Argentina negocia compra de 24 caças F-16 usados por US$ 300 milhões e pacote de até US$ 940 milhões em armamentos dos EUA sob aprovação de Trump. Milei aproveita reivindicação das Malvinas para mobilizar apoio doméstico, com desaprovação em 58%, enquanto Trump pressiona Reino Unido sobre defesa.
Milei tenta rearmar a Argentina com apoio decisivo de Trump
Milei tenta repetir o truque como farsa, aumentando o tom de sua reivindicação
Por que Trump está tão interessado em ajudar Milei a se reeleger? Parece um investimento pesado em um país que não é estratégico para os EUA.
Milei é exatamente o tipo de líder que Trump quer na região — populista, ideologicamente alinhado, disposto a desafiar a ordem estabelecida. A Argentina agora integra a iniciativa Escudo das Américas, que é central na estratégia de segurança de Trump para o hemisfério.
Mas precisamos ser claros: o apoio de Trump também serve aos interesses americanos. Ao pressionar o Reino Unido sobre as Malvinas, Trump está usando a Argentina como alavanca para forçar Londres a gastar mais com defesa. É uma negociação de poder, não altruísmo.
E quanto ao rearmamento em si? Faz sentido militar a Argentina comprar F-16 e Stryker?
Não, não faz muito sentido se você olha para as ameaças reais. A Argentina não tem rivalidades regionais significativas. O Brasil não está se preparando para guerra. As Malvinas têm quatro Eurofighters que superam os F-16 argentinos. É mais sobre política doméstica.
Exatamente. Milei tem 58% de desaprovação. Ele precisa mobilizar apoio, e a questão das Malvinas é um tema que move a Argentina como poucos. O rearmamento é, em grande parte, teatro político com dinheiro real.
Mas a Argentina consegue pagar por tudo isso? O país está em crise econômica.
Essa é a pergunta que ninguém consegue responder com segurança. A Argentina gasta apenas 0,5% do PIB em defesa, metade do Brasil. Mesmo com a ajuda de US$ 20 bilhões que Trump aprovou em 2025, a matemática não fecha.
E aqui está o risco real: se Milei não conseguir financiar esse rearmamento, ele fica preso entre promessas feitas e realidade econômica. Isso pode destruir sua reeleição tão rapidamente quanto a ajuda de Trump a construiu.
Os militares brasileiros estão preocupados com tudo isso?
Segundo fontes da cúpula de defesa brasileira, reconhecem que a Argentina está defasada, mas isso não alterou as relações entre os estamentos fardados. Não há tensão militar real entre os países.
O que é importante notar é que o Brasil gasta sete vezes mais em defesa do que a Argentina em valores nominais. Mesmo que Milei complete todo esse rearmamento, a disparidade permanece enorme. Não é uma corrida armamentista simétrica.
O Pulso
- Argentina negocia compra de 24 caças F-16 usados por US$ 300 milhões em cinco anos
- Pacote de até US$ 940 milhões em armamentos adquiridos dos EUA sob aprovação de Trump
- Desaprovação de Milei em 58% segundo pesquisa de agosto de 2026
- Argentina gasta apenas 0,5% do PIB em defesa, metade do Brasil
- Trump aprovou ajuda de US$ 20 bilhões em 2025, vista como central na vitória eleitoral de Milei
Argentina negocia compra de 24 caças F-16 usados por US$ 300 milhões e pacote de até US$ 940 milhões em armamentos dos EUA sob aprovação de Trump. Milei aproveita reivindicação das Malvinas para mobilizar apoio doméstico, com desaprovação em 58%, enquanto Trump pressiona Reino Unido sobre defesa.
Javier Milei busca reeleger-se em 2027 com apoio de Donald Trump em ambicioso programa de rearmamento argentino, adquirindo caças F-16, blindados Stryker e helicópteros, enquanto levanta questões sobre financiamento em contexto de crise econômica.
Javier Milei chegou ao poder na Argentina com uma promessa de transformação radical. Agora, enfrentando uma desaprovação de 58% segundo pesquisa de agosto, ele tenta se reeleger em 2027 com uma estratégia que combina nacionalismo territorial e rearmamento militar acelerado — e Donald Trump é peça central nesse projeto.
O apoio americano vai muito além de declarações retóricas. Trump tem facilitado ativamente a aquisição de equipamento militar de ponta pela Argentina, desde caças de combate até blindados e helicópteros. O negócio mais visível é a compra de 24 caças F-16 usados da Dinamarca por US$ 300 milhões ao longo de cinco anos, com um segundo lote de seis aviões a chegar em breve. Mas há mais: um pacote de até US$ 940 milhões em armamentos e sistemas de apoio adquiridos diretamente dos EUA, oito blindados Stryker negociados no ano passado com acordo para mais 235 unidades assinado em agosto, e quatro helicópteros Black Hawk por US$ 140 milhões apenas este mês. Para um país que não possuía uma Força Aérea operacional, essa transformação é sem precedentes.
O que torna essa corrida armamentista peculiar é a falta de um inimigo claro. A Argentina não enfrenta rivalidades regionais significativas. Milei infla discursos contra Lula e em apoio a Flávio Bolsonaro, mas nada disso se traduz em tensão militar real com o Brasil. Os militares brasileiros, segundo fontes da cúpula de defesa, reconhecem a defasagem argentina, mas isso não alterou as relações entre os estamentos fardados dos vizinhos. Então contra quem, afinal, a Argentina se rearmaria?
A resposta que Milei oferece é as Malvinas. Ele invoca a reivindicação britânica sobre o arquipélago — um tema que mobiliza a Argentina tanto quanto a seleção de futebol — para justificar o investimento militar e ganhar apoio doméstico. Aumentou o tom da reivindicação em discurso na ONU, anunciou uma nova base naval e propôs penalidades para quem explorar petróleo ao redor do arquipélago. A guerra de 1982, quando a ditadura ocupou brevemente as ilhas antes de ser expulsa, permanece um trauma nacional que Milei tenta explorar. Trump, por sua vez, usa a questão das Falkland como ferramenta para pressionar o Reino Unido, que considera um aliado vacilante sob governos trabalhistas recentes, a aumentar gastos com defesa.
Mas há um problema fundamental: a Argentina simplesmente não tem dinheiro. O país gastou apenas 0,5% do PIB em defesa em 2025 — US$ 3,7 bilhões incluindo inativos — ocupando o 46º lugar no ranking global e o 5º na América Latina. O Brasil gasta o dobro em proporção do PIB e sete vezes mais em valores nominais. A última vez que a Argentina investiu pesadamente em defesa foi em 1978, durante o auge da ditadura, quando dedicou 4,72% do PIB ao setor. Desde 2004, nunca ultrapassou 1% do PIB. Como o país financiará esse rearmamento enquanto enfrenta uma grave crise econômica permanece uma questão aberta.
Milei já recebeu generosidade de Trump antes. Em 2025, o presidente americano aprovou um pacote de ajuda de US$ 20 bilhões, visto como central na vitória eleitoral de Milei e seus aliados nas eleições legislativas de outubro. Mas mesmo com esse suporte, a matemática do rearmamento não fecha facilmente. O presidente colocou no orçamento de 2027 autorização para iniciar compras de duas fragatas e três submarinos adicionais — desta vez aos franceses do Naval Group, potencialmente fabricados nos mesmos estaleiros que produziram submarinos Scorpène para o Brasil até 2025.
A realidade militar no terreno também complica a narrativa de ameaça às Malvinas. As ilhas britânicas contam com quatro caças Eurofighter Typhoon, que superam em capacidade muitos dos F-16 argentinos. A Marinha argentina, entretanto, nunca se recuperou da guerra de 1982. Possui apenas três fragatas em condições desconhecidas e dois submarinos parados. Mesmo com novos equipamentos, a Argentina estaria longe de representar uma ameaça militar credível ao Reino Unido.
O que emerge é um quadro de alianças geopolíticas em transformação. Milei se encaixa perfeitamente no perfil de líder que Trump busca — populista de direita, ideologicamente alinhado, disposto a desafiar a ordem estabelecida. A Argentina é membro fundador da iniciativa Escudo das Américas, grupo de segurança criado por Trump que declarou o PCC e Comando Vermelho como entidades terroristas no mesmo dia em que o americano ameaçou novas ações militares na região. O rearmamento, portanto, não é apenas sobre as Malvinas ou sobre o Brasil. É sobre a Argentina se posicionar dentro de uma nova arquitetura de segurança hemisférica liderada por Washington. Se Milei conseguirá financiar essa ambição enquanto sua economia permanece frágil, e se os eleitores argentinos acreditarão que caças F-16 resolvem seus problemas reais, são questões que definem não apenas seu futuro político, mas o da região.
Citações Notáveis
A defasagem argentina é muito grande e, mesmo que Milei viva às turras com Lula, nada disso se refletiu na relação entre os estamentos fardados dos vizinhos— Integrante da cúpula militar brasileira