer até ser demasiado tarde?
Os primeiros sintomas — febre, dores de cabeça, diarreia — parecem comuns. O homem neerlandês começou a piorar rapidamente, mas estava no meio do oceano. Só quando a mulher morreu na África do Sul e foi confirmado o hantavírus é que as peças encaixaram.
Mesmo assim, há um intervalo de 13 dias entre a morte do primeiro passageiro e o desembarque do corpo. Ninguém testou? Ninguém suspeitou de algo grave?
Que fazer agora com as pessoas que ainda estão no navio?
Serão repatriadas para os seus países de origem. Os espanhóis vão para um hospital militar em Madrid. Há também três passageiros que já regressaram independentemente — a Suíça e o Reino Unido estão a monitorizar.
Mas isso levanta uma questão: quantas pessoas infetadas já saíram do navio e estão espalhadas por vários países? Temos confirmação de quantas?
Oito casos identificados no total — três confirmados por laboratório, cinco suspeitos. Mas sim, há passageiros que viajaram para diferentes países após Santa Helena.
Porque é que Cabo Verde e as Canárias recusaram o navio?
Medo de contágio. Cabo Verde disse que não tinha condições e não podia arriscar a população nem o turismo. As Canárias alegaram falta de critério técnico na decisão.
Mas a OMS e a UE consideraram que era seguro receber o navio em Tenerife, desde que os passageiros fossem isolados. Isso sugere que o risco era mais político do que real.
El Pulso
- 150 pessoas a bordo de 23 nacionalidades em cruzeiro de 46 dias
- Três mortes confirmadas entre 20 de Março e 2 de Maio
- Oito casos totais identificados (três confirmados, cinco suspeitos)
- Estirpe dos Andes — a única transmissível entre pessoas
- Cabo Verde recusou atracagem; Espanha aceitou em Tenerife
O cruzeiro de 46 dias pela Antárctida e Atlântico Sul resultou em múltiplas mortes e infecções por hantavírus, a estirpe dos Andes sendo a mais perigosa. Cabo Verde recusou a atracagem do navio; Espanha aceitou receber o MV Hondius em Tenerife para repatriação de passageiros e isolamento médico.
O navio MV Hondius, com 150 pessoas a bordo, tornou-se epicentro de um surto de hantavírus após partir de Ushuaia em Março. Oito casos foram identificados, incluindo três mortes confirmadas.
No dia 20 de Março, o MV Hondius saiu de Ushuaia, a cidade mais austral do mundo, carregando 150 pessoas — passageiros e tripulantes de 23 nacionalidades — rumo a uma expedição de 46 dias pela Antárctida e pelo Atlântico Sul. O navio, um quebra-gelo de 107 metros operado pela holandesa Oceanwide Expeditions, prometia uma aventura nas regiões mais remotas do planeta, com preços entre 15 mil e 25 mil euros. Ninguém a bordo sabia que estava prestes a viver um dos surtos virais mais graves em águas internacionais dos últimos anos.
A viagem seguiu o plano inicial: excursões pela península Antárctida, depois um regresso a Ushuaia no dia 1 de Abril para a segunda etapa, desta vez navegando para norte. Os passageiros visitariam as Malvinas, Geórgia do Sul, Sandwich do Sul, e finalmente as ilhas de Santa Helena, Ascensão e Tristão da Cunha. Tudo parecia correr conforme previsto até à primeira morte, a 11 de Abril, quando um cidadão neerlandês de 70 anos faleceu enquanto o navio navegava no Atlântico Sul. Tinha começado a sentir-se mal a 6 de Abril com febre, dores de cabeça, dor abdominal e diarreia. Os sintomas pioraram rapidamente, evoluindo para dificuldades respiratórias. Seu corpo permaneceu no navio durante 13 dias, até à paragem em Santa Helena, a cerca de mil milhas náuticas de Angola.
A mulher que o acompanhava, de 69 anos, aparentava estar bem quando o corpo foi desembarcado. Mas durante o voo para a África do Sul, onde transportava o marido falecido, começou a piorar. Desmaiou na chegada ao aeroporto de Joanesburgo e foi transferida para um hospital, onde morreu a 27 de Abril. Cinco dias depois, a 4 de Maio, confirmou-se o que ninguém esperava: ambos tinham sido infetados por hantavírus, a estirpe dos Andes — a mais perigosa e a única transmissível entre pessoas.
No mesmo dia em que a morte da mulher foi confirmada, a Oceanwide Expeditions recebeu outra notícia alarmante: um passageiro britânico de 69 anos estava gravemente doente com febre, dificuldades respiratórias e pneumonia. O navio estava a fazer uma paragem na ilha de Ascensão quando foi chamada assistência médica urgente. O homem foi transferido para Joanesburgo, onde permanece internado numa unidade de cuidados intensivos com infecção confirmada. Um dia depois, a 2 de Maio, uma mulher alemã morreu a bordo, tendo começado a sentir-se mal a 28 de Abril com sintomas de pneumonia. No dia 3 de Maio, dois membros da tripulação — um britânico e outro neerlandês — relataram sintomas respiratórios. A existência de um surto tornou-se evidente e, a 4 de Maio, a notícia espalhou-se por todo o mundo.
A Organização Mundial da Saúde indicou que a infecção provavelmente ocorreu fora do cruzeiro, dado que o período de incubação do vírus varia entre uma a seis semanas. Admitiu também a possibilidade de transmissão de pessoa para pessoa. No total, foram identificados oito casos — três confirmados por laboratório e cinco suspeitos. O navio entrou em águas cabo-verdianas no domingo, 3 de Maio, mas Cabo Verde recusou a atracagem. O primeiro-ministro Ulisses Correia e Silva argumentou que o país não tinha condições para receber o navio e que não podia pôr em risco a população nem a reputação de Cabo Verde como destino turístico.
A OMS e a União Europeia contactaram o Governo espanhol para que recebesse o navio em conformidade com o direito internacional e princípios humanitários. Mas surgiu uma falha de comunicação entre o executivo de Pedro Sánchez e o Governo Autónomo das Canárias. O arquipélago opôs-se à decisão, alegando que foi tomada sem critério técnico. A presidente do Conselho da Ilha de Tenerife referiu a "rejeição total e absoluta" do plano. Apesar da resistência, o MV Hondius navegou na tarde de quarta-feira e deixou as imediações do porto da Praia pelas 16h10, prevendo-se a chegada a Tenerife no sábado seguinte.
No porto de Granadilla, em Tenerife, os 14 passageiros espanhóis serão transferidos para um hospital militar em Madrid, onde ficarão em isolamento pelo tempo necessário. Os restantes cidadãos serão repatriados para os seus países de origem. As autoridades garantem que a população das Canárias não está em risco, uma vez que os passageiros serão transportados evitando contacto com cidadãos locais. Entretanto, a Argentina instalou armadilhas para roedores em Ushuaia e está a analisar animais na zona. A Suíça e o Reino Unido acompanham três passageiros que regressaram independentemente após Santa Helena. Um passageiro que viajou para a Suíça foi colocado em isolamento no Hospital Universitário de Zurique após relatar sintomas, com testes a confirmarem infecção por hantavírus.
Citas Notables
Não temos condições e não se pode pôr em risco, não só a população, mas também Cabo Verde como destino turístico— Ulisses Correia e Silva, primeiro-ministro de Cabo Verde