Moradores do DF se mobilizam contra construção de Caps em áreas residenciais

Pessoas com transtornos mentais graves e dependência química deixam de receber atendimento adequado devido aos atrasos nas construções dos Caps.
Eles não têm que estar onde os trabalhadores estão, onde os idosos estão
Moradora expressa medo de que Caps atraia pessoas com dependência química para bairro residencial.
Mark

Por que exatamente os moradores estão tão contra esses centros? Parece haver mais de uma razão.

Mimi

Há várias camadas. A mais imediata é a perda de espaço. Em Taguatinga, o terreno é usado como área de lazer há 30 anos. As pessoas têm memória afetiva daquele lugar. Mas também há medo real — ou pelo menos medo percebido — sobre segurança e mudanças na rotina.

Luke

Mas o medo é baseado em quê? A reportagem diz que não há dados de aumento de criminalidade onde Caps já existem. O Gama é um exemplo disso.

Mimi

Exato. E a subsecretária de Saúde Mental aponta que há confusão sobre o que é um Caps. As pessoas confundem com abrigos para pessoas em situação de rua, ou acham que vai haver internações involuntárias.

Mark

Então é desinformação?

Mimi

Parcialmente. Mas também é real que um Caps 24 horas muda a dinâmica de um bairro residencial. Não é invisível. A questão é se essa mudança é prejudicial ou apenas diferente.

Luke

A reportagem não traz números sobre impacto real em segurança, trânsito ou qualidade de vida. Temos relatos anedóticos do Gama dizendo que nada piorou, mas nada sistemático.

Mark

E quanto ao argumento de que deveria ser em área ociosa, não em área de lazer?

Mimi

É um argumento legítimo de planejamento urbano. Mas o governo diz que está usando critérios técnicos de priorização. A questão é: quem decide o que é "técnico" quando a comunidade discorda?

Luke

E há ainda a questão da desinformação deliberada ou negligente. Daniela Felix fala de pessoas com dependência química como "totalmente agressivas". Isso é um estereótipo que não é comprovado.

Mark

Então o governo está certo e os moradores estão errados?

Mimi

Não é tão simples. Os moradores têm direito legítimo de participar de decisões sobre seu bairro. O governo tem obrigação legal de cumprir a sentença. O conflito é real, não é só ignorância.

Luke

E enquanto isso, pessoas com transtornos mentais graves esperam. Esse é o custo humano que fica invisível na reportagem.

  • Governo do DF condenado há mais de 15 anos por omissão em saúde mental
  • Acordo com Ministério Público prevê construção de cinco Caps até 2027
  • DF tem 19 Caps e permanece em segundo lugar em deficiência no país, atrás apenas do Amazonas
  • Caps III no Gama foi inaugurado em julho após mobilização comunitária
  • Abaixo-assinado no Guará reuniu 781 assinaturas contra construção

Governo do DF comprometeu-se a construir cinco Caps até 2027 após condenação de 15 anos por omissão em saúde mental, mas enfrenta forte resistência comunitária. Moradores confundem função dos Caps com abrigos e temem aumento de criminalidade, enquanto autoridades afirmam não haver dados que comprovem impacto negativo na segurança.

Comunidades no Distrito Federal mobilizam-se contra a construção de cinco novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) em áreas residenciais, alegando perda de espaços de lazer e preocupações com segurança, apesar de acordo com Ministério Público.

O Distrito Federal está preso numa encruzilhada que revela como a resistência local pode paralisar até mesmo as obrigações judiciais. Há mais de 15 anos, o governo foi condenado por negligenciar a rede pública de saúde mental. Para cumprir essa sentença, fechou um acordo com o Ministério Público comprometendo-se a construir cinco novos Centros de Atenção Psicossocial (Caps) até 2027. Mas antes que as primeiras estruturas saíssem do papel, os moradores das regiões escolhidas começaram a se mobilizar — não para receber os centros, mas para impedi-los.

A resistência ganhou força especialmente em torno dos Caps III Álcool e Drogas, unidades que funcionam 24 horas e atendem pessoas com dependência química. Duas dessas unidades estão entre as cinco planejadas. Em Taguatinga, na QNL 1, a comunidade organizou manifestações de rua, plantou árvores nos buracos das escavações e levou moradores em ônibus fretado a uma audiência pública com a Câmara Legislativa. O governo chegou a paralisar as obras. O motivo central da revolta: o terreno escolhido era um espaço de lazer que a comunidade usa há mais de três décadas. "A gente tem que pensar em áreas ociosas para que a gente possa fazer benfeitorias. A partir do momento que a gente tem uma área útil, que funciona e que tem utilidade para população, eu não vejo motivo para a gente colocar um Caps aqui", disse Bruno de Andrade, morador de 44 anos.

No Guará, nas Quadras Econômicas Lúcio Costa, a mobilização seguiu padrão semelhante. Um abaixo-assinado com 781 assinaturas argumenta que o terreno é uma "área legítima de convivência e recreação ao ar livre". O documento lista preocupações com segurança pessoal e patrimonial, aumento de trânsito, ruído após as 22 horas e possível impacto na Reserva Biológica do Guará. Os moradores sugerem que o espaço seja destinado a uma Unidade Básica de Saúde em vez disso. Alguns chegaram a questionar se o terreno havia sido de fato uma área de lazer ou se pertencia à Secretaria de Educação — uma discrepância que revela como a informação sobre o próprio espaço é contestada.

Por trás da resistência, porém, há também desinformação significativa. Moradores confundem a função dos Caps com abrigos para pessoas em situação de rua, temendo que a instalação atraia acampamentos nas proximidades. Alguns acreditam erroneamente que os centros realizariam internações involuntárias — justamente o oposto do que os Caps representam, uma transição deliberada do modelo manicomial para o atendimento comunitário. Daniela Felix, uma das criadoras do abaixo-assinado no Guará, expressou preocupação de que pessoas com dependência química fossem "totalmente agressivas" e incompatíveis com a convivência em áreas residenciais. "São pessoas que realmente precisam de atendimento, só que eles não têm que estar onde os trabalhadores estão, onde os idosos estão e crianças também", afirmou.

A subsecretária de Saúde Mental do DF, Fernanda Falcomer, atribui parte da resistência ao próprio nome "Caps", que se tornou alvo de piadas na internet, e a uma confusão generalizada sobre a estrutura e função real dos centros. Ela enfatiza que o modelo de atenção prevê justamente que o Caps seja um espaço aberto, inserido nos bairros, próximo a casas, comércio e escolas, para permitir reabilitação psicossocial efetiva. A Secretaria de Saúde afirma não haver dados que comprovem aumento de criminalidade associado à instalação de Caps. "A gente não vê nenhum tipo de alteração da rotina ou de aumento de criminalidade. Muito pelo contrário, porque as pessoas estão ali para se tratar", disse Falcomer. A pasta também esclareceu que as unidades "não funcionam como abrigos ou espaços de segregação" e que o cuidado é realizado de forma planejada com acompanhamento de equipes de saúde.

No Gama, onde a mobilização também chegou ao Ministério Público, a unidade do Caps III foi inaugurada no início de julho após muita disputa. O motorista Hamilton Barbosa, 74 anos, morador da região, relatou que a rotina segue sem grandes alterações. "Coisas assim de segurança, de roubo, eu não percebo muita coisa não. Nunca mexeram nada por aqui não, nunca vi reclamação sobre segurança, sobre assalto", comentou. Ele também observou que a comunidade temia a remoção de árvores, mas a maioria foi preservada.

Apesar desses avanços, o DF permanece entre as piores coberturas de Caps do país. Com 18 unidades em 2025, ficou em segundo lugar no ranking nacional de deficiência — atrás apenas do Amazonas. Após a inauguração do Caps no Gama, o número subiu para 19, insuficiente para mudar de posição. A Secretaria de Saúde afirma que o planejamento de construção dos cinco Caps deve ser cumprido até 2027, com mais sete unidades previstas para 2027 a 2029, condicionadas à disponibilidade orçamentária e à existência de terrenos adequados. Enquanto isso, pessoas com transtornos mentais graves e dependência química continuam aguardando atendimento que não chega, presos numa espera que a resistência comunitária só faz alongar.

A partir do momento que a gente tem uma área útil, que funciona e que tem utilidade para população, eu não vejo motivo para a gente colocar um Caps aqui
— Bruno de Andrade, morador de Taguatinga
O Caps é esse espaço de cuidado para casos graves e persistentes inserido na comunidade. Então, realmente, ele tem que estar ali no meio das casas, perto do comércio, da escola
— Fernanda Falcomer, subsecretária de Saúde Mental do DF
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