Chuvas no DF cresceram de 981 mm em 2023 para 1.191 mm em 2025, com maior frequência de eventos intensos. Especialistas apontam que infraestrutura atual, planejada para outro padrão climático, não consegue escoar água adequadamente.
Moradores do DF acumulam prejuízos com tempestades enquanto infraestrutura se mostra insuficiente
A infraestrutura foi pensada para outro padrão climático
Como assim a infraestrutura não dá conta? Brasília foi planejada por Lúcio Costa, é uma capital moderna.
Exatamente. Foi planejada em 1960 para um padrão de chuvas que não é mais o mesmo. Os dados mostram um aumento de 21% em dois anos. O sistema de drenagem que funcionava bem para 981 milímetros por ano não consegue processar 1.191 milímetros.
Mas espera aí. O governo diz que fez investimentos significativos em drenagem. Como a gente sabe se esses investimentos realmente não estão funcionando ou se simplesmente não foram suficientes?
Boa pergunta. Os especialistas da UnB e do UniCeub dizem que a vazão não dá conta, que o pico de chuva é muito mais forte agora. Mas você está certo — não temos números específicos sobre quanto foi investido ou onde.
E a história da Kiteria? Isso é um caso isolado ou representa um padrão?
A reportagem diz que é cada vez mais comum encontrar ônibus, carros, motos e pedestres presos em enchentes em diferentes partes do DF. Kiteria é um rosto para um problema que está crescendo.
Mas a gente não sabe quantos acidentes como o dela acontecem por mês, por exemplo. A reportagem não traz números de incidentes.
Verdade. Sabemos que acontece, que está ficando mais frequente, mas não temos estatísticas de acidentes ou lesões.
O governo culpa as áreas de ocupação irregular. Isso é justo?
Pode ser parte da verdade. Mas a Kiteria estava em Taguatinga, que não é uma área irregular. E os especialistas falam de um problema sistêmico de planejamento, não apenas de ocupação desordenada.
Exatamente. O governo está dividindo a responsabilidade entre o clima e a ocupação irregular, mas os especialistas estão dizendo que o problema é o planejamento urbano em si, independente de onde a chuva cai.
Então o que muda agora?
Essa é a pergunta que fica. O governo diz que está investindo, os especialistas dizem que não é suficiente, e os moradores como Kiteria não veem compromisso político real.
El Pulso
- Chuvas no DF cresceram de 981 mm (2023) para 1.191 mm (2025) — aumento de 21%
- Kiteria Karoline Alves foi arrastada pela água em março em Taguatinga, sofreu lesão no pé e ganhou 8 kg
- Especialistas da UnB e UniCeub afirmam que infraestrutura de drenagem é insuficiente para eventos climáticos intensos
- Governo do DF afirma investimentos significativos em drenagem, mas moradores relatam falta de melhora
Chuvas no DF cresceram de 981 mm em 2023 para 1.191 mm em 2025, com maior frequência de eventos intensos. Especialistas apontam que infraestrutura atual, planejada para outro padrão climático, não consegue escoar água adequadamente.
Moradores do Distrito Federal enfrentam aumento de 21% nas chuvas entre 2023 e 2025, causando alagamentos frequentes e acidentes. Infraestrutura de drenagem é insuficiente para lidar com eventos climáticos extremos.
As chuvas no Distrito Federal estão ficando mais fortes e mais frequentes. Entre 2023 e 2025, o volume anual de precipitação saltou de 981 milímetros para 1.191 milímetros — um aumento de 21% em apenas dois anos. Os dados vêm do Sistema de Monitoramento de Chuvas Urbanas do DF, desenvolvido pela Adasa, Ibram, UnB e Caesb. Não é apenas a quantidade que preocupa. O que realmente muda o dia a dia das pessoas é a intensidade: chuvas que desabam de repente, transformando ruas em rios em minutos, deixando ônibus, carros, motos e pedestres presos na água.
Em março deste ano, Kiteria Karoline Alves estava pilotando sua moto em Taguatinga quando uma chuva forte começou. Ela descreve o momento com precisão: a água veio de repente, as poças eram enormes, e entre o pensamento de procurar proteção e a ação, passou um minuto. Depois disso, a água a arrastou junto com a moto até bater em um muro. Pessoas tentaram ajudá-la, mas não conseguiram. "Pensei que eu ia morrer", lembra. Um carro quase a atropelou enquanto ela era arrastada. Ela bebeu água de chuva misturada com esgoto. O pé machucado deixou sequelas: dores que persistem, impossibilidade de fazer exercícios físicos, ganho de 8 quilos desde o acidente. O trauma foi tão profundo que só conseguiu voltar a pilotar uma moto seis meses depois.
Kiteria não acredita que a situação vá melhorar. "Esse é um problema antigo, não é a primeira vez. Não sinto compromisso dos nossos governantes", diz. Sua frustração reflete uma realidade que especialistas confirmam: a infraestrutura de Brasília não foi planejada para o clima que a cidade enfrenta agora. Rideci Farias, professor de engenharia do UniCeub, explica que eventos extremos como esses expõem a fragilidade do sistema de mobilidade urbana. "Se nós pensarmos em todo esse somatório, certamente a tendência é o sistema ficar mais caro, mais lento, mais desigual. A gente tem que tentar um planejamento adequado. É a oportunidade de transformar as capitais", afirma.
Liza Andrade, professora da Universidade de Brasília e doutora em arquitetura, é mais direta: a drenagem atual do Distrito Federal é insuficiente. As bocas de lobo levam toda a água para o corpo d'água mais próximo, carregando sujeira e poluição. "A vazão não dá conta. Antes, não tinha esse pico de chuva tão forte como agora. Então, o que foi pensado, planejado, não dá conta", explica. A infraestrutura foi concebida para um padrão climático diferente do que existe hoje.
O governo do Distrito Federal contesta esse diagnóstico. O Departamento de Estradas de Rodagem do DF afirma que as vias urbanas são monitoradas em tempo real e que, embora algumas registrem pontos de alagamento, a situação "se normaliza com o passar do tempo". A Secretaria de Obras vai além: destaca investimentos "significativos" em infraestrutura urbana nos últimos anos e argumenta que "os principais problemas causados pelas chuvas ocorrem, em sua maioria, em áreas de ocupação irregular e desordenada, que não contam com infraestrutura urbana adequada". A pasta também afirma que todas as obras de mobilidade executadas já incluem reforço no sistema de drenagem, garantindo maior eficiência no escoamento das águas pluviais.
Mas há uma lacuna entre o que o governo diz fazer e o que os moradores vivem. Kiteria Karoline Alves é apenas um caso entre muitos. Enquanto as chuvas intensas continuam aumentando em frequência e volume, a cidade segue dividida entre a narrativa oficial de normalização e a realidade de pessoas que enfrentam acidentes, traumas e perdas materiais cada vez mais intensas. A questão que fica é se os investimentos anunciados conseguirão acompanhar o ritmo acelerado das mudanças climáticas que já estão aqui.
Citas Notables
Pensei que eu ia morrer. Teve um momento que um carro quase me atropelou. Quando ele me viu, eu estava sendo arrastada.— Kiteria Karoline Alves, vítima de acidente durante chuva forte
A vazão não dá conta. Antes, não tinha esse pico de chuva tão forte como agora. Então, o que foi pensado, planejado, não dá conta.— Liza Andrade, professora da UnB e doutora em arquitetura