Em um país onde o futuro pesa mais que o presente, quatro em cada dez brasileiros apontam o colapso climático como a maior ameaça à vida que conhecem — superando o desemprego, a democracia e a fome. O Instituto Oyá, ao mapear esses medos, revelou também uma ferida silenciosa: a maioria da população não consegue distinguir o verdadeiro do falso quando o assunto é o próprio planeta. Entre a ansiedade pelo amanhã e a desorientação de hoje, o Brasil enfrenta não apenas uma crise climática, mas uma crise de sentido e de confiança.
Mudanças climáticas superam desemprego como maior preocupação dos brasileiros
O brasileiro não é negacionista. Está desinformado.
Como é possível que as mudanças climáticas sejam a maior preocupação futura mas caiam para nono lugar quando perguntam sobre preocupações presentes?
Porque o futuro é abstrato e o presente é concreto. Quando você pergunta sobre ameaças ao longo da vida, o clima emerge como existencial. Mas quando pergunta o que tira o sono hoje, as pessoas pensam em contas a pagar, em emprego, em saúde imediata.
Mas isso também pode significar que as pessoas não veem conexão entre o clima e seus problemas do dia a dia. Ou que a pesquisa não conseguiu medir engajamento real — apenas opinião.
E quanto à desinformação? Setenta e oito por cento não conseguem diferenciar fake news de notícias verdadeiras — isso é um número que assusta.
É. E o pior é que não é por falta de inteligência. É porque as notícias falsas são emocionalmente poderosas. Elas tocam em medos reais. As pessoas acreditam porque querem acreditar, porque faz sentido com o que já temem.
Mas a pesquisa não diz como eles testaram isso. Um experimento social cego é diferente de medir comportamento real. E 78% é uma estimativa — não sabemos a margem de erro.
Então o brasileiro confia mais em tecnologia do que em governo?
Sim. Sessenta e sete por cento confiam em tecnologia, mas apenas 35% confiam em governos. É uma inversão perigosa.
Perigosa por quê? Porque a tecnologia pode ser usada para manipular — deepfakes, IA. Mas também porque governos são responsáveis por regular essa tecnologia. Se as pessoas confiam na ferramenta mas não em quem a governa, elas ficam vulneráveis.
Camila Kamilo diz que o brasileiro não é negacionista, está desinformado. Qual é a diferença?
Um negacionista rejeita a realidade mesmo com evidência. Um desinformado simplesmente não tem acesso a informação confiável. É mais esperançoso — porque desinformação pode ser corrigida.
Mas a pesquisa não diferencia os dois. Ela apenas diz que as pessoas não conseguem distinguir fake news. Isso pode ser desinformação, ou pode ser ceticismo racional diante de instituições que falharam.
O Pulso
- Mudanças climáticas lideram o ranking de ameaças ao futuro para 41% dos brasileiros, deixando para trás desemprego, retrocesso democrático e escassez de alimentos.
- A contradição é reveladora: quando o assunto é o presente imediato, o clima despenca para o nono lugar, expondo um abismo entre o medo abstrato e a ação concreta.
- 78% dos brasileiros não conseguem separar fake news de informações verdadeiras sobre eventos climáticos extremos, tornando a desinformação uma ameaça tão urgente quanto o próprio aquecimento global.
- A desconfiança em governos (35%) convive com alta confiança em tecnologia (67%), criando um terreno fértil para manipulação por deepfakes e inteligência artificial — temidos por 81% dos entrevistados.
- ONGs concentram a maior parcela de confiança institucional (45%), apontando para a sociedade civil como possível ponte entre o alarme climático e o engajamento real da população.
Em um país onde o futuro pesa mais que o presente, quatro em cada dez brasileiros apontam o colapso climático como a maior ameaça à vida que conhecem — superando o desemprego, a democracia e a fome. O Instituto Oyá, ao mapear esses medos, revelou também uma ferida silenciosa: a maioria da população não consegue distinguir o verdadeiro do falso quando o assunto é o próprio planeta. Entre a ansiedade pelo amanhã e a desorientação de hoje, o Brasil enfrenta não apenas uma crise climática, mas uma crise de sentido e de confiança.
Quarenta e um por cento dos brasileiros enxergam as mudanças climáticas como a maior ameaça ao futuro — número revelado esta semana pelo Instituto Oyá em parceria com a Ipsos, na pesquisa Termômetro do Brasil, que ouviu dois mil pessoas em todo o país. O clima supera preocupações como perda de emprego e retrocesso democrático, ambos citados por 32% dos entrevistados, além de deterioração da saúde (31%) e escassez de alimentos (30%).
Há, porém, uma contradição que os dados não escondem: quando a pergunta muda do futuro para o presente, o clima cai ao nono lugar, com apenas 14% de menção. Essa lacuna coloca o Brasil na 20ª posição entre os países mais preocupados com o tema — sugerindo que a ansiedade ainda não se converteu em mobilização.
Mais profundo que o medo, porém, é o problema da desinformação. A diretora executiva do Instituto Oyá, Camila Kamilo, destacou que 78% dos brasileiros não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras sobre eventos climáticos extremos. Um experimento social cego mostrou que informações falsas com forte apelo emocional são aceitas como verdade — padrão especialmente perigoso em período de incerteza eleitoral.
A desconfiança nas instituições agrava o cenário: apenas 35% confiam em governos, enquanto 67% confiam em tecnologia. Ao mesmo tempo, 81% temem o uso de deepfakes e inteligência artificial para manipulação. Kamilo observa que essa combinação — credulidade tecnológica e desconfiança institucional — torna as pessoas vulneráveis a qualquer narrativa, não apenas sobre clima.
Apesar disso, há uma abertura: 45% dos brasileiros confiam em organizações não governamentais. Para Kamilo, fortalecer a sociedade civil e a imprensa como difusoras de informação verificada é o caminho mais promissor. O desafio não é apenas informar — é encontrar formas de engajamento que façam sentido para uma população que teme o futuro, mas não se reconhece nas estruturas políticas tradicionais.
Quarenta e um por cento dos brasileiros apontam as mudanças climáticas como a maior ameaça ao futuro. Esse número, divulgado esta semana pelo Instituto Oyá em parceria com a Ipsos, marca um ponto de virada na forma como o país percebe seus riscos mais urgentes. O levantamento, batizado Termômetro do Brasil, ouviu dois mil pessoas e mapeou não apenas medos abstratos, mas preocupações que as pessoas carregam para si mesmas e para suas famílias.
O clima supera outras ameaças que também ocupam o imaginário coletivo. A perda de emprego preocupa 32% dos entrevistados. O retrocesso na democracia também atinge 32%. A deterioração da saúde afeta 31%. A escassez de alimentos, 30%. Uma nova pandemia, 24%. Mas nenhuma dessas ameaças chega perto do peso que os brasileiros atribuem ao colapso climático quando perguntados sobre o futuro distante.
Há, porém, uma contradição reveladora nos dados. Quando o mesmo grupo é questionado sobre suas principais preocupações no momento presente, o clima cai para o nono lugar, com apenas 14% de menção. As ameaças ambientais em geral ficam em décimo, com 10%. Essa lacuna entre o medo do futuro e a urgência do agora coloca o Brasil na 20ª posição entre os países mais preocupados com mudanças climáticas — um ranking que sugere que, apesar da ansiedade, a mobilização ainda não acompanha o nível de inquietação.
Mas há algo mais profundo acontecendo sob esses números. Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá, destacou um achado que a surpreendeu: 78% dos brasileiros não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras, inclusive quando o assunto é eventos climáticos extremos. Através de um experimento social cego, a pesquisa demonstrou que as pessoas aceitam como verdade informações falsas que carregam forte apelo emocional. Esse padrão é particularmente preocupante em um momento de incerteza eleitoral no país.
O medo da manipulação tecnológica é igualmente agudo. Oitenta e um por cento dos entrevistados temem o uso de deepfakes e inteligência artificial para falsificar imagens e voz. Ao mesmo tempo, existe uma assimetria estranha na confiança: 67% dos brasileiros confiam em tecnologia, enquanto apenas 35% confiam em governos. Kamilo observa que essa desconfiança institucional, combinada com credulidade tecnológica, cria um cenário onde as pessoas literalmente aceitam qualquer coisa como verdade — não apenas sobre clima, mas sobre desafios sociais, econômicos e ecológicos que se entrelaçam.
O engajamento social sobre clima tem acontecido principalmente através de redes sociais, de forma distante e passiva, em vez de ativa e presencial. Kamilo ressalta que o brasileiro não é negacionista em sua maioria; está desinformado. Para reverter esse quadro, ela defende que o país adote políticas públicas e novos modelos de comunicação capazes de garantir a veracidade das informações que circulam socialmente.
Há sinais de que a sociedade civil pode ser um caminho. Apesar da desconfiança generalizada nas instituições, 45% dos brasileiros acreditam em organizações não governamentais. Kamilo vê nisso uma oportunidade: fortalecer as organizações da sociedade civil, incluindo a imprensa como difusora de informações verificadas. Simultaneamente, o eleitor brasileiro se mostra afastado do engajamento partidário tradicional — 39% descartam atuar em campanhas ou partidos, e 33% rejeitam protestos de rua. O desafio, portanto, não é apenas informar, mas encontrar formas de engajamento que façam sentido para uma população que teme o futuro mas não se vê refletida nas estruturas políticas convencionais.
Citações Notáveis
Isso faz com que as pessoas, literalmente, aceitem qualquer coisa como verdade. E isso ocorre, não só num contexto de crise climática, mas também de desafios sociais, econômicos e ecológicos.— Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá
O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado.— Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá