'Morte e Vida Madalena' é declaração de amor e revolta ao cinema independente

Uma declaração de amor ao cinema, um amor misturado à revolta
Como Guto Parente retrata a relação entre a paixão e a frustração de quem faz cinema independente no Brasil.
Mark

O filme é documentário ou ficção? Porque a sinopse fala de uma produção de ficção científica, mas também diz que é um longa de Guto Parente.

Mimi

É documentário. Guto Parente acompanha a produção real dessa ficção científica de baixo orçamento. Então você está vendo o making of, digamos assim, mas é um documentário completo, não um extra.

Luke

Mas aí fica a pergunta: quanto é documentação pura e quanto é encenação? Se as pessoas sabem que estão sendo filmadas, elas não mudam o comportamento?

Mimi

Claro que mudam. Mas o filme não esconde isso. Parente não está fingindo que é cinema verdade. Ele está mostrando exatamente isso — como as pessoas se comportam quando sabem que estão sendo observadas, como lidam com a pressão.

Mark

E a Madalena, a produtora — ela é um personagem real ou foi criada para o filme?

Mimi

É real. Noá Bonoba é a produtora de verdade. Ela está grávida de verdade. O pai dela morreu de verdade. Tudo isso é documentado.

Luke

Mas aí o filme se torna meio sobre a atuação dela, não? Porque ela sabe que está sendo filmada, então está performando ser uma produtora em crise.

Mimi

Sim, mas isso é parte do ponto. O filme não separa a vida da atuação. Madalena está vivendo isso e sendo filmada enquanto vive. A performance é a vida.

Mark

E o diretor que desaparece — ele desapareceu de verdade?

Mimi

Sim. No meio das filmagens, o diretor, que era ex-marido de Madalena, simplesmente não apareceu mais.

Luke

E ninguém sabe por quê? O filme explica?

Mimi

Não. O filme não oferece explicação. Apenas mostra a equipe tendo que lidar com a ausência dele.

Mark

Isso parece muito caótico. Como conseguiram terminar o filme?

Mimi

Conseguiram, mas foi difícil. O dinheiro da lei de incentivo atrasou, a equipe quase fez greve. Mas terminaram. E agora o documentário sobre tudo isso está em cartaz na França.

  • O dinheiro da lei de incentivo não chegou, o diretor desapareceu e as filmagens precisam começar — a produção está suspensa sobre um abismo financeiro e humano.
  • A equipe ameaça greve, a chuva sabota os equipamentos e Madalena, grávida, gerencia o caos com frases que misturam desespero e humor negro: 'Só se eu vender meu filho'.
  • Parente constrói um retrato coletivo e político, com elenco majoritariamente queer e a atuação central de Noá Bonoba, atriz trans que encarna Madalena com domínio vocal e dramático impressionantes.
  • Após estrear no Festival de Documentário de Marselha e circular nos cinemas franceses, o filme se consolida como um documento sobre a precariedade e a resiliência do cinema independente no Brasil.
  • A equipe cearense, unida pela crença 'absurda' no projeto, transforma a limitação em laço — e o filme celebra e questiona essa crença ao mesmo tempo.

No litoral do Ceará, uma produtora grávida tenta honrar o legado cinematográfico do pai falecido enquanto enfrenta o colapso silencioso de um set sem dinheiro, sem diretor e sob a chuva. O documentário de Guto Parente, 'Morte e Vida Madalena', transforma esse caos em testemunho: o cinema independente brasileiro sobrevive não pela abundância de recursos, mas pela teimosia coletiva de quem acredita que a arte vale o sacrifício. É um retrato que oscila entre a homenagem e o lamento, entre o amor e a revolta.

Madalena está grávida e é produtora de cinema. Seu pai morreu recentemente e deixou para ela um projeto de ficção científica de baixo orçamento. As filmagens precisam começar antes do parto. Esse encontro entre morte e nascimento não é coincidência — é o próprio coração do documentário de Guto Parente, filmado no litoral cearense da pré-produção até o último plano gravado.

'Morte e Vida Madalena' estreou no Festival de Documentário de Marselha e já circula nos cinemas franceses. Parente e parte da equipe vieram do Alumbramento, coletivo de Fortaleza ativo nos anos 2000 e 2010. Mas o filme vai além da metalinguagem: é um retrato desesperador das incertezas do cinema independente brasileiro. No primeiro dia, a chuva atrapalha o travelling na praia. Depois, o diretor — ex-marido de Madalena — desaparece. O dinheiro da lei de incentivo não chegou. Os problemas se multiplicam.

Parente alterna com precisão espera e ação, humor e drama. A fotografia de Ivo Lopes Araújo oscila entre o lírico e o cômico. O filme tem também um lado pedagógico: acompanha o trabalho de cada membro da equipe técnica, do responsável pelo som que ameaça greve à assistente de direção que se recusa a substituir o diretor sumido. Os diálogos em que Madalena tenta gerenciar o caos sem dinheiro são memoráveis.

A escolha do elenco é política e estética. Noá Bonoba, atriz trans, interpreta Madalena — uma mulher grávida — sem que a identidade queer do elenco seja tematizada como tema. Sua atuação condensa a força do filme: o domínio da voz, que vai do grave gutural à ternura suave, e o controle preciso do humor nos momentos mais dramáticos.

O filme evoca sets desastrosos que fizeram história — de Clouzot em 'Inferno' a Herzog em 'Fitzcarraldo' — e, nessa comparação, evidencia a precariedade específica do fazer cinema no Brasil. Mas evidencia também a união da equipe cearense, que se tornou família em meio às limitações. Estão todos unidos por uma crença absurda no cinema — e é exatamente essa crença que 'Morte e Vida Madalena' celebra e questiona ao mesmo tempo.

Madalena está grávida. Ela é produtora de cinema, e seu pai, que morreu há pouco, deixou para ela um projeto de ficção científica de baixo orçamento. As filmagens começarão em poucas semanas — antes do parto. Esse encontro entre a morte e o nascimento não é acaso: é o próprio título do filme de Guto Parente, que acompanha o caos de um set no litoral cearense, da pré-produção até o último plano gravado.

"Morte e Vida Madalena" estreou no Festival de Documentário de Marselha e já circula nos cinemas franceses. É também uma homenagem ao cinema como trabalho coletivo. Parente e outros membros da equipe fizeram parte do Alumbramento, um coletivo de Fortaleza que produziu filmes ao longo dos anos 2000 e 2010. O que o filme oferece, porém, vai além da metalinguagem: é um retrato desesperador das incertezas que cercam quem faz cinema independente no Brasil.

No primeiro dia de filmagens, a chuva atrapalha a colocação dos trilhos para um travelling na praia. Parece que a meteorologia será o grande problema. Não é. O diretor, ex-marido de Madalena, desaparece. O dinheiro da produção, obtido via lei de incentivo, ainda não chegou. A equipe precisa começar a filmar, mas não tem recursos. Os problemas se multiplicam, e a tensão cresce.

Parente maneja com precisão a alternância entre espera e ação, entre humor e drama. O filme não é sombrio nem cínico — é uma declaração de amor ao cinema, um amor misturado à revolta. A fotografia de Ivo Lopes Araújo oscila entre o lirismo e o cômico, entre planos abertos que capturam a beleza ambiciosa do cenário e closes que expõem os problemas práticos mais banais. Há um lado pedagógico na obra: o filme se detém sobre o trabalho de cada membro da equipe técnica. A assistente de direção se recusa a substituir o diretor desaparecido. O responsável pelo som consegue regular o microfone para ouvir as conversas da produtora e ameaça fazer greve se não for pago. Os diálogos em que Madalena tenta gerenciar o caos do set sem dinheiro são impagáveis. "Só se eu vender meu filho", ela chega a dizer, num tom que mistura chiste, desespero e raiva.

A escolha do elenco é política e estética. Parente compôs o grupo com pessoas queer, sem que isso fosse tematizado como tema. Noá Bonoba, uma atriz trans, interpreta Madalena — uma mulher grávida. A atuação de Bonoba condensa a força do filme. Seu destempero nos momentos mais dramáticos do set gera cenas riquíssimas, em que ela impressiona pelo domínio da voz, que vai do grave gutural à ternura suave, e pelo controle do tempo do humor.

"Morte e Vida Madalena" evoca sets desastrosos que fizeram história. Em "Inferno", filmado no início dos anos 1960 com orçamento milionário, Henri-Georges Clouzot sucumbiu diante de um verão de temperaturas altíssimas no interior da França, da desistência do ator principal e de um infarto. "Fitzcarraldo" levou anos para ser realizado na Amazônia, impactado pelas chuvas e pelo delírio de Werner Herzog, que arrastou um navio de 300 toneladas pela floresta. O recém-lançado "Dez por Cento", sequência da série francesa, também se volta para os perrengues de um set na França contemporânea.

Comparar esses desastres cinematográficos é elucidativo. Nesse contexto, "Morte e Vida Madalena" evidencia a precariedade do fazer cinema no Brasil, mas também a união da equipe cearense, que se tornou família em meio às limitações de toda sorte. Estão todos unidos por uma crença absurda no cinema — e é justamente essa crença que o filme celebra e questiona ao mesmo tempo.

Só se eu vender meu filho
— Madalena, ao tentar gerenciar o caos do set sem dinheiro
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