Ex-diretor André Weiss preso em Piracicaba com arma e R$ 400 mil; esquema envolvia pagamento de propina de até 10% para liberar créditos acumulados de ICMS a grandes empresas. Investigação aponta transações imobiliárias suspeitas em Piracicaba, com imóvel avaliado em R$ 141 mil declarado por R$ 620 mil, e repasses milionários entre escritório tributário local e banca do advogado.
MP prende ex-diretor da Fazenda em operação contra fraude de ICMS em Piracicaba
Um mecanismo legítimo transformado em mercado clandestino
Como um ex-diretor da Fazenda consegue operar um esquema assim por tanto tempo sem ser descoberto?
Porque ele estava dentro da máquina. Tinha acesso aos sistemas, conhecia os procedimentos, sabia quem autorizar e como fazer parecer legal. A propina era o lubrificante que mantinha tudo funcionando.
Mas a pergunta real é: quanto tempo durou? A gente sabe que um investigado confessou R$ 13,6 milhões em quatro anos, mas não sabemos se Weiss estava envolvido desde o início ou se entrou depois.
E os R$ 400 mil que ele tinha na hora da prisão — era dinheiro recente ou acumulado?
A fonte não especifica. Mas o fato de estar armado e com dinheiro em espécie sugere que ele sabia que algo estava desmoronando.
Exatamente. A prisão foi em flagrante ou por mandado? Porque isso muda a narrativa — se foi flagrante, ele estava em movimento. Se foi por mandado, ele estava esperando.
E Piracicaba? Por que um esquema de corrupção na Fazenda estadual tem tanta movimentação em uma cidade do interior?
Porque o dinheiro precisa sair do sistema. Você não pode manter R$ 13,6 milhões em uma conta bancária com seu nome. Precisa de intermediários, de escritórios, de imóveis com preços inflados.
Mas a gente só tem confirmado o que aconteceu em Piracicaba. Não sabemos se havia outras cidades, outros escritórios, outras redes de lavagem.
Os R$ 3 bilhões que a Fazenda já cobrou — isso é resultado dessa operação ou de investigações anteriores também?
A nota diz que é resultado do processo de responsabilização das empresas envolvidas. Mas não deixa claro se é só dessa rede ou se inclui outras descobertas.
E aí está o risco de uma manchete grande: R$ 3 bilhões soa como vitória, mas pode ser que a fraude tenha sido muito maior e a gente só recuperou uma fração.
Der Puls
- André Weiss, ex-diretor da Administração Tributária, preso em Piracicaba com arma e R$ 400 mil
- Propina chegava a 10% do valor do crédito de ICMS liberado; um investigado confessou R$ 13,6 milhões em quatro anos
- Imóvel avaliado em R$ 141 mil foi declarado por Weiss por R$ 620 mil em Piracicaba
- Secretaria da Fazenda já cobrou mais de R$ 3 bilhões em créditos, multas e juros das empresas envolvidas
Ex-diretor André Weiss preso em Piracicaba com arma e R$ 400 mil; esquema envolvia pagamento de propina de até 10% para liberar créditos acumulados de ICMS a grandes empresas. Investigação aponta transações imobiliárias suspeitas em Piracicaba, com imóvel avaliado em R$ 141 mil declarado por R$ 620 mil, e repasses milionários entre escritório tributário local e banca do advogado.
Ministério Público prende ex-diretor da Administração Tributária de SP e advogado em operação contra esquema de corrupção, fraude tributária e lavagem de dinheiro envolvendo créditos de ICMS, com movimentações investigadas em Piracicaba.
Na manhã de quinta-feira, 3 de setembro, policiais do Ministério Público de São Paulo prenderam André Weiss, ex-diretor-geral executivo da Administração Tributária da Fazenda estadual, em um condomínio no bairro São Dimas, em Piracicaba. Weiss estava armado e portava R$ 400 mil em espécie. A prisão marcou o ponto de ruptura de uma investigação que havia permanecido em sigilo, revelando um esquema sofisticado de corrupção, fraude tributária e lavagem de dinheiro que operava dentro da própria Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo.
O mecanismo era direto em sua lógica perversa: agentes públicos recebiam propina de intermediários que buscavam grandes empresas contribuintes. Em troca, esses servidores aceleravam e liberavam créditos acumulados de ICMS — o Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços — que as empresas tinham direito a recuperar. A propina cobrada chegava a 10% do valor total do crédito a ser pago. Um dos investigados confessou ter recebido mais de R$ 13,6 milhões em propina ao longo de apenas quatro anos, oferecendo uma medida do tamanho da operação.
Piracicaba emergiu como um centro logístico crucial da fraude. Investigadores identificaram um escritório tributário no bairro Jardim Europa que mantinha relações financeiras com a banca do advogado João André Buttini de Moraes, preso na mesma operação. Entre essas duas entidades houve repasses milionários. Além disso, Weiss e sua companheira realizaram transações imobiliárias na cidade que despertaram suspeita. Em um caso particularmente flagrante, um imóvel avaliado em R$ 141 mil foi declarado por Weiss pelo valor de R$ 620 mil — uma discrepância que os promotores interpretam como tentativa de inserir dinheiro ilícito no sistema financeiro legal. Os investigadores também rastrearam transferências de Weiss para seu cunhado, um advogado com escritório em Piracicaba, e agora apuram se as contas bancárias e participações empresariais desse parente foram usadas como canal para lavar recursos provenientes do esquema.
A investigação, que se baseou em delações premiadas, gravações, quebra de sigilos bancários e dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras, revelou que o grupo operava em dois núcleos distintos. De um lado, intermediários da iniciativa privada identificavam grandes empresas e negociavam com elas a possibilidade de obter créditos de ICMS de forma acelerada. Do outro, servidores públicos da Fazenda recebiam sua parcela do dinheiro arrecadado e garantiam que os procedimentos administrativos necessários para reconhecer e liberar esses créditos fossem cumpridos. O que deveria ser um mecanismo legítimo de restituição tributária — o ICMS-ST, regime no qual uma empresa recolhe antecipadamente o imposto devido pelas demais etapas da cadeia de circulação de uma mercadoria — foi transformado em um mercado clandestino onde até os atos administrativos se tornaram mercadoria.
O Ministério Público investiga crimes de organização criminosa, corrupção ativa e passiva, e lavagem de dinheiro. A operação se estendeu pela capital, interior paulista, Grande São Paulo e Mato Grosso do Sul. A Secretaria da Fazenda, em nota, afirmou que colabora com as investigações desde uma operação anterior realizada no ano passado sobre o mesmo assunto. Segundo a pasta, aquelas ações já resultaram na demissão de cinco pessoas, uma exoneração e o afastamento de 17 servidores públicos sem pagamento de salários. As empresas envolvidas no esquema estão sendo responsabilizadas, e esse processo já gerou a cobrança de mais de R$ 3 bilhões em créditos tributários, multas e juros. A investigação continua em andamento, com o Ministério Público apurando a extensão completa da rede e os valores totais desviados.
Bemerkenswerte Zitate
As investigações apontam uma relação financeira entre um escritório tributário piracicabano, no bairro Jardim Europa, e a banca de João André Buttini de Moraes, com repasses milionários entre essas empresas— Ministério Público de São Paulo
A Secretaria Estadual da Fazenda colabora com as investigações desde uma operação realizada no ano passado sobre o mesmo assunto, resultando na demissão de cinco pessoas, uma exoneração e o afastamento de 17 servidores públicos— Secretaria Estadual da Fazenda