Mudanças climáticas preocupam 41% dos brasileiros mais que desemprego

O brasileiro não é negacionista. Ele está desinformado.
Diretora do Instituto Oyá explica por que a população aceita notícias falsas sobre clima e outras crises.
Mark

Então os brasileiros se preocupam muito com clima, mas quando você pergunta o que os preocupa agora, o clima cai para o nono lugar. Como você explica essa contradição?

Mimi

É a diferença entre ameaça futura e urgência presente. As pessoas veem o clima como um risco existencial, mas no dia a dia estão lidando com desemprego, saúde, segurança. O clima é abstrato; a falta de emprego é concreta.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. A pesquisa ouviu 2 mil pessoas — é uma amostra sólida, mas não sabemos a composição demográfica. Pode ser que certos grupos vejam o clima como mais urgente que outros.

Mark

E quanto à desinformação? 78% não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras?

Mimi

Sim, e o experimento mostrou que as pessoas aceitam como verdade informações falsas que têm apelo emocional forte. Isso é particularmente perigoso em um ano eleitoral.

Luke

Mas aqui temos que perguntar: como exatamente foi esse experimento? O que significa "aceitar como verdade"? Eles foram enganados uma vez, ou mudaram sua opinião duradouramente? A metodologia importa.

Mark

A pesquisa diz que 67% confiam em tecnologia mas 65% desconfiam de governos. Isso não é um convite para manipulação?

Mimi

Exatamente. Se as pessoas confiam mais em máquinas do que em instituições, elas ficam vulneráveis a deepfakes e IA usados para enganar. É um paradoxo perigoso.

Luke

Verdade, mas também é importante notar que 45% ainda confiam em ONGs. Não é tudo desconfiança. Há espaço para instituições que não são governamentais.

Mark

Então qual é a saída?

Mimi

Fortalecer a sociedade civil, investir em comunicação verificada, criar políticas públicas que enfrentem tanto o clima quanto a desinformação. Mas também é preciso engajamento presencial, não só nas redes sociais.

Luke

E isso é o grande desafio: 39% dos brasileiros rejeitam campanhas partidárias e 33% rejeitam protestos de rua. Como você mobiliza uma população que está desengajada das formas tradicionais de ação política?

  • 41% dos brasileiros veem mudanças climáticas como maior ameaça ao futuro
  • 78% não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras sobre eventos climáticos
  • 67% confiam em tecnologia; 65% desconfiam de governos
  • 45% dos brasileiros acreditam em organizações não governamentais
  • Pesquisa ouviu 2 mil pessoas

Mudanças climáticas lideram preocupações futuras (41%), à frente de perda de emprego (32%) e retrocesso democrático (32%). 78% dos brasileiros não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras sobre eventos climáticos extremos, aceitando desinformação com apelo emocional.

Pesquisa do Instituto Oyá revela que 41% dos brasileiros consideram mudanças climáticas a maior ameaça ao futuro, superando desemprego e retrocesso democrático, mas desinformação e desconfiança institucional prejudicam engajamento.

Quando perguntados sobre as maiores ameaças ao futuro, 41% dos brasileiros apontam as mudanças climáticas — uma preocupação que supera, de forma clara, o desemprego, o retrocesso democrático e a deterioração da saúde. Esse dado emerge de uma pesquisa inédita do Instituto Oyá, realizada em parceria com a Ipsos e divulgada esta semana sob o título Termômetro do Brasil. O levantamento ouviu 2 mil pessoas e buscou mapear as inquietações que mais pesam sobre brasileiros quando pensam em si mesmos e em suas famílias.

A hierarquia das preocupações é reveladora. Depois das mudanças climáticas, vêm a perda de emprego e o retrocesso na democracia, ambos com 32%. A deterioração da saúde fica em terceiro lugar com 31%, seguida pela escassez de alimentos com 30% e pela pandemia com 24%. Esses números colocam o Brasil na 20ª posição entre os países mais preocupados com o clima quando se trata de ameaças futuras. Mas há uma contradição importante nos dados: quando o mesmo grupo é questionado sobre as principais preocupações no momento presente, as mudanças climáticas caem para o nono lugar com apenas 14%, e as ameaças ao meio ambiente descem ainda mais, para o décimo lugar com 10%.

O que mais chamou a atenção de Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá, foi um achado perturbador sobre a capacidade dos brasileiros de distinguir fato de ficção. Em média, 78% das pessoas não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras, inclusive quando o assunto envolve eventos climáticos extremos. Um experimento social cego demonstrou que os brasileiros tendem a aceitar como verdadeiras informações falsas que carregam forte apelo emocional. Esse cenário ganha peso particular em um momento de incerteza eleitoral no país.

A vulnerabilidade à desinformação se estende também às novas tecnologias. Oitenta e um por cento dos brasileiros temem o uso de deepfakes e inteligência artificial para manipulação de imagem e voz. Ao mesmo tempo, existe uma desconexão preocupante entre confiança tecnológica e confiança institucional: 67% dos brasileiros confiam na tecnologia, enquanto 65% desconfiam dos governos. Para Kamilo, essa deterioração da confiança é um motivo de atenção em um contexto de incertezas múltiplas. "Isso faz com que as pessoas, literalmente, aceitem qualquer coisa como verdade", afirma. "E isso ocorre não só num contexto de crise climática, mas também de desafios sociais, econômicos e ecológicos."

O engajamento social sobre clima tem se concentrado nas redes sociais, de forma distante e passiva, em vez de ativa e presencial. Kamilo observa que o Brasil precisa adotar políticas públicas e novos modelos de comunicação para garantir a veracidade das informações que circulam. "O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado", resume a pesquisadora. Apesar da desconfiança generalizada nas instituições, 45% dos brasileiros ainda acreditam nas organizações não governamentais, o que oferece um caminho possível para fortalecer a disseminação de informações verificadas.

Outro aspecto relevante é o afastamento do eleitor brasileiro do engajamento partidário tradicional. Trinta e nove por cento descartam atuar em campanhas ou partidos, e 33% rejeitam protestos de rua. Esse quadro sugere uma população preocupada com questões estruturais — clima, emprego, democracia — mas fragmentada em sua capacidade de agir coletivamente, vulnerável à desinformação e desconfiada das instituições que poderiam canalizar essa preocupação em mudança.

Isso faz com que as pessoas, literalmente, aceitem qualquer coisa como verdade. E isso ocorre não só num contexto de crise climática, mas também de desafios sociais, econômicos e ecológicos.
— Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá
O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado.
— Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá
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