Carlos Menem, que governou a Argentina por uma década com reformas neoliberais de consequências duradouras, morreu aos 90 anos em Buenos Aires, encerrando uma trajetória que atravessou o poder, a controvérsia e a memória coletiva de um país ainda dividido sobre seu legado. Sua paridade cambial, símbolo de uma estabilidade ilusória, plantou as sementes da crise de 2001 — um colapso que redefiniu gerações. Como tantos homens que moldam nações, Menem deixa não uma resposta, mas uma pergunta aberta sobre o preço das transformações radicais.
Morre ex-presidente argentino Carlos Menem aos 90 anos
A paridade que criou estabilidade plantou as sementes da catástrofe
Por que a ausência de Menem na votação do aborto em dezembro importa? Parece um detalhe.
Não é apenas um detalhe. Menem era senador, um cargo que mantinha mesmo aos 90 anos. Sua ausência naquela votação — uma das mais importantes do Senado argentino em anos — sinalizava que seu corpo finalmente o havia abandonado. Era o fim de uma presença política que durou décadas.
Ele realmente criou a crise de 2001 sozinho?
Não sozinho, mas sua política cambial foi central. A paridade peso-dólar funcionou por um tempo, criou uma ilusão de estabilidade. Mas quando a realidade econômica se chocou com essa ficção, o colapso foi inevitável e devastador.
Como um homem investigado por corrupção tantas vezes nunca foi para a prisão?
Essa é a pergunta que os argentinos ainda fazem. Houve prisão domiciliar, houve absolvições por tecnicidades, houve casos que levaram 25 anos. O sistema funcionou de forma que o protegeu, ou pelo menos não o condenou definitivamente.
Qual era sua base política?
Peronista. Isso é importante. O peronismo é uma força política complexa na Argentina, com raízes profundas. Menem conseguiu se manter relevante dentro dessa tradição mesmo quando suas políticas econômicas eram radicalmente diferentes do que o peronismo historicamente defendia.
O que fica de Menem?
Uma Argentina dividida sobre seu legado. Alguns o veem como alguém que tentou modernizar o país. Outros o veem como responsável pela desigualdade e pela crise que traumatizou uma geração inteira. Provavelmente ambas as coisas são verdadeiras.
El Pulso
- A morte de Menem aos 90 anos fecha um capítulo que a Argentina nunca processou completamente — o de reformas econômicas que prometeram modernidade e entregaram colapso.
- A paridade peso-dólar, sua medida mais ousada, gerou estabilidade artificial por anos antes de explodir em 2001 na pior crise da história moderna argentina.
- Investigações por corrupção e contrabando de armas o perseguiram por décadas, mas nenhuma condenação efetiva veio — alimentando desconfiança sobre a igualdade da justiça no país.
- Mesmo hospitalizado em seus últimos meses, Menem permanecia senador peronista ativo, símbolo de uma geração política que não sabia — ou não queria — sair de cena.
- Sua morte divide opiniões como sua vida: para uns, um modernizador corajoso; para outros, o arquiteto de uma desigualdade que ainda assombra a Argentina.
Carlos Menem, que governou a Argentina por uma década com reformas neoliberais de consequências duradouras, morreu aos 90 anos em Buenos Aires, encerrando uma trajetória que atravessou o poder, a controvérsia e a memória coletiva de um país ainda dividido sobre seu legado. Sua paridade cambial, símbolo de uma estabilidade ilusória, plantou as sementes da crise de 2001 — um colapso que redefiniu gerações. Como tantos homens que moldam nações, Menem deixa não uma resposta, mas uma pergunta aberta sobre o preço das transformações radicais.
Carlos Menem morreu no domingo em uma clínica de Buenos Aires, aos 90 anos. A agência oficial Telam confirmou o falecimento de um dos políticos mais marcantes — e mais controversos — da história argentina recente.
Oriundo de La Rioja, Menem governou entre 1989 e 1999 com um programa neoliberal que reformulou profundamente a economia do país. Sua medida mais emblemática foi a paridade cambial fixa: um peso igual a um dólar. A política trouxe estabilidade no curto prazo, mas quando o modelo entrou em colapso, a Argentina viveu em 2001 sua pior crise moderna — desemprego em massa, pobreza generalizada e uma sucessão vertiginosa de presidentes em poucos dias.
Sua vida pessoal também esteve sempre sob os holofotes. Casou-se duas vezes — primeiro com Zulema Yoma, depois com Cecilia Bolocco, ex-miss Universo — e teve três filhos. Após deixar a presidência, enfrentou múltiplas investigações por corrupção e contrabando de armas para Croácia e Equador, chegando a cumprir prisão domiciliar preventiva em 2001. Décadas depois, foi absolvido por excesso de prazo processual — uma resolução técnica que deixou em aberto as questões de fundo.
Menem permaneceu senador peronista até o fim, presente na vida pública mesmo com a saúde em declínio. Em dezembro passado, enquanto o Senado votava a legalização do aborto, ele estava hospitalizado — uma ausência simbólica para quem viveu décadas no centro do poder. Sua morte divide a memória argentina: modernizador para uns, arquiteto da desigualdade para outros.
Carlos Menem, que moldou a Argentina durante uma década de transformação econômica radical e deixou um legado de controvérsia política que o perseguiu até o fim, morreu no domingo 14 de fevereiro em uma clínica de Buenos Aires. Tinha 90 anos. A agência oficial de notícias Telam confirmou a morte, que encerra um capítulo turbulento da história argentina contemporânea.
Os últimos meses de Menem foram marcados por internações recorrentes. Em 29 de dezembro, quando o Senado argentino votava sobre a legalização do aborto — uma questão que dividiu o país — Menem permanecia hospitalizado, impedido de participar da sessão. Era uma ausência simbólica para um homem que havia passado décadas no centro do poder político.
Oriundo da província de La Rioja, Menem governou a Argentina entre 1989 e 1999 com um programa explicitamente neoliberal que reformulou a economia do país. Sua medida mais emblemática foi estabelecer uma paridade cambial fixa: um peso equivalia a um dólar americano. A política oferecia estabilidade no curto prazo, mas plantava as sementes de uma catástrofe econômica. Quando o modelo entrou em colapso, a Argentina enfrentou em 2001 a pior crise de sua história moderna, com desemprego massivo, pobreza generalizada e uma sequência de presidentes em questão de dias.
Menem casou-se duas vezes e teve três filhos. Seu primeiro casamento foi com Zulema Yoma; o segundo, com Cecilia Bolocco, uma ex-miss Universo. Ambos os matrimônios receberam atenção da imprensa argentina, entrelaçando sua vida pessoal com sua trajetória pública de forma que poucos políticos experimentam.
Sua vida após deixar a presidência foi perseguida por investigações judiciais. Menem enfrentou múltiplas acusações de corrupção, mas nenhuma resultou em condenação à prisão — um fato que alimentou críticas sobre a justiça argentina e o tratamento diferenciado de figuras políticas poderosas. Em 2001, foi colocado em prisão domiciliar preventiva enquanto aguardava julgamento por contrabando de armas para a Croácia e Equador. Permaneceu detido em casa por algumas semanas até que o Tribunal Supremo da Justiça o libertou. Décadas depois, em um caso que levou 25 anos para ser resolvido, foi absolvido por excesso de prazo processual — uma resolução técnica que deixou em aberto questões sobre a substância das acusações.
Menem continuou ativo na política como senador peronista até seus últimos anos, mantendo uma presença na vida pública argentina mesmo quando sua saúde se deteriorava. Sua morte marca o fim de uma era de reformas econômicas radicais e de uma figura cuja herança permanece profundamente dividida na memória coletiva argentina: para alguns, um modernizador que tentou colocar o país no caminho da estabilidade; para outros, o arquiteto de políticas que geraram desigualdade e contribuíram para a crise que definiu uma geração.
Citas Notables
Menem permanecia hospitalizado, impedido de participar da votação sobre aborto no Senado em 29 de dezembro— Confirmado pela agência Telam