Moradores fazem resgates por conta própria após terremotos na Venezuela

188 mortes confirmadas e 1.520 feridos; crianças entre as vítimas; pessoas amputadas e desabrigadas passando noites nas ruas.
Meu filho está debaixo das placas de concreto e não há máquinas
Uma mãe desesperada descreve a impotência de saber exatamente onde seu filho está preso, mas sem recursos para resgatá-lo.

Dois tremores deixaram 188 mortos e 1.520 feridos; quase 24 horas depois, socorro ainda não chegava a diversas áreas afetadas. Faltam máquinas pesadas como retroescavadeiras; moradores improvisam resgates com recursos limitados enquanto hospitais ficam lotados.

  • Dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 na noite de 24 de junho
  • 188 mortos e 1.520 feridos confirmados
  • Quase 24 horas depois, socorro ainda não havia chegado a diversas áreas
  • Faltavam máquinas pesadas como retroescavadeiras para resgates
  • Hospital de Morón atendeu 112 pessoas com falta de suprimentos básicos; 9 morreram

Após dois terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 na Venezuela, moradores realizam resgates por conta própria devido à demora das autoridades e falta de equipamentos, com 188 mortes e 1.520 feridos confirmados.

Quase um dia depois que dois tremores sucessivos sacudiram a Venezuela na noite de quarta-feira, as ruas de La Guaira ainda exibiam o caos de um desastre sem resposta. Os dois abalos, com magnitudes de 7,2 e 7,5, separados por menos de um minuto, deixaram 188 pessoas mortas e 1.520 feridas. Mas para muitos moradores, o número que importava era o de horas que passavam sem que chegasse ajuda oficial — e assim começaram a cavar com as próprias mãos.

Carlos Borges estava entre aqueles que improvisavam resgates nos escombros. Ele e seu grupo conseguiram tirar três pessoas vivas de um edifício destruído, mas o trabalho era lento, exaustivo e perigoso. "Estamos tentando ajudar com o que podemos, mas faltam equipamentos", disse ele à Reuters. O que faltava era concreto: retroescavadeiras, tratores, máquinas pesadas capazes de mover as placas gigantescas de concreto que aprisionavam corpos sob os destroços. Sem elas, os moradores estavam limitados ao que seus corpos podiam fazer — e isso não era suficiente.

Argenis Martínez procurava um parente desaparecido no bairro Los Corales. Sua voz carregava a mistura de desespero e frustração de quem sabe que o tempo está passando. "Não é possível chamar os militares? Que todos venham ajudar. Coloquem-nos em veículos e tragam tratores de onde for possível", pediu ele. Em alguns pontos da cidade, os escombros pegaram fogo durante a madrugada, apesar da interrupção do fornecimento de gás — um detalhe que sugeria a violência do colapso estrutural. Dezenas de pessoas passaram a noite nas ruas ou continuaram vasculhando prédios destruídos em busca de sobreviventes, porque não havia para onde ir.

Yamileth Jiménez representava o rosto dessa espera angustiante. Seu filho, com 19 anos, estava preso sob as placas de concreto do prédio onde moravam. "Meu filho está debaixo das placas de concreto e não há máquinas para tirá-lo de lá", disse ela. A presidente interina, Delcy Rodríguez, havia declarado La Guaira uma "zona de desastre" e afirmado que o governo trabalhava com empresas privadas para mobilizar equipamentos pesados e acelerar os resgates. Mas para Yamileth, como para tantos outros, essas promessas soavam vazias enquanto as horas passavam.

Em outros pontos da cidade, havia pequenas vitórias. Vizinhos conseguiram retirar dois corpos de uma casa, entre eles o de uma menina. Em um prédio residencial, moradores salvaram uma mulher e duas crianças, feridas mas vivas. Mas essas histórias de sobrevivência eram exceções em um cenário de perdas. Beatriz Rodríguez, de 60 anos, viu seu sobrinho ter as pernas amputadas após ser esmagado pelos escombros. Outro sobrinho, de apenas 6 anos, morreu. "É uma tragédia", disse ela, com a simplicidade de quem não encontra palavras maiores para o que havia perdido.

Os hospitais estavam transbordando. O Hospital José María Vargas em La Guaira ficou tão lotado que pacientes precisavam ser atendidos do lado de fora do prédio, enquanto policiais controlavam o acesso. As Forças Armadas começaram a instalar hospitais de campanha na cidade, estruturas que poderiam realizar cirurgias de emergência. Mas a situação era crítica em toda parte. No hospital de Morón, o médico Augusto Ramírez enfrentava um plantão de 24 horas com falta de tudo. "Precisamos de aparelhos para medir pressão, gazes, termômetros, luvas, gesso, analgésicos... de tudo", disse ele à Reuters. Ele e dois colegas, junto com a equipe do hospital, atenderam 112 pessoas desde os terremotos. Nove morreram — três delas crianças — vítimas de fraturas no crânio e outros ferimentos que os equipamentos e suprimentos faltantes não conseguiram salvar.

Em algumas regiões de La Guaira, a situação se deteriorava ainda mais. Moradores desesperados procuravam comida e água, e equipes da Reuters presenciaram saques em pelo menos duas lojas. A infraestrutura da cidade não apenas havia desabado — ela havia deixado um vácuo que as pessoas tentavam preencher como podiam. O governo prometia máquinas pesadas e hospitais de campanha. Os moradores continuavam cavando com as mãos.

Estamos tentando ajudar com o que podemos, mas faltam equipamentos
— Carlos Borges, participante dos resgates, à Reuters
Precisamos de aparelhos para medir pressão, gazes, termômetros, luvas, gesso, analgésicos... de tudo
— Dr. Augusto Ramírez, médico do hospital de Morón, à Reuters
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Inventor

Por que os resgates demoraram tanto para chegar? Havia algum plano de contingência?

Model

Não há indicação de que houve um plano efetivo. Quase 24 horas depois, muitas áreas ainda não tinham recebido ajuda oficial. O governo falou em trabalhar com empresas privadas, mas isso leva tempo — e as pessoas não tinham tempo.

Inventor

Os moradores que faziam os resgates — eles tinham algum treinamento?

Model

Não. Eram vizinhos, pessoas comuns tentando tirar outras pessoas dos escombros com as próprias mãos. Conseguiram salvar alguns, mas sem máquinas pesadas, o trabalho era quase impossível.

Inventor

E os hospitais? Estavam preparados para uma catástrofe assim?

Model

Não. Ficaram imediatamente lotados, com pacientes sendo atendidos nas ruas. Um médico em Morón disse que faltava tudo — até coisas básicas como termômetros e gazes. Nove pessoas morreram lá por falta de recursos.

Inventor

Havia saques? As pessoas estavam saqueando?

Model

Sim, em pelo menos duas lojas. Mas não era ganância — era fome e sede. Pessoas desesperadas procurando comida e água porque não sabiam quando a ajuda chegaria.

Inventor

O que mais choca nessa história?

Model

Que uma mãe sabia exatamente onde seu filho de 19 anos estava — preso sob as placas de concreto do seu próprio apartamento — e não havia nada que ela pudesse fazer além de esperar por máquinas que não chegavam.

Inventor

E agora? O que vem depois?

Model

O governo instalou hospitais de campanha e prometeu equipamentos. Mas a confiança estava abalada. As pessoas aprenderam que, em um desastre, só podem contar com elas mesmas.

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