Motociclista minhoto está a menos de 2 mil km de Vladivostok, onde apanhará ferry para a Coreia do Sul após quatro meses de viagem desde Braga. Visitou o Lago Baikal, maior lago de água doce do mundo, e elogia a hospitalidade do povo russo, contrariando polémicas em Portugal sobre viagens ao país.
Motard de Braga a dois mil km de Vladivostok encontra deputado do PS na Sibéria
O povo russo é hospitaleiro e afável, e não entendo porque é que isto causa polémica
Como é que um homem deixa tudo para trás e monta uma mota rumo ao desconhecido?
Não é deixar tudo para trás — é reorganizar as prioridades. Vendi a empresa, aluguel a quinta. A mota é de 1999, comprei-a há cinco anos porque me apaixonei por ela. Depois percebi que podia usá-la para isto.
Vinte e cinco mil quilómetros em quatro meses. Isso é velocidade, ou é paciência?
É paciência. As estradas siberianas não permitem pressa. Oitenta quilómetros por hora é a média realista. Mas não estou a correr — estou a ver.
Encontrou um deputado português na Sibéria. Que coincidência estranha.
Não é tão estranha assim. Há portugueses em todo o lado. E ele estava a fazer o que eu faço — a conhecer o país. Partilhamos a mesma opinião sobre a hospitalidade russa, e isso causou polémica em Portugal. Não entendo porquê.
O lago Baikal é um lugar que a maioria das pessoas nunca verá. Como é estar lá?
É estar diante de algo que não cabe na cabeça. Seiscentos e trinta e seis quilómetros de comprimento. Vinte e cinco milhões de anos. Mil seiscentos e oitenta metros de profundidade. E a maior parte das pessoas não sabe que existe.
Dorme em alojamentos para motociclistas. Cozinha arroz de tomate. Come por cinco euros. Isto é viagem ou é sobrevivência?
É ambas as coisas. Mas a sobrevivência é fácil quando as pessoas são generosas. Recebi convites para jantar em casas de desconhecidos. Favores no mecânico. Presença em festas. A hospitalidade torna tudo possível.
E depois? Quando chegar a Vladivostok?
Ferry para a Coreia do Sul. Depois China, Japão, Malásia. A moto vai num barco. E depois, se tudo correr bem, América do Sul em 2027. Argentina, Brasil, norte do continente. Há cidades onde os portugueses estiveram no século XVI. Quero vê-las.
The Pulse
- Motociclista minhoto a menos de 2 mil km de Vladivostok após 4 meses de viagem desde Braga
- Percorreu mais de 25 mil quilómetros numa Harley Davidson de 1999
- Lago Baikal: 636 km de comprimento, 25 milhões de anos, maior lago de água doce do mundo
- Encontrou deputado socialista José Carlos Barbosa durante travessia russa
- Planeia continuar para China, Japão, Coreia do Sul, Malásia e América do Sul em 2027
Motociclista minhoto está a menos de 2 mil km de Vladivostok, onde apanhará ferry para a Coreia do Sul após quatro meses de viagem desde Braga. Visitou o Lago Baikal, maior lago de água doce do mundo, e elogia a hospitalidade do povo russo, contrariando polémicas em Portugal sobre viagens ao país.
Leonel Ferraz, motociclista de Braga, percorre a Sibéria numa Harley Davidson há quatro meses, tendo já coberto 25 mil quilómetros. Encontrou o deputado socialista José Carlos Barbosa durante a travessia russa.
Leonel Ferraz está a menos de dois mil quilómetros de Vladivostok. A sua Harley Davidson, uma moto de 1999 que comprou há cinco anos e que chama carinhosamente de «papa-léguas», segue pela Sibéria russa com o mesmo ritmo constante que a trouxe desde Braga há quatro meses. Já percorreu mais de vinte e cinco mil quilómetros, e faltam apenas cinco dias de viagem até à capital do extremo oriente russo, onde apanhará um ferry boat para a Coreia do Sul — não existe ligação marítima direta para o Japão, por isso o desvio é necessário. As estradas siberianas, alternando entre o aceitável e o profundamente esburacado, mantêm a velocidade média em torno dos oitenta quilómetros por hora.
O viajante é um homem que trocou a vida anterior pela estrada. Antigo taxista em Braga e agricultor em Vila Verde, vendeu a empresa e alugou a pequena quinta para conhecer o mundo. Em 2025 percorreu quase toda a Europa; agora está na Ásia, e já planeia a América do Sul para 2027. A mota tem sido surpreendentemente resiliente — um rolamento gripou, alguns parafusos partiram, pouco mais. A gasolina custa entre setenta e cinco e noventa cêntimos o litro, e apesar de ocasionais dificuldades em encontrar peças, Ferraz tem conseguido manter-se em movimento.
Na Sibéria, encontrou um motociclista francês com quem tem viajado nos últimos dias, ambos a caminho de Vladivostok sob temperaturas mais baixas e chuva persistente. Fizeram um desvio até ao lago Baikal, um corpo de água que impressiona pela escala e pela raridade. Com seiscentos e trinta e seis quilómetros de comprimento e oitenta de largura, é o maior lago de água doce da Ásia, o maior em volume de água doce do planeta, o mais antigo com vinte e cinco milhões de anos, e o mais profundo da Terra com mil seiscentos e oitenta metros de profundidade máxima. Cerca de trezentos rios desaguam nele. É um habitat extraordinário — mil e oitenta e cinco espécies de plantas, mil quinhentas e cinquenta espécies e variedades de animais, com mais de sessenta por cento deles endémicos. Das cinquenta e duas espécies de peixes, vinte e sete não existem em nenhum outro lugar. A UNESCO inscreveu-o no Património Mundial. Ferraz nota que o lago tem imensas potencialidades turísticas ainda pouco exploradas.
Numa vila junto ao lago, onde passa o comboio transiberiano vindo de Moscovo — que continua até Pequim, na China — Ferraz encontrou o deputado socialista português José Carlos Barbosa, que também atravessa a Rússia. Os dois partilham uma observação que se tornou controversa em Portugal: o povo russo é hospitaleiro e afável. Ferraz não compreende porque é que dizer isto causa tanta polémica em casa. A sua experiência confirma a hospitalidade — convites para jantar em casas de desconhecidos, favores no mecânico e no barbeiro, presenças em convívios e festas, pedidos para selfies. É uma afabilidade que se traduz em gestos concretos.
A logística da viagem é simples e económica. Dorme em espaços destinados a motociclistas — Biker Friendly Accommodations espalhadas por todo o mundo — onde o pagamento é grátis ou quase. Por vezes cozinha ele próprio, arroz de tomate ou rojões. Nos restaurantes come-se bem por quatro ou cinco euros. Antes de chegar à Rússia, depois de percorrer os países de Leste europeu, veraneou no Mediterrâneo turco, passou pela Arménia e pela Geórgia — países que adorou. Perdeu a oportunidade de visitar o Cazaquistão e a Ásia Central por razões burocráticas.
O plano para os próximos meses é ambicioso. Quer atingir a China, incluindo Macau, o Japão, a Coreia do Sul e a Malásia — nestes três últimos casos transportando a moto num barco. Depois, se as forças e o dinheiro permitirem, pensa colocar a Harley num navio até ao sul da Argentina e, daí, viajar para norte pelo continente, passando pelo Brasil. Na Ásia, espera visitar cidades onde os portugueses deixaram marca a partir do século XVI. Quando terminar esta volta ao mundo, Ferraz diz que regressará à Rússia, mas numa viagem de comboio. Gosta muito do país e quer voltar a ver os amigos que aqui fez.
Notable Quotes
Penso demorar mais cinco dias até lá, porque as estradas alternam entre o bom e o esburacado e isso baixa a velocidade média, que anda nos 80— Leonel Ferraz
Quando terminar esta, vou regressar à Rússia, mas numa viagem de comboio. Gosto muito do país e quero voltar a ver os amigos que aqui fiz— Leonel Ferraz