Mudanças climáticas preocupam 41% dos brasileiros mais que desemprego

O brasileiro não é negacionista. Ele está desinformado.
Diretora do Instituto Oyá resume o achado central: não é rejeição ideológica ao clima, mas falta de informação verificada.
Mark

Como é possível que 41% se preocupem com clima para o futuro, mas apenas 14% mencionem isso como preocupação atual? Isso não é contraditório?

Mimi

Não exatamente. As pessoas reconhecem o clima como uma ameaça estrutural — algo que vai afetar gerações — mas no dia a dia elas lidam com desemprego, saúde, segurança alimentar. É a diferença entre o que sabemos que importa e o que nos machuca agora.

Luke

Mas precisamos ser cuidadosos aqui. A pesquisa perguntou sobre "maior ameaça para o futuro" em uma pergunta, e "principais preocupações no momento" em outra. São perguntas diferentes. Não sabemos se as pessoas realmente mudaram de opinião ou se apenas responderam o que a pergunta pedia.

Mark

Entendi. E quanto à desinformação? 78% não conseguem diferenciar fake news de notícias verdadeiras — isso é um número que assusta.

Mimi

É. E o Instituto Oyá fez um experimento cego que mostrou que as pessoas aceitam como verdade informações falsas que têm apelo emocional forte. Num contexto de crise climática, isso significa que boatos sobre enchentes, secas, eventos extremos — tudo isso pode se espalhar sem verificação.

Luke

Mas aqui também precisamos de contexto. Esse experimento foi feito como? Com quantas pessoas? O que exatamente eles mostraram? A reportagem não detalha a metodologia. E quando dizem "78% não sabem diferenciar", isso foi testado com quantas notícias? Uma? Dez? A margem de erro importa.

Mark

Boa observação. E quanto à confiança em tecnologia versus governos — 67% confiam em tecnologia, mas apenas 35% confiam em governos?

Mimi

Isso reflete algo real: as pessoas veem a tecnologia como neutra, como ferramenta. Os governos, elas veem como atores políticos que podem mentir. Mas é uma ilusão perigosa, porque a tecnologia também pode ser manipulada.

Luke

Exatamente. E 81% temem deepfakes — isso mostra que as pessoas já desconfiam que a tecnologia pode ser usada contra elas. Então há uma contradição: confiam na tecnologia em abstrato, mas temem seu uso malicioso. Isso não é tão simples quanto parece.

Mark

E as ONGs? 45% confiam nelas. Isso é mais que a confiança em governos?

Mimi

Sim. E Kamilo vê isso como uma oportunidade — fortalecer a sociedade civil, a imprensa, as organizações que verificam informação. É um caminho possível.

Luke

Mas 45% ainda significa que 55% não confiam em ONGs, ou não responderam. E não sabemos se essa confiança é baseada em conhecimento real das organizações ou em uma percepção genérica de que "ONGs são boas". A pesquisa não detalha isso.

  • O Brasil reconhece a crise climática como ameaça futura, mas a urgência some quando a pergunta muda para o presente — um abismo entre consciência e vivência que coloca o país na 20ª posição global em preocupação climática.
  • A desinformação age como combustível silencioso: 78% dos brasileiros não conseguem separar o verdadeiro do falso, e tendem a aceitar como real qualquer informação que carregue forte apelo emocional.
  • A desconfiança em governos (35%) contrasta com a fé na tecnologia (67%), criando um vácuo institucional que, segundo a diretora do Instituto Oyá, faz com que as pessoas 'aceitem literalmente qualquer coisa como verdade'.
  • O medo de deepfakes e manipulação digital atinge 81% dos entrevistados, enquanto o engajamento climático permanece distante e passivo, restrito às redes sociais e sem presença física.
  • Um ponto de resistência emerge: 45% ainda confiam em ONGs, abrindo espaço para que a sociedade civil e a imprensa verificada ocupem o vácuo deixado pelas instituições públicas.

Em um país onde o futuro pesa mais que o presente, uma pesquisa do Instituto Oyá revelou que 41% dos brasileiros enxergam as mudanças climáticas como a maior ameaça vindoura — acima do desemprego e do retrocesso democrático. Mas quando o olhar se volta para o hoje, o clima some da conversa, caindo ao nono lugar nas preocupações imediatas. Esse paradoxo, somado ao fato de que 78% dos entrevistados não distinguem notícias falsas de verdadeiras, desenha o retrato de uma sociedade que reconhece o perigo no horizonte, mas ainda não o sente nos pés.

Uma pesquisa inédita do Instituto Oyá, realizada com dois mil brasileiros em parceria com a Ipsos, revelou uma hierarquia de medos que surpreende. Quando perguntados sobre a maior ameaça ao futuro, 41% apontaram as mudanças climáticas — à frente da perda de emprego e do retrocesso democrático, ambos com 32%. A deterioração da saúde (31%), a escassez de alimentos (30%) e uma nova pandemia (24%) completam o quadro.

Mas há um paradoxo incômodo. Quando a pergunta muda para as preocupações do presente imediato, o clima despenca ao nono lugar, com apenas 14% de menção. O contraste sugere que os brasileiros reconhecem a gravidade climática como conceito, mas ainda não a sentem como urgência vivida — o que coloca o país na 20ª posição entre os mais preocupados com o tema no ranking global.

O achado que mais chamou atenção da diretora executiva Camila Kamilo foi o da desinformação: 78% dos entrevistados não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras. Um experimento cego mostrou que os brasileiros tendem a aceitar informações falsas quando carregam forte apelo emocional. O problema se agrava com a tecnologia — 81% temem deepfakes e manipulação por inteligência artificial.

A desconfiança em governos (35%) contrasta com a confiança na tecnologia (67%), criando, segundo Kamilo, um vácuo perigoso. 'O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado', resume. Apesar disso, 45% ainda confiam em ONGs — uma janela para que a sociedade civil e a imprensa verificada assumam papel central na difusão de informação confiável em tempos de incerteza crescente.

Uma pesquisa inédita do Instituto Oyá, realizada em parceria com a Ipsos junto a dois mil brasileiros, revelou uma hierarquia de medos que desafia expectativas simples sobre o que nos preocupa. Quando perguntados sobre a maior ameaça para o futuro, 41% dos entrevistados apontaram as mudanças climáticas — um número que supera significativamente outras inquietações que costumam dominar o debate público. A perda de emprego preocupa 32%, assim como o retrocesso democrático. A deterioração da saúde ocupa 31% das respostas, a escassez de alimentos 30%, e a possibilidade de uma nova pandemia apenas 24%.

Mas há um paradoxo incômodo embutido nesses números. Quando o mesmo grupo de entrevistados foi questionado sobre suas principais preocupações no presente imediato — não no futuro distante, mas agora — o clima desaparece da conversa. Cai para o nono lugar, com apenas 14% de menção. As ameaças ao meio ambiente em geral ficam ainda mais abaixo, em décimo, com 10%. Esse contraste sugere algo mais complexo que simples negacionismo: os brasileiros parecem reconhecer a gravidade climática como conceitual, mas não como urgência vivida. O resultado coloca o Brasil na 20ª posição entre os países mais preocupados com mudanças climáticas no ranking global.

O que mais chamou atenção de Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá, foi um achado sobre a qualidade da informação que circula entre os brasileiros. Em média, 78% das pessoas não conseguem diferenciar notícias falsas de verdadeiras — um número particularmente alarmante quando se trata de eventos climáticos extremos. Um experimento social cego demonstrou que os brasileiros tendem a aceitar como verdadeiras informações falsas que carregam forte apelo emocional, independentemente de sua veracidade.

Esse cenário de desinformação se agrava com a tecnologia. Oitenta e um por cento dos entrevistados temem o uso de deepfakes e ferramentas de inteligência artificial para manipulação de imagem e voz. Ao mesmo tempo, existe uma desconexão profunda entre confiança tecnológica e confiança institucional: 67% dos brasileiros confiam na tecnologia, enquanto apenas 35% confiam nos governos. Kamilo observa que essa deterioração da confiança em instituições públicas cria um vácuo perigoso. "Faz com que as pessoas, literalmente, aceitem qualquer coisa como verdade", afirma. E isso não ocorre apenas no contexto de crise climática, mas também diante de desafios sociais, econômicos e ecológicos.

O engajamento social sobre clima, segundo a pesquisa, tem se concentrado em redes sociais — distante, passivo, sem presença física. Kamilo defende que o país precisa de políticas públicas e novos modelos de comunicação para garantir a veracidade das informações que circulam. "O brasileiro não é negacionista na sua maioria. Ele está desinformado", resume.

Há, porém, um ponto de luz nas instituições. Apesar da desconfiança generalizada, 45% dos brasileiros acreditam em organizações não governamentais. Kamilo vê nisso uma oportunidade: fortalecer as organizações da sociedade civil e a imprensa como difusoras de informação verificada. Outro dado relevante é o afastamento do eleitor brasileiro do engajamento partidário tradicional. Trinta e nove por cento descartam atuar em campanhas ou partidos, e 33% rejeitam protestos de rua. O quadro que emerge é o de uma população preocupada com o futuro, mas fragmentada em sua capacidade de agir, desconfiada de seus governos, e vulnerável à desinformação em um momento de incertezas crescentes.

Faz com que as pessoas, literalmente, aceitem qualquer coisa como verdade. E isso ocorre não só num contexto de crise climática, mas também de desafios sociais, econômicos e ecológicos.
— Camila Kamilo, diretora executiva do Instituto Oyá
É necessário que o país adote políticas públicas e novos modelos de comunicação para garantir a veracidade das informações que circulam socialmente.
— Camila Kamilo, Instituto Oyá
Contáctanos FAQ