Move Brasil libera apenas 11% dos R$ 30 bi previstos; governo admite falhas

Motoristas de aplicativos e táxis enfrentam frustração com negativas de crédito dos bancos, rebaixamento de pontuação após múltiplas tentativas e expectativas não atendidas pelo programa.
Estar habilitado não significava ter aprovação no sistema financeiro
O governo admite que falhou em comunicar como o programa funcionaria aos motoristas de aplicativo.
Mark

Por que um programa com R$ 30 bilhões disponíveis conseguiu liberar apenas 11% em dois meses?

Mimi

A resposta está em três lugares diferentes. O governo demorou duas semanas para ativar o fundo que garantiria os empréstimos aos bancos. Depois, os bancos privados simplesmente não entraram no jogo porque as taxas de juros — 12,6% ao ano — eram muito menores que o mercado oferecia. E por fim, o governo não explicou bem ao público como o programa funcionava, então muita gente se habilitou achando que teria crédito automático.

Mark

Os bancos têm razão em ser cautelosos com motoristas de aplicativo?

Mimi

Talvez. Mas o que aconteceu foi que eles precisaram aprender a avaliar esse público de forma diferente. Um motorista que aluga carro tem despesas que não desaparecem quando ele financia um veículo — elas apenas mudam de forma. Os bancos não estavam calculando isso direito no começo.

Mark

E as mulheres? Por que apenas 5% dos beneficiários são mulheres?

Mimi

Elas tiveram acesso a taxas mais baixas — 11,5% contra 12,6% para homens. Mas isso não as trouxe em volume. Pode ser que haja menos mulheres dirigindo para aplicativos, ou que enfrentem barreiras de crédito ainda maiores que os homens.

Mark

O que os motoristas esperavam e não conseguiram?

Mimi

Muitos acreditavam que estar habilitado no programa significava ter crédito aprovado. Quando os bancos negavam, era uma decepção dupla — primeiro com o banco, depois com o governo que tinha prometido. E alguns ainda tiveram suas pontuações de crédito rebaixadas por tentar em vários bancos.

Mark

O programa vai continuar depois de 15 de setembro?

Mimi

Ninguém sabe. O governo não respondeu quando perguntado sobre prorrogação. Com R$ 26 bilhões ainda na mesa e apenas semanas restantes, parece improvável que tudo seja liberado.

  • BNDES liberou R$ 3,44 bilhões de R$ 30 bilhões disponíveis (11,3%)
  • 33,4 mil motoristas receberam crédito: 27 mil de aplicativo e 6 mil táxis
  • Mulheres representam apenas 5% dos beneficiários
  • Taxas do programa: 12,6% ao ano (homens) e 11,5% (mulheres) contra 28% do mercado
  • Programa vence em 15 de setembro; volume semanal cresceu de R$ 300 mi para R$ 700 mi

Apenas 33,4 mil motoristas receberam crédito até agora, com mulheres representando apenas 5% dos beneficiários e taxas de juros mais baixas. Bancos privados resistem ao programa por considerarem as taxas de juros (12,6% ao ano) abaixo do mercado (28%), apesar da garantia de 80% do FGI.

O programa Move Brasil do governo Lula liberou apenas R$ 3,44 bilhões (11,3%) dos R$ 30 bilhões disponíveis para financiar veículos de motoristas de apps e táxis. O governo admite falhas na comunicação e atraso na ativação do fundo garantidor.

Em meados de junho, o governo Lula lançou o Move Brasil com uma promessa ambiciosa: colocar R$ 30 bilhões nas mãos de motoristas de aplicativos e táxis para que financiassem veículos novos a juros reduzidos. Dois meses depois, com o programa vencendo em 15 de setembro, o BNDES havia liberado apenas R$ 3,44 bilhões — pouco mais de 11% do total disponível. Os números revelam não apenas um programa aquém das expectativas, mas também as fraturas entre o governo, o setor bancário e os trabalhadores que deveriam ser beneficiados.

Até agora, 33,4 mil motoristas receberam crédito através do programa. Destes, 27 mil eram motoristas de aplicativo e 6 mil eram taxistas. As mulheres representavam apenas 5% dos beneficiários, embora tivessem acesso a taxas de juros mais baixas — 11,5% ao ano contra 12,6% para os homens. O ritmo de liberações, porém, acelerou nas últimas semanas: enquanto as primeiras semanas do programa movimentavam em média R$ 300 milhões semanais, o volume havia crescido para R$ 700 milhões por semana no momento da reportagem. Ainda assim, a trajetória inicial deixou cicatrizes.

O governo culpa os bancos privados pela lentidão. Segundo Guilherme Boulos, ministro da Secretaria Geral da Presidência, as instituições financeiras têm sido excessivamente restritivas ao avaliar o risco de crédito dos motoristas de aplicativo. Entre os três grandes bancos privados, apenas o Santander aderiu ao programa, e com números aquém do esperado. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica — instituições públicas sem destaque particular no financiamento automotivo — tornaram-se os principais operadores.

Mas o governo também reconhece suas próprias falhas. O fundo garantidor de crédito, que deveria proteger os bancos em caso de inadimplência, entrou em operação apenas duas semanas após o lançamento do programa. Essa demora inicial gerou frustração entre trabalhadores que se viam habilitados mas não conseguiam aprovação. Além disso, a comunicação com o público-alvo foi deficiente: muitos motoristas acreditavam que estar habilitado significava ter crédito garantido, independentemente de sua situação financeira. Uallace Moreira Lima, secretário de Desenvolvimento Industrial do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, admitiu que faltou diálogo melhor com os trabalhadores sobre como o sistema funcionaria.

Os bancos privados resistem ao programa principalmente por causa das taxas de juros. O Move Brasil fixou em 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres — bem abaixo dos 28% praticados no mercado para financiamento automotivo. Como compensação, o governo acionou o Fundo Garantidor para Investimentos, que protege 80% do valor de cada empréstimo, com limite de até 30% da carteira disponível para o programa em cada banco. Mesmo assim, a proteção parcial não foi suficiente para atrair os grandes bancos privados em volume significativo.

Nas concessionárias, a realidade foi de frustração. Uma gerente de marketing em Brasília relatou que em um determinado dia uma vendedora aprovou apenas 12 de 60 propostas de crédito. Motoristas que acreditavam que receberiam financiamento mesmo com restrições no nome saíram decepcionados. Alguns relataram que suas pontuações de crédito caíram após múltiplas tentativas de aprovação em diferentes bancos — um efeito colateral que agravou sua situação financeira.

Maria Fernanda Coelho, diretora de crédito digital do BNDES, oferece uma explicação para a resistência inicial dos bancos: uma curva de aprendizagem. As instituições financeiras precisaram adaptar seus modelos de cálculo de renda disponível para a realidade dos motoristas de aplicativo. Um profissional que alugava um veículo tinha uma despesa de aluguel que se transformaria em prestação de financiamento — um detalhe que os sistemas de análise de risco não contemplavam inicialmente. Os bancos também começaram a considerar a redução de gastos com combustível para quem financiasse um carro elétrico. Conforme aprenderam a trabalhar com esse público, o volume de aprovações cresceu.

As marcas mais financiadas foram BYD, Fiat e Chevrolet. O programa segue até 15 de setembro, mas nenhum órgão do governo — BNDES, Ministério do Desenvolvimento ou Secretaria-Geral da Presidência — confirmou se será prorrogado. Com R$ 26,56 bilhões ainda disponíveis e pouco mais de três semanas restantes, a questão sobre o futuro do Move Brasil permanece em aberto.

Os bancos têm sido excessivamente restritivos na concessão de crédito e deveriam olhar com mais respeito para esses trabalhadores
— Guilherme Boulos, ministro da Secretaria Geral da Presidência
Faltou a gente dialogar melhor com o trabalhador, explicar que estar habilitado não significava dizer que teria aprovação no sistema financeiro
— Uallace Moreira Lima, secretário de Desenvolvimento Industrial do Mdic
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