Aos 19 anos, o argentino Milo J chega ao Brasil pelo Rock In Rio carregando mais do que músicas: traz uma afirmação de identidade que atravessa toda sua obra. Nascido na periferia de Buenos Aires, ele mistura folclore andino e rioplatense com trap e rap para reivindicar o que chama de ser 'marrom' — a presença indígena, mestiça e não branca que, segundo ele, constitui a América Latina real. Num momento em que a cultura latino-americana ganha projeção global, sua estreia brasileira é também um gesto político e estético de recusa ao apagamento das próprias raízes.
Milo J estreia no Brasil defendendo identidade: 'a Argentina é marrom'
Marrom da terra, do metal desgastado, das coisas que carregam história
Por que ele escolhe a palavra "marrom" especificamente? Parece uma escolha deliberada de linguagem.
É exatamente isso. Ele está reclamando um termo que poderia ser pejorativo e transformando-o em afirmação. Marrom é a cor da terra, da história, das coisas que carregam peso. Não é branco, não é preto — é mestiço, é latino-americano.
Mas a gente precisa ser cuidadoso aqui. Ele usa a palavra em entrevista, mas quanto disso realmente permeia a obra? Ele menciona explicitamente em "Solifican12", mas em quantas outras faixas isso aparece de forma clara?
E como isso ressoa com o público argentino? Ele é periférico, de Morón. Essa conversa sobre identidade mestiça é comum lá ou é algo que ele está trazendo?
A Argentina tem uma história complicada com isso. Há muito tempo o país se vê como europeu, branco. Milo J está desafiando essa narrativa, especialmente ao trazer o folclore do norte, que é muito mais indígena e mestiço.
Certo, mas a gente não sabe exatamente qual é a recepção disso na Argentina. O artigo foca na perspectiva dele, não em como o público argentino está respondendo.
E a conexão com Bad Bunny? Ele diz que se inspira mais pela atitude. Qual é a diferença entre o que Bad Bunny faz e o que Milo J está fazendo?
Bad Bunny é porto-riquenho, trabalha com reggaeton e trap, tem um alcance massivo. Milo J está misturando folclore argentino com trap — é mais enraizado em tradição local, menos global em sonoridade.
Embora a gente deva notar que Milo J também está em turnê mundial, apresentou-se no Tiny Desk da NPR. Ele não é exatamente um artista local. Ele está globalizando essa estética.
Então ele está fazendo o que Bad Bunny faz — levar identidade cultural para um palco internacional — mas com uma sonoridade diferente?
Sim. E talvez com uma abordagem mais explicitamente ligada à ancestralidade e à espiritualidade. Ele fala sobre umbanda, sobre cerimônias, sobre raízes.
Embora, novamente, a gente só tenha a perspectiva dele sobre isso. Não temos depoimentos de produtores, de pessoas da comunidade de umbanda, de musicólogos que possam contextualizar essas escolhas.
Der Puls
- Com apenas 19 anos e uma apresentação no Tiny Desk que o projetou internacionalmente, Milo J chega ao Brasil como um dos nomes mais urgentes da música urbana latino-americana.
- Seu álbum 'La Vida Era Más Corta' provoca ao fundir chacareras, milongas e carnavalitos com trap — uma colisão deliberada entre ancestralidade e contemporaneidade que desafia o que se espera de um artista jovem da periferia.
- A palavra 'marrom' que ele usa para se definir carrega tensão: é uma reapropriação de um termo historicamente usado para apagar identidades mestiças e indígenas na Argentina e no continente.
- Ao incorporar um canto de cerimônia de umbanda gravado no Brasil em 'Recordé', Milo J navega com cuidado por territórios culturais sensíveis, sinalizando que sua busca é de profundidade, não de exotismo.
- Sua trajetória ecoa a de Bad Bunny — não pela sonoridade, mas pela atitude de priorizar identidade cultural sobre apelo comercial —, e o contexto internacional parece cada vez mais receptivo a essa postura.
Aos 19 anos, o argentino Milo J chega ao Brasil pelo Rock In Rio carregando mais do que músicas: traz uma afirmação de identidade que atravessa toda sua obra. Nascido na periferia de Buenos Aires, ele mistura folclore andino e rioplatense com trap e rap para reivindicar o que chama de ser 'marrom' — a presença indígena, mestiça e não branca que, segundo ele, constitui a América Latina real. Num momento em que a cultura latino-americana ganha projeção global, sua estreia brasileira é também um gesto político e estético de recusa ao apagamento das próprias raízes.
Camilo Joaquín Villarruel, o Milo J, tem 19 anos e chega ao Brasil neste sábado para se apresentar no palco Supernova do Rock In Rio, seguido por shows em São Paulo no festival Mucho! Ciudad Sonora. Nascido em Morón, na periferia de Buenos Aires, ele construiu uma obra inteira em torno de uma palavra: marrom. "A Argentina também é marrom e a América Latina é marrom", afirma. O termo aponta para a diversidade indígena, mestiça e não branca que, segundo ele, constitui o continente — e permeia cada escolha artística que fez.
Seu álbum 'La Vida Era Más Corta', lançado no ano anterior, nasceu de uma viagem a Santiago del Estero, no norte da Argentina, de onde parte de sua família é originária. Lá, ele mergulhou em chacareras, zambas e outros ritmos folclóricos não como pesquisa musical, mas como busca pessoal. O resultado são 15 faixas que entrelaçam guitarras criollas, bombos legueros e bandoneón com a linguagem do trap e do rap. Em 'Recordé', ele incorpora um canto de cerimônia de umbanda gravado no Brasil — "não era apenas um som bonito para usar como sample, mas algo com significado espiritual e cultural muito profundo", explica.
A faixa 'Solifican12' é onde a identidade mestiça aparece de forma mais explícita, com a letra: "Moreno cor de barro que aprendeu a viver com nada e, com um pouco, já tem tudo". Milo J nunca viu o termo como insulto — pelo contrário, quis que toda a estética do disco refletisse essa afirmação, do som às imagens.
Ele reconhece a influência de Bad Bunny, mas é a atitude que o inspira, não a música: a decisão de um artista com alcance global de colocar o foco na própria identidade e cultura. Milo J não vê sua postura como um debate a ser travado de um palco, mas se alguém sair de seus shows olhando de outra forma para as raízes latino-americanas, diz ele, será muito bem-vindo.
Aos 19 anos, Camilo Joaquín Villarruel, conhecido como Milo J, chega ao Brasil neste fim de semana para sua estreia no país — um momento que marca não apenas o lançamento de um artista em ascensão, mas também a consolidação de uma postura estética que atravessa toda sua obra. O cantor argentino, nascido em Morón, na periferia de Buenos Aires, defende com clareza uma identidade que ele resume em uma palavra: marrom. "Já disse várias vezes que eu sou marrom, a Argentina também é marrom e a América Latina é marrom. Vejo isso nas pessoas, nos bairros, na terra, na história e na música", afirma em entrevista. O termo não é casual. Ele aponta para a diversidade de povos, a presença indígena, mestiça e não branca que constitui seu país e seu continente — uma afirmação que permeia cada decisão artística que Milo J tomou ao longo de sua trajetória.
Sua estreia brasileira acontece neste sábado no palco Supernova do Rock In Rio, seguida por apresentações em São Paulo nos dias 13 e 15 de setembro, no festival Mucho! Ciudad Sonora, na Audio. O artista chega em um momento de projeção internacional crescente da cultura latino-americana, fenômeno que ganhou força especialmente após o lançamento de "Debí Tirar Más Fotos", álbum de Bad Bunny que dominou as paradas globais em 2025 e levou o porto-riquenho ao intervalo do Super Bowl em fevereiro. Milo J reconhece a importância desse movimento, mas destaca o que o inspira de verdade: "O que o Bad Bunny fez me parece muito valioso. É um artista com um alcance enorme que decidiu colocar o foco na própria identidade, na própria cultura e nos sons que o representam. Isso me inspira muito mais pela atitude do que pela parte musical".
O caminho de Milo J até aqui começou cedo. Ainda adolescente, ele produzia canções em casa, partindo de referências de trap e rap. O alcance global, porém, consolidou-se quando sua apresentação foi exibida no Tiny Desk, programa de performances da rádio americana NPR, em maio deste ano. Naquele episódio, ele interpretou faixas de "La Vida Era Más Corta", seu álbum lançado em setembro do ano anterior, um trabalho que fala sobre memória, identidade e pertencimento através de uma sonoridade que mescla tradição e contemporaneidade de forma deliberada.
O disco contém 15 faixas divididas em duas partes. Sua produção começou com uma viagem a Santiago del Estero, região no norte da Argentina de onde parte de sua família é originária. Lá, Milo J mergulhou em folclore, chacareras, zambas e outras músicas latino-americanas. "Eu não vivi isso tanto como uma pesquisa musical, mas como uma busca pessoal. Lá, entendi muitas coisas que não tinham a ver apenas com a música, mas também com as minhas raízes e com a minha forma de enxergar a vida", explica. Essa experiência transformou-se em um trabalho onde chacareras — ritmo tradicional argentino marcado pela dança —, milongas — gênero do Rio da Prata que antecedeu o tango —, carnavalitos de origem andina e murgas, manifestações populares ligadas ao Carnaval, convivem com instrumentos como guitarras criollas, bombos legueros e bandoneón, tudo isso atravessado pela linguagem do trap e do rap.
A abertura do álbum, "Bajo de la Piel", já antecipa essa mistura entre tradição e sonoridade contemporânea. "Niño" apresenta um som mais melódico e aborda perda e memória, embora não seja autobiográfica. Segundo Milo J, a canção parte da ideia de pessoas que perderam alguém importante e continuam sentindo sua presença. "À primeira vista, ela parece uma canção de ninar, mas, à medida que avança, revela outra história. A música pode soar triste, mas, para mim, a mensagem é o contrário. É sobre aprender a abraçar tudo o que vivemos sem ficar preso apenas à dor", descreve. Em "Recordé", o artista incorpora um canto de uma cerimônia de umbanda gravada no Brasil, uma escolha que reflete seu cuidado com a profundidade cultural: "Fizemos isso com muito cuidado e respeito, entendendo que não era apenas um som bonito para usar como sample, mas algo com um significado espiritual e cultural muito profundo".
A faixa "Solifican12" é onde a ideia de "ser marrom" aparece de forma mais explícita. Retomando referências do folclore argentino, ela fala sobre identidade mestiça e pertencimento. A letra diz: "Moreno cor de barro que aprendeu a viver com nada e, com um pouco, já tem tudo". Milo J nunca viu o termo como um insulto. Pelo contrário, quis que todo o universo do disco refletisse essa afirmação. "O marrom da terra, do metal desgastado, da chapa enferrujada, das coisas que carregam história. Da música à estética, tudo nasce desse mesmo lugar", afirma.
Quanto ao significado mais amplo de sua obra, Milo J é direto: não vê sua defesa de identidade como um debate para ser travado de um palco. "Se isso também convida as pessoas a olharem de outra forma para as nossas raízes ou a falarem sobre coisas que muitas vezes ficam invisibilizadas, sejam muito bem-vindas", diz. Sua estreia brasileira, portanto, não é apenas o lançamento de um artista em ascensão. É a chegada de alguém que construiu uma obra inteira em torno da recusa de apagar ou minimizar as próprias origens — e que encontra, neste momento, um público e um contexto internacional cada vez mais receptivos a essa postura.
Bemerkenswerte Zitate
Já disse várias vezes que eu sou marrom, a Argentina também é marrom e a América Latina é marrom. Vejo isso nas pessoas, nos bairros, na terra, na história e na música— Milo J
O que o Bad Bunny fez me parece muito valioso. É um artista com um alcance enorme que decidiu colocar o foco na própria identidade, na própria cultura e nos sons que o representam. Isso me inspira muito mais pela atitude do que pela parte musical— Milo J