Movimento body positive perde força com políticas de diversidade enfraquecidas e saída de ativistas

Me cobram para seguir uma cartilha que elas próprias criaram
Beta Boechat explica como foi criticada por seguidores que interpretaram mal a proposta original do body positive.
Mark

Por que você acha que as fundadoras do movimento decidiram emagrecer justamente quando ele estava em seu auge?

Mimi

Não era uma decisão feita contra o movimento. Beta chegou a 220 quilos e perdeu mobilidade total. Para ela, era uma questão de saúde e qualidade de vida. Mas a militância não viu assim.

Mark

E a militância esperava o quê? Que elas permanecessem gordas para sempre?

Mimi

Exatamente. Havia uma interpretação de que o body positive significava que você deveria continuar gordo, que emagrecer era uma traição. Mas o movimento nunca foi sobre isso. Era sobre respeito e liberdade de escolha.

Mark

Então a culpa é dos seguidores que entenderam errado?

Mimi

Parte é. Mas também havia um movimento dentro do body positive que era muito radical, muito disruptivo. Mulheres gordas andando de biquíni em passeatas, fotos provocativas. Era importante para dar visibilidade, mas criou uma expectativa de que o movimento era sobre celebrar a obesidade.

Mark

E agora, com as canetas emagrecedoras, o que muda?

Mimi

Muda tudo e nada. Muda porque agora emagrecer é mais fácil, mais seguro. Nada muda porque o respeito aos corpos gordos continua sendo necessário. As pessoas ainda enfrentam estigma.

Mark

As fundadoras se sentem traídoras?

Mimi

Alexandra disse que se sentiu culpada por um tempo, mas depois percebeu que não fazia mais sentido para sua vida. Ela estava exausta de ser a militante perfeita que não podia errar. Às vezes, você precisa sair para respirar.

Mark

E o movimento continua vivo?

Mimi

Continua, mas diferente. Menos revoltado, mais sobre autoestima. Está no TikTok com outro nome. Não desapareceu, apenas se transformou.

  • 97,1% dos looks em desfiles de 2024 eram tamanho padrão, versus 4,4% de inclusão em 2023
  • Beta Boechat atingiu 220 quilos e perdeu mobilidade total antes de fazer cirurgia bariátrica
  • Influenciadoras como Beta Boechat e Alexandra Gurgel abandonaram o tema após críticas de seguidores

Influenciadoras que fundaram o movimento no Brasil, como Beta Boechat e Alexandra Gurgel, decidiram emagrecer e enfrentaram críticas de seguidores que interpretaram mal a proposta original. Passarelas e marcas reduziram drasticamente o apoio à diversidade corporal: 97,1% dos looks em desfiles de 2024 eram tamanho padrão, versus 4,4% de inclusão em 2023.

O movimento body positive, que desafiou padrões de beleza há uma década, perdeu espaço devido ao enfraquecimento de políticas de diversidade, propagação de canetas emagrecedoras e saída de ativistas que enfrentaram críticas ao emagrecerem.

Uma década atrás, enquanto influenciadoras exibiam dietas restritivas e corpos cada vez mais magros, um movimento começou a ganhar força nas redes sociais em direção oposta: o body positive, a ideia de que todos os corpos merecem aceitação e respeito, independentemente do tamanho. Entre 2019 e 2022, a iniciativa atingiu seu auge no Brasil e no mundo. Marcas viram oportunidade de lucro em campanhas voltadas para diferentes formas físicas. As passarelas abriram espaço para corpos fora do padrão. O movimento tinha voz, tinha corpos diversos, tinha presença.

Mas nos últimos anos, algo mudou. As marcas começaram a retirar apoio de campanhas sobre diversidade. As passarelas voltaram a privilegiar corpos padrão. E algo mais perturbador aconteceu: as próprias figuras que fundaram e promoveram o movimento decidiram emagrecer. Beta Boechat, uma das fundadoras do Corpo Livre no Brasil, submeteu-se a cirurgia bariátrica após atingir 220 quilos e perder mobilidade. Alexandra Gurgel, co-fundadora do mesmo movimento, também entrou em processo de emagrecimento. Ambas enfrentaram críticas ferozes de antigos seguidores que as acusaram de trair a causa. Nos Estados Unidos, a influenciadora Thubten Donme, um dos rostos mais conhecidos do body positive, foi alvo de ataques quando começou a emagrecer em 2023.

A reação foi tão intensa que as duas brasileiras praticamente abandonaram o tema. Beta agora produz conteúdo de humor e se tornou apresentadora de um programa de televisão. Alexandra criou vídeos sobre relacionamentos. Ambas descrevem o período como exaustivo, marcado por uma pressão para serem militantes perfeitas que nunca erravam. "Me cobram para seguir uma cartilha que elas próprias criaram para tentar me enquadrar", disse Beta, explicando que nunca havia dito que as pessoas não poderiam emagrecer. O movimento, segundo ela, foi interpretado de forma radical por muitos seguidores: como um incentivo obrigatório à obesidade.

Os números revelam o enfraquecimento concreto. Um relatório da Vogue Business analisou os principais desfiles de primavera e verão de 2024 e encontrou que 97,1% dos looks eram tamanho padrão (34 a 40 no Brasil). Apenas 2% eram tamanho médio e 0,9% plus size. Em 2023, havia mais inclusão: cerca de 4,4% dos looks eram médios ou grandes. A Vogue atribui essa queda a uma mudança cultural marcada pelo fortalecimento do conservadorismo nos últimos dois anos. Dani Rudz, influenciadora que trabalha com consultoria sobre diversidade, aponta que as políticas de Donald Trump enfraqueceram ainda mais o discurso. "Assim que o Trump assumiu, ele trabalhou fortemente para retirar verbas e apoio aos posicionamentos políticos com relação à diversidade nas empresas", afirma. Isso afetou empresas internacionais com sede no Brasil, que deixaram de patrocinar ações de inclusão.

O contexto pós-pandemia também contribuiu. As pessoas passaram a buscar uma vida mais saudável, e a obesidade voltou a ser associada a práticas ruins como sedentarismo. Dario Caldas, pesquisador de tendências de consumo, explica que o body positive esbarrou em uma questão fundamental: a saúde. "O problema do body positive é que ele esbarra na questão da saúde, da obesidade, então é aí que as coisas se chocam", diz. Nesse cenário, surgiu um novo fator: as canetas emagrecedoras, medicamentos que facilitam a perda de peso. Para Bruno Gualano, presidente do Centro de Medicina do Estilo de Vida da USP, esses medicamentos devem ser vistos como aliados da liberdade corporal. "Agora, as pessoas com dificuldades para emagrecer vão ter a possibilidade de chegar a um corpo mais normalizado pela sociedade", afirma. A endocrinologista Maria Edna de Melo concorda que ativistas do body positive têm direito de emagrecer. "Tem uma hora em que a doença pode pesar mais. E essas pessoas, como todo mundo, devem ter as suas decisões respeitadas."

Mas o movimento não desapareceu completamente. Alexandra Gurgel insiste que nada acabou, apenas mudou de forma. "Se você olhar no TikTok, por exemplo, ele tem outro nome. Virou algo sobre a autoestima, sobre você se sentir bem consigo mesmo. É uma coisa mais liberal", diz. Dani Rudz continua como referência no body positive mesmo após emagrecer, publicando dicas sobre o mercado plus size. Ela defende que o movimento segue relevante porque as pessoas não são iguais e precisam lutar pelo respeito. "O body positive continua, ele sempre existiu e precisa existir, porque nós não somos iguais, somos diferentes e lutamos pelo respeito", afirma. O que mudou não foi a necessidade do movimento, mas sua forma de expressão: menos radical, menos revoltado, mais disperso nas redes sob diferentes nomes e formatos.

Eu de fato achava que eu estava fazendo alguma diferença e eu sinto que eu fiz legal. Mas chegou uma hora em que isso não fazia mais sentido pra minha vida
— Alexandra Gurgel, co-fundadora do Corpo Livre
O body positive continua, ele sempre existiu e precisa existir, porque nós não somos iguais, somos diferentes e lutamos pelo respeito
— Dani Rudz, influenciadora e consultora de diversidade
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