Morre Ugo di Pace, arquiteto ítalo-brasileiro que marcou design de luxo em SP

A obra de arte como protagonista de todos os espaços
A filosofia central de Di Pace sobre o que diferenciava sua abordagem da decoração convencional.
Mark

O que fazia Ugo di Pace diferente de outros decoradores de sua época?

Mimi

Ele recusava a própria palavra "decorador" para descrever seu trabalho. Para Di Pace, decoração era o que a maioria fazia—arranjar móveis e cortinas. O que ele fazia era arquitetura de interiores, onde a obra de arte não era um acessório, mas o ponto de partida de tudo.

Mark

Como ele conseguiu transformar uma rua inteira em polo de design?

Mimi

Começou sozinho, abrindo o primeiro escritório de arquitetura na Gabriel Monteiro da Silva no final dos anos 1960, quando a rua era ainda residencial. Seu sucesso foi tão visível—placas de obras espalhadas por toda parte—que outros profissionais começaram a se instalar lá. Ele não transformou a rua; ele foi o primeiro a reconhecer seu potencial.

Mark

A coleção de 2 mil peças no Studio 689 era apenas um negócio ou algo mais pessoal?

Mimi

Era ambos. Mas principalmente uma extensão de sua filosofia. Cada peça—desde fragmentos renascentistas até obras contemporâneas—tinha uma história e um propósito. Ele reorganizava constantemente porque via a coleção como um projeto vivo, não como um acervo estático.

Mark

Por que ele mantinha sigilo sobre seus clientes brasileiros?

Mimi

Talvez fosse discrição, talvez proteção da privacidade deles. Mas com Spielberg e Fittipaldi ele era mais aberto. Pode ser que os clientes brasileiros de alto perfil preferissem não ser associados publicamente a um decorador, mesmo que fosse Ugo di Pace.

Mark

O que sua filosofia sobre arte e espaço significa para quem vem depois?

Mimi

Que um interior não é um conjunto de objetos bonitos, mas uma narrativa. Que a arquitetura e a arte devem conversar, não competir. E que o trabalho de um decorador—ou arquiteto de interiores—é criar o palco onde a vida acontece, não preencher vazio.

  • Morreu aos 99 anos na quinta-feira
  • Pioneiro na Alameda Gabriel Monteiro da Silva a partir do final dos anos 1960
  • Trabalhou para Steven Spielberg, Emerson Fittipaldi e famílias da alta sociedade
  • Coleção de cerca de 2 mil peças no Studio 689 (2018-2022)
  • Publicou cinco livros ao longo da vida

Di Pace foi pioneiro na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, transformando a rua no maior polo de design e decoração de luxo do Brasil a partir dos anos 1960. Conhecido por integrar arte e arquitetura, trabalhou para celebridades como Steven Spielberg e Emerson Fittipaldi, criando espaços onde a obra de arte era protagonista.

Faleceu Ugo di Pace, renomado arquiteto e designer de interiores ítalo-brasileiro que marcou a história do design de luxo em São Paulo e no mundo, aos 99 anos.

Ugo di Pace morreu na quinta-feira aos 99 anos. A notícia foi confirmada em suas redes sociais, sem divulgação da causa. Com sua morte, encerra-se uma trajetória de sete décadas que redefiniu o que significa decorar um espaço no Brasil e além.

Di Pace nasceu em 1927 em Nápoles, filho de engenheiros e construtores da elite napolitana. Chegou ao Brasil pela primeira vez em 1948, convidado por Rudi Crespi, e decidiu ficar. Em 1951, radicou-se em São Paulo e logo se associou ao arquiteto Germano Mariutti. O que começou como uma parceria evoluiu para uma carreira que o tornaria uma figura central na transformação do design paulistano.

Sua marca registrada era a recusa em separar a decoração da arquitetura. Enquanto a maioria dos profissionais via a decoração como a disposição de móveis e cortinas, Di Pace entendia o trabalho como a criação de uma arquitetura de interiores onde a obra de arte era o verdadeiro protagonista. Seus projetos privilegiavam espaços integrados, sem paredes desnecessárias, e incorporavam fragmentos de arquitetura antiga—pedaços de colunas renascentistas, por exemplo—que ganhavam novas funções dentro do desenho contemporâneo. "A maior parte das casas é mobiliada e não decorada", costumava dizer. Para ele, o importante era a obra de arte, não o sofá ou o babado da cortina.

Nos anos 1970, seu escritório chegou a trabalhar simultaneamente em 120 projetos, alguns deles no exterior. A Alameda Gabriel Monteiro da Silva, então uma rua residencial, tornou-se seu território. Ele foi pioneiro ao abrir ali o primeiro escritório de arquitetura no final dos anos 1960, e a rua que seus colegas chamavam de "Gabriel" evoluiu para o maior polo de design e decoração de luxo do Brasil. "Naquela época eu tinha placas do meu escritório espalhadas pelo Jardins inteiro, nas obras em andamento, com o endereço da Gabriel. E aí todo mundo começou a vir atrás de mim", contou em entrevista à Folha em 2017.

Sua obra mais célebre em São Paulo foi o projeto da boate The Gallery, nos Jardins, durante os anos 1980. O espaço funcionava como vitrine de raridades: uma galeria dedicada à exposição de peças de antiquários e obras de colecionadores amigos. Um desses amigos era Pietro Maria Bardi, um dos criadores do Masp, com quem Di Pace havia sido sócio em uma galeria de arte em Roma nos anos 1960. Internacionalmente, trabalhou em cidades como Nova York, Paris e Istambul, e entre seus clientes estavam o diretor Steven Spielberg—conhecimento que surgiu através de um vizinho em Nova York—e o piloto de Fórmula 1 Emerson Fittipaldi. Discreto quanto aos nomes de seus clientes brasileiros, Di Pace também decorou residências de empresários e famílias da alta sociedade.

Na mesma Alameda Gabriel Monteiro da Silva, abriu posteriormente o Studio 689, um espaço híbrido entre galeria e antiquário onde exibia sua coleção pessoal de cerca de 2 mil peças. Lá, periodicamente, reorganizava objetos que iam desde fragmentos de arquitetura renascentista até trabalhos de Victor Brecheret, esculturas de Tunga, peças dos irmãos Campana e obras de Frans Krajcberg. O Studio funcionou de 2018 a 2022, quando Di Pace decidiu leiloar parte da coleção.

Sua residência pessoal, uma casa neoclássica no Jardim Guedala na zona oeste de São Paulo, ocupava um terreno de 2 mil metros quadrados e refletia sua própria filosofia: móveis modernos conviviam com sofás vintage dos anos 1930 e antiguidades do século 16. Ao longo da vida, publicou cinco livros. O mais recente, "Ugo di Pace: Obra de Arte – Protagonista da Minha Vida e dos Meus Trabalhos", lançado no ano passado, sintetizava seu legado de sete décadas de trabalho onde a arte nunca foi decoração, mas sempre o centro da conversa.

A maior parte das casas é mobiliada e não decorada. Para mim, o mais importante é a arquitetura de interiores, com a obra de arte como protagonista de todos os espaços
— Ugo di Pace, em entrevista à Folha em 2017
Naquela época eu tinha placas do meu escritório espalhadas pelo Jardins inteiro, nas obras em andamento, com o endereço da Gabriel. E aí todo mundo começou a vir atrás de mim
— Ugo di Pace, descrevendo o sucesso de seu escritório nos anos 1970
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