Na calçada de uma das ruas mais institucionais do Rio de Janeiro, um advogado foi morto a tiros em fevereiro de 2024 — e o local, dizem os investigadores, não foi escolhido por acaso. Dois anos depois, o Gaeco formalizou a denúncia contra o bicheiro Adilsinho e outros três, apontando que a disputa pelo emergente mercado de apostas online foi o estopim de uma execução planejada com frieza e intenção de intimidar. O caso coloca em evidência como antigas estruturas do crime organizado buscam se reposicionar em novos territórios econômicos — e o preço que alguns pagam por cruzar esse caminho.
MP denuncia Adilsinho e três por morte de advogado no Rio
Crime com caráter ostensivo e intimidatório, uma mensagem de poder
Por que um crime de fevereiro de 2024 só chega a denúncia em agosto de 2026? Isso é lento?
Não necessariamente. Investigações de crime organizado envolvem vigilância, interceptações, análise de padrões. O Gaeco precisava conectar Adilsinho ao crime sem deixar brechas. Enquanto isso, outros réus já foram julgados e condenados.
Mas se três pessoas já foram condenadas a 30 anos, por que Adilsinho não estava entre eles?
Porque a acusação contra ele é diferente — ele é apontado como mandante, não executor. Provar que alguém encomendou um crime é mais complexo que provar que participou dele. Exige rastreamento de comunicações, motivação, conexão com os executores.
A defesa dele diz que não há provas concretas. Isso é um argumento forte?
É o argumento que toda defesa faz. Mas note: ele estava preso por outros crimes quando a denúncia saiu. Não é como se fosse uma acusação isolada. Há um padrão de comportamento que a polícia atribui a ele.
O que muda para Adilsinho agora que foi denunciado?
Ele continua preso, mas agora em segurança máxima por três anos. A denúncia formal significa que o caso vai a julgamento. Ele terá chance de se defender, mas o ônus agora é maior — o Ministério Público apresentou sua versão dos fatos ao tribunal.
E os outros condenados? Eles podem sair da prisão?
Não imediatamente. Estão cumprindo 30 anos. Mas seus advogados recorreram, questionando se as provas realmente os colocam no crime. Se conseguirem reverter, sim, poderiam sair. É improvável, mas possível.
O que torna esse crime tão significativo que merece tanta atenção?
Ele foi executado em frente à OAB, à Defensoria, ao Ministério Público. Não foi acidental. Foi uma mensagem. Um advogado morto por ameaçar interesses criminosos, no coração da instituição que deveria protegê-lo. Isso é simbólico e assustador.
Le Pouls
- Um advogado de 42 anos foi assassinado a tiros em plena luz do dia, na porta do seu escritório, numa rua que concentra o Ministério Público, a OAB e a Defensoria Pública — um cenário escolhido para enviar uma mensagem.
- O Gaeco identificou o bicheiro Adilsinho como mandante do crime, alegando que ele via no advogado uma ameaça aos seus planos de expansão para o mercado de bets e sporting bars.
- A denúncia descreve uma operação coordenada: vigilância prévia da vítima, monitoramento no dia do crime e uso de veículos para encobrir o atirador — uma execução com características de crime organizado.
- Três réus já foram condenados a 30 anos por homicídio triplamente qualificado, enquanto Adilsinho, preso desde fevereiro de 2026, agora enfrenta acusação formal — e um quarto denunciado segue foragido.
- A defesa de Adilsinho nega qualquer envolvimento e questiona a ausência de provas concretas, enquanto advogados dos já condenados afirmam que prevaleceu o estigma sobre a evidência — e anunciam recursos.
Na calçada de uma das ruas mais institucionais do Rio de Janeiro, um advogado foi morto a tiros em fevereiro de 2024 — e o local, dizem os investigadores, não foi escolhido por acaso. Dois anos depois, o Gaeco formalizou a denúncia contra o bicheiro Adilsinho e outros três, apontando que a disputa pelo emergente mercado de apostas online foi o estopim de uma execução planejada com frieza e intenção de intimidar. O caso coloca em evidência como antigas estruturas do crime organizado buscam se reposicionar em novos territórios econômicos — e o preço que alguns pagam por cruzar esse caminho.
Na manhã de fevereiro de 2024, o advogado Rodrigo Crespo foi morto a tiros na calçada da avenida Marechal Câmara, no centro do Rio, em frente ao escritório onde trabalhava. O endereço não era irrelevante: a mesma rua abriga a OAB, a Defensoria Pública e o Ministério Público. Para os investigadores, a escolha foi deliberada — uma mensagem de poder endereçada a quem pudesse contrariar interesses criminosos.
Dois anos depois, em agosto de 2026, o Gaeco denunciou formalmente quatro pessoas pelo homicídio, entre elas o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho, apontado como uma das lideranças da nova cúpula do jogo do bicho. Segundo a investigação, ele teria encomendado o assassinato por considerar Crespo uma ameaça: o advogado buscava financiadores para um empreendimento no mercado de apostas online e planejava abrir um sporting bar com máquinas semelhantes a caça-níqueis — território historicamente dominado pelos bicheiros.
A execução teria sido cuidadosamente planejada. Um dos denunciados monitorou a vítima nos dias anteriores; outros dois forneceram suporte logístico e acompanharam o crime de dentro do carro usado pelo atirador. A denúncia descreve o crime como ostensivo e intimidatório por natureza. Adilsinho já estava preso desde fevereiro de 2026, capturado em Cabo Frio com mandados em aberto por contrabando e por outro homicídio. Um policial militar também foi denunciado; um quarto acusado permanece foragido.
Em março de 2026, três réus haviam sido condenados a 30 anos de prisão pelo mesmo crime — por homicídio triplamente qualificado, com motivo torpe, emboscada e recurso que dificultou a defesa da vítima. As defesas contestam as condenações, argumentando que o conjunto probatório é insuficiente e que o julgamento recaiu sobre quem os réus são, não sobre o que fizeram. Ambas anunciaram recursos. Com Adilsinho agora no banco dos réus, o caso segue dividido entre condenações já proferidas e acusações ainda em disputa.
Na manhã de fevereiro de 2024, o advogado Rodrigo Crespo, 42 anos, foi morto a tiros na calçada da avenida Marechal Câmara, no centro do Rio de Janeiro, em frente ao escritório onde era sócio. O local não era acidental. A mesma rua abriga a sede estadual da OAB, a Defensoria Pública e o Ministério Público — um endereço que concentra poder institucional e visibilidade. Dois anos depois, em agosto de 2026, o Gaeco, o grupo especializado do Ministério Público fluminense em crime organizado, apresentou denúncia formal contra quatro pessoas pelo homicídio, incluindo o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho, e obteve a decretação de prisão preventiva para todos eles.
Segundo a investigação, Adilsinho — apontado como uma das principais lideranças da chamada nova cúpula do jogo do bicho — encomendou o assassinato porque via em Crespo uma ameaça aos seus negócios. Na época do crime, os contraventores estavam analisando como entrar no mercado das apostas online, o mesmo segmento que despertava interesse do advogado. Crespo procurava financiadores para um empreendimento de grande porte e havia manifestado a intenção de abrir um sporting bar com máquinas semelhantes a caça-níqueis, um universo historicamente dominado pelos bicheiros. A disputa por esse mercado emergente teria sido o móvel do crime.
A forma como o assassinato foi executado reforça essa leitura. A denúncia do Ministério Público afirma que a escolha do local, do horário e do método não foi aleatória. Os investigadores apontam que havia intenção deliberada de conferir ao crime um caráter ostensivo e intimidatório, uma mensagem de poder dirigida a potenciais concorrentes ou a qualquer um que pudesse contrariar os interesses econômicos e criminosos de Adilsinho. Um dos denunciados teria feito vigilância de Crespo nos dias anteriores, identificando horários e locais favoráveis para a execução. Outros dois são acusados de fornecer material e monitorar a vítima até o momento do disparo, acompanhando tudo do carro usado pelo atirador.
Adilsinho já estava preso quando a denúncia foi apresentada. Ele havia sido capturado em fevereiro de 2026 em Cabo Frio, na região dos Lagos, com pelo menos dois mandados de prisão em aberto — um relacionado a contrabando de cigarro falsificado e outro pela suspeita de ser mandante do homicídio de Fabrício Alves Martins de Oliveira, ocorrido em outubro de 2022. A polícia também o atribui outros assassinatos. Um policial militar envolvido no caso foi preso na segunda-feira anterior à denúncia, enquanto um quarto acusado permanece foragido. O Tribunal de Justiça determinou que Adilsinho cumpra pena em presídio de segurança máxima pelo prazo de três anos, e suspendeu as funções públicas e o direito ao porte de arma do policial militar denunciado.
A defesa de Adilsinho nega categoricamente o envolvimento. Em nota, seus advogados argumentam que a acusação carece de substrato fático e que há um padrão de vincular Adilson a crimes sem apresentar provas concretas de sua participação. Esse argumento não é novo no caso. Em março de 2026, três outros réus já haviam sido condenados a 30 anos de prisão pelo mesmo homicídio. Cezar Daniel Mondêgo de Souza foi apontado como responsável pelo monitoramento de Crespo, Eduardo Sobreira de Moraes como motorista durante a vigilância, e o policial militar Leandro Machado da Silva como fornecedor dos carros usados no crime. O Conselho de Sentença acolheu a denúncia por homicídio triplamente qualificado — por motivo torpe, com emboscada e recurso que dificultou a defesa da vítima.
As defesas dos condenados manifestaram inconformidade com o resultado. O advogado de Eduardo Sobreira argumentou que o conjunto probatório não evidencia ciência, vontade ou qualquer forma de participação do defendido no crime. O advogado de Leandro Machado foi mais contundente, afirmando que diante da ausência total de provas colocando o réu no local do crime ou comprovando sua hierarquia no evento, prevaleceu o estigma sobre o fato — um julgamento sobre quem o réu é, não sobre o que ele fez. Ambas as defesas anunciaram que recorrerão da sentença. Com Adilsinho agora denunciado formalmente e a máquina judicial em movimento, o caso segue seu curso, dividido entre condenações já proferidas e acusações ainda em disputa.
Citations marquantes
A acusação carece de substrato fático e revela um padrão ao novamente vincular Adilson a crimes sem apresentar provas concretas de sua participação— Defesa de Adilsinho
É alarmante que, diante da ausência total de provas que coloquem Leandro no local do crime, tenha prevalecido o estigma em vez do fato— Advogado Diogo Macruz, defensor de Leandro Machado da Silva