Em 1º de outubro de 2026, o influenciador Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, faleceu aos 59 anos vítima da doença de Creutzfeldt-Jakob, uma das condições neurológicas mais raras e implacáveis conhecidas pela medicina. Causada não por um agente infeccioso convencional, mas por uma proteína que se transforma e corrompe outras ao seu redor, a doença lembra-nos de que a fronteira entre o que nos constitui e o que nos destrói pode ser invisível e interior. Sua morte, precedida por um apelo público comovente por acesso a tratamentos experimentais, ilumina tanto a crueldade de doenças sem
Morre Lito Sousa: entenda a doença de Creutzfeldt-Jakob, rara e sem cura
Eu tenho 0% de chance, mas se eu tiver 1% de chance em qualquer lugar, a gente quer esse 1%
Por que essa doença é tão rara? Parece que ninguém nunca ouve falar dela.
A ciência ainda não entende completamente. Não há fatores de risco conhecidos além do envelhecimento e alterações genéticas específicas. Na maioria dos casos — 85% — a causa é um mistério total.
Então quando dizem que é "rara", estão dizendo que não sabemos por que acontece, certo? Não é que seja rara porque temos uma razão clara e ela é incomum.
E como se diagnostica se é tão difícil de estudar?
Os médicos procuram um padrão muito específico: perda cognitiva rápida, alterações visuais estranhas e tremores musculares acontecendo ao mesmo tempo. A ressonância magnética ajuda em 90% dos casos.
Mas o teste mais confiável, o rt-QuIC, não está disponível no Brasil. Então quantos diagnósticos aqui são realmente confirmados versus apenas presumidos?
E não há cura, certo?
Não. O tratamento é só para aliviar sintomas — medicamentos para tremores, para insônia, para depressão. Cuidados paliativos.
Mas existem estudos em andamento testando medicações novas?
Sim, mas a doença progride tão rápido — geralmente seis meses — que é difícil testar qualquer coisa. E como é tão rara, há poucos pacientes para estudar.
Então Lito pediu para entrar em um desses estudos?
Sua família fez um apelo público urgente. Mas nenhum dos estudos que mencionaram estava aceitando novos participantes.
Então o apelo era basicamente um grito no vazio?
Não exatamente. Mila disse que entrou em contato direto com os pesquisadores. Mas não há registro de que conseguiram uma exceção.
Il Polso
- A doença avançou com velocidade brutal: em poucos meses, Lito perdeu progressivamente o controle motor enquanto sua mente permanecia lúcida — uma dissociação descrita pela própria família como particularmente cruel.
- A raridade da condição — um a dois casos por milhão de pessoas ao ano — significa que pesquisas avançam lentamente e que tratamentos experimentais mal chegam a estar disponíveis quando os pacientes mais precisam.
- Em desespero, a família gravou um vídeo em inglês pedindo ajuda diretamente a instituições como Harvard, Mayo Clinic e Ionis Pharmaceuticals, mas nenhum dos estudos clínicos citados estava aceitando novos participantes.
- Mila, esposa de Lito, resumiu a angústia de milhares de famílias em situações semelhantes: 'Eu tenho 0% de chance, mas se eu tiver 1% de chance em qualquer lugar, a gente quer esse 1%'.
- Sem cura e com tratamento limitado ao alívio dos sintomas, o caso expõe as lacunas estruturais da pesquisa em doenças raras e a urgência de tornar exames diagnósticos como o rt-QuIC mais acessíveis no Brasil.
Em 1º de outubro de 2026, o influenciador Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, faleceu aos 59 anos vítima da doença de Creutzfeldt-Jakob, uma das condições neurológicas mais raras e implacáveis conhecidas pela medicina. Causada não por um agente infeccioso convencional, mas por uma proteína que se transforma e corrompe outras ao seu redor, a doença lembra-nos de que a fronteira entre o que nos constitui e o que nos destrói pode ser invisível e interior. Sua morte, precedida por um apelo público comovente por acesso a tratamentos experimentais, ilumina tanto a crueldade de doenças sem cura quanto a dignidade de quem recusa render-se sem lutar.
Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, morreu em 1º de outubro aos 59 anos após meses de luta contra a doença de Creutzfeldt-Jakob — condição neurológica rara e incurável tornada pública por sua esposa, Mila, no final de agosto. Ela havia descrito como o influenciador perdia o controle motor enquanto sua mente permanecia lúcida, uma das características mais cruéis da enfermidade.
A doença é causada por uma proteína chamada príon que sofre uma transformação estrutural no cérebro e passa a corromper outras proteínas saudáveis ao redor, desencadeando uma destruição neuronal em cascata. Ocorre em apenas um a dois casos por milhão de pessoas ao ano, o que explica tanto seu desconhecimento público quanto a escassez de pesquisas. A progressão é rápida — cerca de seis meses do início dos sintomas até estágios avançados —, e os pacientes podem evoluir para um estado de mutismo acinético, sem fala, movimento ou interação.
Existem quatro formas da doença: a esporádica, responsável por 85% dos casos e ainda sem causa conhecida; a genética; a iatrogênica, transmitida por procedimentos médicos históricos já abandonados; e a variante associada à 'doença da vaca louca', sem registro no Brasil. O diagnóstico combina ressonância magnética, exames do líquor e o teste rt-QuIC, ainda pouco disponível e de custo elevado no país.
Diante do diagnóstico, a família recorreu a um apelo público desesperado. Em vídeo gravado em inglês, o próprio Lito pediu ajuda a instituições como Harvard, Mayo Clinic e Ionis Pharmaceuticals para participar de estudos experimentais — entre eles o ION717 e o PRiSM. Nenhum estava aceitando novos participantes. Mila tentou negociar exceções diretamente com os pesquisadores responsáveis, sem sucesso.
Pesquisadores trabalham em medicações capazes de reduzir a produção da proteína príon, mas a raridade da doença, sua progressão acelerada e a ausência de exames pré-sintomáticos tornam o avanço científico lento. Para Lito e sua família, essas limitações chegaram tarde demais.
Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, morreu na quinta-feira, 1º de outubro, aos 59 anos. Sua morte encerrou uma luta de meses contra a doença de Creutzfeldt-Jakob, uma condição neurológica rara e incurável que sua esposa, Mila, havia tornado pública no final de agosto. Naquele momento, ela descreveu como o influenciador havia começado a perder o controle motor enquanto sua mente permanecia lúcida — uma característica particularmente cruel dessa enfermidade.
A doença que matou Lito pertence a um grupo extraordinariamente raro de transtornos neurológicos. Ocorre em apenas um a dois casos por milhão de pessoas a cada ano em todo o mundo, o que explica por que a maioria das pessoas nunca ouviu falar dela. Segundo Adalberto Studart, vice-coordenador do departamento científico de Neurologia Cognitiva da Academia Brasileira de Neurologia, a doença de Creutzfeldt-Jakob é causada não por um vírus, bactéria ou fungo, mas por uma proteína que sofre uma transformação estrutural dentro do cérebro. Essa proteína, chamada príon, existe normalmente no corpo humano sem causar dano algum. O problema surge quando ela muda de forma. Quando isso acontece, ela não apenas se torna prejudicial — ela também "contamina" outras proteínas saudáveis ao seu redor, forçando-as a se transformarem também. Esse processo em cascata se espalha pelo cérebro com velocidade crescente, destruindo neurônios e desencadeando os sintomas da doença.
O que torna a doença particularmente devastadora é sua progressão. Geralmente, leva cerca de seis meses desde o aparecimento dos primeiros sintomas até estágios avançados. Os pacientes começam a experimentar perda cognitiva rápida, alterações visuais complexas e sintomas motores como tremores musculares involuntários, rigidez e perda de coordenação. Conforme a doença avança, muitos pacientes entram em um estado de mutismo acinético — deixam de falar, de interagir e de se mover. Não existe cura. O tratamento se limita a tentar aliviar o sofrimento: medicamentos antidepressivos ou antipsicóticos para agitação, remédios para insônia, e fármacos específicos como o levetiracetam para controlar os tremores musculares e o baclofeno para a rigidez. Studart enfatiza a importância de acompanhamento multidisciplinar envolvendo fisioterapeutas, fonoaudiólogos e especialistas em cuidados paliativos.
A doença não é uma condição única, mas se divide em quatro formas distintas. A mais comum é a forma esporádica, responsável por 85% dos casos, cuja causa ainda permanece um mistério para a medicina. Os outros 15% dos casos são da forma genética, herdada de um dos pais. Existe também a forma iatrogênica, transmitida através de procedimentos médicos — historicamente através do hormônio do crescimento extraído de cadáveres, uma prática abandonada desde 1977, ou por enxertos de dura-máter, a membrana que envolve o cérebro. Instrumentos neurocirúrgicos contaminados e transplantes de córnea também podem transmitir a doença. Por fim, existe a variante da doença de Creutzfeldt-Jakob, associada à ingestão de carne bovina contaminada pela encefalopatia espongiforme bovina, conhecida como "doença da vaca louca". Essa forma ganhou atenção mundial nos anos 1990 e 2000, particularmente no Reino Unido. Um ponto importante para o contexto brasileiro: não há registro de casos da variante no país, onde todas as formas da doença são de notificação obrigatória.
Um equívoco comum é que a doença seja facilmente transmissível. Studart esclarece que, apesar de ser tecnicamente transmissível em circunstâncias muito específicas — como demonstram os casos iatrogênicos — a doença não se adquire por contato de pele, mucosas ou inalação de gotículas. O diagnóstico é feito quando médicos observam uma combinação específica de sintomas: perda cognitiva muito rápida, alterações visuais complexas e sinais motores como tremores, rigidez e perda de coordenação. A ressonância magnética do encéfalo detecta alterações típicas em mais de 90% dos casos, e exames do líquido cefalorraquidiano e eletroencefalograma também auxiliam. O teste mais confiável é o rt-QuIC, um exame de laboratório que detecta a presença da proteína príon no líquido que envolve o cérebro e a medula espinhal. O problema é que ele ainda é pouco disponível no Brasil e tem custo elevado.
Após o diagnóstico, a família de Lito fez um apelo público desesperado por inclusão em estudos experimentais. Em um vídeo publicado no final de agosto, o próprio influenciador gravou uma mensagem em inglês pedindo ajuda à Ionis Pharmaceuticals, ao Broad Institute, a Harvard e à Mayo Clinic. O comunicador Ewandro Magalhães reforçou o pedido, destacando que dois estudos poderiam ajudar: o ION717, da Ionis Pharmaceuticals, e o PRiSM, do Broad Institute. Mila mencionou também um terceiro estudo multicêntrico envolvendo centros de pesquisa na França, Alemanha e Inglaterra, embora essa informação não tenha sido confirmada independentemente. "Cada minuto importa", dizia o apelo. Porém, nenhum dos estudos citados estava aceitando novos participantes. Mila afirmou ter entrado em contato direto com os responsáveis na tentativa de conseguir uma exceção. "Eu tenho 0% de chance, mas se eu tiver 1% de chance em qualquer lugar, a gente quer esse 1%", disse ela.
Pesquisadores já testam medicações capazes de reduzir a produção da proteína príon e impedir sua conversão para a forma que causa a doença. Mas o desenvolvimento de um tratamento eficaz enfrenta obstáculos significativos: a progressão rápida da doença, sua baixa incidência e a falta de exames capazes de identificá-la antes do início dos sintomas tornam mais difícil estudá-la do que doenças neurodegenerativas mais comuns e de progressão lenta, como o Alzheimer. Para Lito Sousa e sua família, essas limitações chegaram tarde demais.
Citazioni salienti
A proteína priônica celular é fisiologicamente encontrada nos neurônios, mas quando ela muda a sua conformação, ela se torna patogênica, levando a um processo de neurodegeneração de rápida progressão— Adalberto Studart, vice-coordenador do departamento científico de Neurologia Cognitiva da Academia Brasileira de Neurologia
Não há relação conhecida entre câncer de próstata e a doença de Creutzfeldt-Jakob— Adalberto Studart