Com a morte de Glória Menezes aos 91 anos, o Brasil despede-se de uma das vozes mais persistentes da sua dramaturgia — uma mulher que, durante mais de seis décadas, habitou personagens que habitaram, por sua vez, a memória coletiva de um país. Nascida em Pelotas com raízes portuguesas e um nome escolhido para soar igual em qualquer língua, ela atravessou o preto e branco da televisão nascente, a Palma de Ouro de Cannes e mais de quarenta telenovelas, tornando-se não apenas uma atriz, mas uma testemunha viva da forma como o Brasil aprendeu a contar as suas próprias histórias.
Morre Glória Menezes, lenda da televisão brasileira com 91 anos
O teatro ensinou-lhe o que era necessário para fazer televisão
O que torna a vida de Glória Menezes particularmente significativa para a história da televisão brasileira?
Ela não foi apenas uma atriz que aparecia em novelas. Glória foi uma ponte viva entre o teatro clássico e a televisão moderna. Começou no palco, aprendeu o ofício ali, e depois levou essa exigência toda para as câmeras. Mais de quarenta telenovelas da Globo — isso é uma presença constante na vida das pessoas durante décadas.
E o facto de ter começado em 1959, ainda em preto e branco?
Sim. Ela viu a televisão nascer no Brasil. Viu a transição para cores. Viu as histórias ficarem mais complexas, os atores terem mais liberdade. Ela estava lá em todos esses momentos, interpretando, evoluindo. Não era uma figurante — era uma presença central.
Há algo de poético no facto de ela ter escolhido o nome Glória porque soa igual em qualquer idioma?
Há, sim. Ela era filha de portugueses, mas brasileira. O nome que escolheu refletia essa identidade híbrida — algo universal, mas também enraizado. E depois casou-se com Tarcísio Meira durante quase sessenta anos. Construíram uma vida juntos, uma carreira juntos. Quando ele morreu em 2021, ela continuou, mas já tinha começado a viver de forma mais retirada.
Qual é o significado de ela ter deixado a televisão há dez anos?
Significa que ela sabia quando sair. Não ficou agarrada ao passado, não tentou prolongar uma carreira que já tinha dado tudo o que tinha para dar. Retirou-se para uma quinta no interior, viveu discretamente. Isso é uma forma de dignidade.
E o luto oficial de três dias decretado pelo Presidente?
É o reconhecimento de que Glória e Laura Cardoso — que morreu no mesmo dia, aos 98 anos — representavam uma geração inteira. Não eram apenas atrizes. Eram guardiãs de uma memória cultural. A sua morte marca o fim de uma era.
Der Puls
- Na mesma terça-feira, o Brasil perdeu duas lendas da atuação — Glória Menezes, aos 91 anos, e Laura Cardoso, aos 98 —, um duplo luto que o Presidente Lula transformou em três dias de luto oficial.
- Glória representava uma geração insubstituível: atrizes que viram a televisão nascer a preto e branco, assistiram à chegada das cores e moldaram décadas de narrativas nacionais.
- Com mais de quarenta telenovelas na TV Globo e um papel num filme premiado em Cannes, o seu legado atravessa gerações de telespectadores que cresceram com os seus personagens dentro de casa.
- A sua morte, de causas naturais no apartamento do Rio de Janeiro, encerra um ciclo que havia começado discretamente há cerca de dez anos, quando Glória se retirou para uma quinta no interior de São Paulo, longe das câmeras.
- O país reconhece agora que uma era terminou — não apenas a de uma atriz, mas a de toda uma forma de fazer e sentir a dramaturgia brasileira.
Com a morte de Glória Menezes aos 91 anos, o Brasil despede-se de uma das vozes mais persistentes da sua dramaturgia — uma mulher que, durante mais de seis décadas, habitou personagens que habitaram, por sua vez, a memória coletiva de um país. Nascida em Pelotas com raízes portuguesas e um nome escolhido para soar igual em qualquer língua, ela atravessou o preto e branco da televisão nascente, a Palma de Ouro de Cannes e mais de quarenta telenovelas, tornando-se não apenas uma atriz, mas uma testemunha viva da forma como o Brasil aprendeu a contar as suas próprias histórias.
Glória Menezes morreu na terça-feira no seu apartamento no Rio de Janeiro, aos 91 anos, de causas naturais. Com ela desaparecia uma das figuras mais duradouras da televisão brasileira — alguém que havia dedicado mais de seis décadas à atuação e atravessado gerações de telespectadores.
Nascida Nilcedes Soares de Magalhães em outubro de 1934, em Pelotas, no Rio Grande do Sul, escolheu o nome artístico com deliberação: Glória, porque soa igual em qualquer língua; Menezes, em homenagem às raízes portuguesas dos pais e porque completava treze letras, número que considerava auspicioso. Foi na Escola de Arte Dramática da USP, nos anos 1950, que fundou o grupo teatral Jovens Independentes e conheceu Tarcísio Meira, com quem seria casada por quase seis décadas até à morte dele, de Covid-19, em 2021.
A sua estreia na televisão aconteceu em 1959, na telenovela Um Lugar ao Sol, da TV Tupi. No cinema, o primeiro papel foi em O Pagador de Promessas, que conquistou a Palma de Ouro em Cannes em 1962. Um ano depois, ela e Tarcísio protagonizaram juntos 2-5499 Ocupado, a primeira telenovela diária do Brasil. O teatro, dizia ela, havia sido a sua escola — o lugar onde aprendera a projeção que depois se transferia naturalmente para as câmeras.
Ao longo de mais de quarenta telenovelas da TV Globo, construiu um catálogo de personagens memoráveis, de Ana Preta em Pai Herói, em 1979, a Irene Fontini em A Favorita, em 2008, passando por vilãs, matriarcas e figuras complexas que a mantinham presente nas casas dos brasileiros. Há cerca de dez anos, retirou-se para uma vida discreta numa quinta no interior de São Paulo.
Na mesma terça-feira em que Glória morreu, também faleceu a sua colega Laura Cardoso, aos 98 anos. O Presidente Lula decretou luto oficial de três dias pelas duas atrizes — o reconhecimento de que uma era havia terminado.
Glória Menezes morreu na terça-feira no seu apartamento no Rio de Janeiro, aos 91 anos. A causa foi natural, segundo comunicado da sua assessoria. Com ela desaparecia uma das figuras mais duradouras da televisão brasileira — alguém que havia dedicado mais de seis décadas à atuação, atravessando gerações de telespectadores e transformando a forma como o Brasil via histórias contadas nas telas.
Nascida Nilcedes Soares de Magalhães em outubro de 1934 na cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, ela escolheu o nome artístico com cuidado deliberado. Glória, explicou certa vez, porque a palavra soa igual em qualquer língua. Menezes, porque honrava as suas raízes portuguesas — os pais, José Nilo e Mercedes, haviam emigrado para o Brasil — e porque o sobrenome completava treze letras, número que ela considerava auspicioso. Aos seis anos, a família mudou-se para São Paulo, onde décadas depois ela entraria na Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo. Foi lá, nos anos 1950, enquanto ainda estudava, que fundou o grupo teatral Jovens Independentes e conheceu Tarcísio Meira, o ator com quem seria casada por quase seis décadas. Tarcísio morreu de Covid-19 em 2021. Glória deixa também dois filhos do seu primeiro casamento, com Arnaldo Brito: Maria Amélia e João Paulo.
A sua estreia na televisão brasileira aconteceu em 1959, numa transmissão ainda a preto e branco, na telenovela Um Lugar ao Sol, da TV Tupi. No cinema, o seu primeiro papel foi em O Pagador de Promessas, que estreou em 1962 no Festival de Cannes e conquistou a Palma de Ouro. Um ano depois, casada com Tarcísio, ela participou em 2-5499 Ocupado, a primeira telenovela diária do Brasil, onde ambos dividiam o protagonismo. O teatro, ela dizia, havia sido a sua escola — o lugar onde aprendera o que era necessário para fazer televisão e cinema, porque o palco exigia uma projeção que depois se transferia naturalmente para as câmeras.
Ao longo de mais de quarenta telenovelas da TV Globo, Glória construiu um catálogo de personagens memoráveis. Interpretou Ana Preta em Pai Herói (1979), Roberta Leone em Guerra dos Sexos (1983), Rosemere da Silva em Brega & Chique (1987), a vilã Laurinha Figueroa em Rainha da Sucata (1990), Júlia Braga em A Próxima Vítima (1995), Laura em Senhora do Destino (2004), Irene Fontini em A Favorita (2008), e ainda participou em Totalmente Demais (2015). Cada papel era um fio na tapeçaria da dramaturgia brasileira, e cada um deles a mantinha visível, relevante, presente nas casas dos brasileiros.
Há cerca de dez anos, Glória havia deixado as produções televisivas e se retirado para uma vida discreta numa quinta no interior de São Paulo. Fazia parte de uma geração de atrizes longevas que acumulavam centenas de atuações e que haviam testemunhado momentos históricos para o drama brasileiro — a chegada da televisão a cores, a evolução das narrativas, as mudanças na forma como o país contava as suas próprias histórias. Na mesma terça-feira em que Glória morreu, também faleceu Laura Cardoso, sua colega de profissão, aos 98 anos. O Presidente do Brasil, Lula da Silva, decretou luto oficial de três dias pela morte das duas atrizes. Era o reconhecimento de que uma era havia terminado.
Bemerkenswerte Zitate
O teatro me ensinou o que é preciso para fazer televisão e cinema. Ele dá o conhecimento necessário para interpretar qualquer personagem diante das câmeras.— Glória Menezes, em entrevista à TV Globo
Escolhemos Glória, porque Glória é Glória em qualquer idioma. E Menezes, por causa das minhas raízes portuguesas e porque completa treze letras. Dá sorte.— Glória Menezes, explicando a escolha do seu nome artístico