Num território onde a anemia hemolítica acompanha a doença falciforme por toda a vida, um comprimido oral chamado mitapivat surgiu como esperança de aliviar o sangue sem aliviar, ainda, a dor. O ensaio RISE UP, publicado no Lancet, mostrou que a hemoglobina subiu de forma clara em parte dos pacientes, enquanto as crises vaso-oclusivas, que são o que mais pesa na vida cotidiana dessas pessoas, não diminuíram de maneira estatisticamente sólida. A ciência, aqui, avança por degraus: mede-se primeiro o que o corpo sinaliza com mais nitidez, e só depois se pergunta se essa mudança se converte em alí
Mitapivat eleva hemoglobina na doença falciforme, mas não reduz crises de dor no ensaio RISE UP
O ganho de hemoglobina, isoladamente, não comprova melhora clínica
Então o remédio funcionou ou não?
Depende do desfecho. A hemoglobina subiu: 41% dos tratados tiveram ganho de ao menos 1 g/dL, contra 3% no placebo. Mas as crises de dor não diminuíram de forma significativa.
E convém separar as coisas: o ganho de hemoglobina é um marcador. Os próprios autores dizem que, sozinho, ele não prova melhora clínica.
E a taxa de crises?
2,6 por ano com mitapivat e 3,1 com placebo. A diferença existe no papel, mas não tem significância estatística.
Além disso, o segundo desfecho primário também não foi atingido. Isso pesa.
E a redução de transfusões, 24% contra 41%?
É um dado que chama atenção, porque transfusão traz risco de sobrecarga de ferro e aloimunização.
Mas veio de análise ad hoc, e os autores dizem que não é confirmatório. Também os 26% a menos de crises nos respondedores são post hoc e exploratórios: geram hipótese, não conclusão.
E a segurança?
Eventos graves em 20% dos tratados e 29% do placebo, um caso atribuído ao medicamento, mais artralgia no grupo ativo.
Fica em aberto o benefício a longo prazo. A extensão aberta e os dados de mundo real é que dirão isso. Vale lembrar que o estudo teve financiamento da fabricante.
Il Polso
- Quatro em cada dez pacientes tratados ganharam hemoglobina, mas a dor que os trazia ao hospital continuou quase igual à do placebo.
- A anemia persistente pesa sobre o corpo e sobre a mortalidade, e o estudo busca um caminho para aliviá-la antes que as complicações avancem.
- Os pesquisadores tentam separar quem realmente se beneficia, com análises exploratórias e a extensão aberta do ensaio ainda em curso.
- O resultado ainda não virou tratamento que mude a vida das pessoas com doença falciforme; a tendência aponta para mais dados de mundo real antes de qualquer conclusão definitiva.
Num território onde a anemia hemolítica acompanha a doença falciforme por toda a vida, um comprimido oral chamado mitapivat surgiu como esperança de aliviar o sangue sem aliviar, ainda, a dor. O ensaio RISE UP, publicado no Lancet, mostrou que a hemoglobina subiu de forma clara em parte dos pacientes, enquanto as crises vaso-oclusivas, que são o que mais pesa na vida cotidiana dessas pessoas, não diminuíram de maneira estatisticamente sólida. A ciência, aqui, avança por degraus: mede-se primeiro o que o corpo sinaliza com mais nitidez, e só depois se pergunta se essa mudança se converte em alívio real.
Um comprimido de duas doses diárias foi testado em 207 pessoas com doença falciforme, em 15 países, por 52 semanas, num ensaio duplo-cego contra placebo. A pergunta era simples e exigente: o medicamento faria a hemoglobina subir e as crises de dor diminuírem? A resposta chegou em duas partes, e uma delas não deixou dúvidas.
Entre os tratados com mitapivat, 41% ganharam ao menos 1 g/dL de hemoglobina, contra apenas 3% no placebo. Para quem vive com anemia crônica, esse ganho representa menos cansaço e menos dependência de transfusões: 24% dos tratados precisaram de transfusão, contra 41% no grupo placebo. Os autores, porém, insistem que hemoglobina sozinha não prova melhora clínica.
As crises vaso-oclusivas, que levam pacientes a emergências com dor intensa, não cederam de forma significativa: 2,6 episódios por ano com o medicamento e 3,1 com placebo. Uma análise exploratória sugeriu redução entre os que mais responderam em hemoglobina, mas esse achado ainda precisa ser confirmado. Na segurança, os eventos graves foram menos frequentes no grupo ativo, e a artralgia apareceu mais, quase sempre de intensidade leve a moderada.
O caminho adiante passa pela extensão aberta do estudo e por dados do cotidiano dos pacientes, para descobrir quem realmente se beneficia e se a dor também pode ser aliviada.
O ensaio de fase 3 RISE UP, publicado no Lancet em outubro de 2026, testou o mitapivat, um comprimido oral, em 207 pacientes com doença falciforme distribuídos por 15 países. O estudo foi duplo-cego e comparou o medicamento a placebo, com duas perguntas centrais: a hemoglobina sobe e as crises vaso-oclusivas diminuem? A resposta veio dividida.
O ponto de partida, segundo o estudo, é a anemia hemolítica persistente, que favorece complicações e aumenta a mortalidade. Foram incluídos pacientes a partir de 16 anos, com hemoglobina entre 5,5 e 10,5 g/dL e entre duas e dez crises por ano. Os participantes tomaram 100 mg de mitapivat ou placebo duas vezes ao dia durante 52 semanas. O financiamento veio da Agios Pharmaceuticals.
O mitapivat ativa a piruvato quinase, o que eleva o ATP e reduz o 2,3-DPG dentro das hemácias. Para os autores, esse mecanismo pode atenuar tanto a anemia hemolítica quanto a falcização.
Na hemoglobina, o resultado foi claro. A resposta, definida como ganho médio de ao menos 1 g/dL entre as semanas 24 e 52, ocorreu em 41% dos pacientes tratados e em 3% do grupo placebo. Entre os respondedores, a alta média foi de 1,6 g/dL, o que os pesquisadores comparam a cerca de duas unidades de sangue transfundidas por mês. Eles ressalvam, porém, que o ganho de hemoglobina, isoladamente, não comprova melhora clínica.
Numa análise ad hoc, 24% dos tratados receberam transfusão, contra 41% no placebo. Os autores dizem que o achado não é confirmatório, mas o destacam por causa de riscos como sobrecarga de ferro e aloimunização.
Nas crises, o efeito esperado não apareceu. O estudo definiu crise como dor aguda vaso-oclusiva com atendimento médico e analgesia, síndrome torácica aguda, priapismo ou sequestro hepático ou esplênico. A taxa anualizada foi de 2,6 com mitapivat e de 3,1 com placebo, diferença sem significância estatística. O segundo desfecho primário também não foi atingido. A fadiga não diferiu de forma significativa entre os grupos. Uma análise post hoc exploratória sugeriu 26% menos crises nos respondedores de hemoglobina do que nos não respondedores, dentro do grupo tratado.
Sobre segurança, eventos adversos graves ocorreram em 20% dos tratados e em 29% do placebo, com um caso atribuído ao mitapivat. A artralgia foi mais frequente no grupo ativo (30% contra 19%), em geral de grau 1 ou 2. Nenhum óbito foi relacionado ao tratamento e não houve hemólise aguda entre os que interromperam o medicamento, inclusive de forma abrupta.
A extensão aberta do RISE UP continua avaliando eficácia e segurança a longo prazo. Os pesquisadores defendem dados de mundo real para identificar quais pacientes mais se beneficiam da resposta de hemoglobina.
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O ganho de hemoglobina, isoladamente, não comprova melhora clínica.— Autores do ensaio RISE UP (paráfrase)