Milei escolhe Malvinas em batalha contra queda de popularidade

A guerra de 1982 pelas Malvinas resultou em 649 mortos argentinos e 255 britânicos.
Situação colonial que se perpetua até os nossos dias
Como Milei descreveu a presença britânica nas Malvinas em pronunciamento de rede nacional.
Mark

Por que Milei escolhe agora falar sobre Malvinas se ele havia elogiado Thatcher e tentado se aproximar do Reino Unido?

Mimi

Porque sua aprovação caiu drasticamente. Uma causa que une argentinos de esquerda a direita é politicamente valiosa quando você está em dificuldade. Trump abriu a porta ao questionar a neutralidade americana, e Milei entrou por ela.

Luke

Mas a pesquisa de agosto mostra desaprovação em 58%, apenas quatro pontos abaixo do mês anterior. Não sabemos ainda se essa estratégia está funcionando ou se é apenas ruído político.

Mark

O que Dachary quer dizer quando fala que o governo "carece de senso comum"?

Mimi

Que permitir um navio britânico em Ushuaia, mesmo que tecnicamente legal, viola uma prática estabelecida. Milei não entende os códigos não escritos da política argentina sobre Malvinas.

Luke

Mas Dachary mesmo admite que nenhuma lei foi violada. Então estamos falando de protocolo, não de fato jurídico. É importante não confundir os dois.

Mark

E quanto às sanções contra as empresas? Elas têm alguma força real?

Mimi

Teoricamente sim, mas a questão é se Argentina pode realmente impô-las a empresas que operam a 500 quilômetros de distância sob controle britânico. É mais gesto político que ação concreta.

Luke

Exatamente. As denúncias penais contra as petrolíferas também não têm jurisdição real. Milei está fazendo barulho, não mudando fatos no terreno.

  • Milei tem 60% de desaprovação a menos de um ano das eleições presidenciais
  • Governo anuncia sanções a 15 empresas e denúncias contra 5 petrolíferas por operarem sob licenças britânicas
  • Guerra de 1982 resultou em 649 mortos argentinos e 255 britânicos
  • Milei havia elogiado Margaret Thatcher em 2023, gerando desconfiança sobre sinceridade atual

Milei organiza pronunciamento em rede nacional afirmando que Malvinas são argentinas 'por história e por direito', descrevendo a presença britânica como 'situação colonial'. Governo anuncia sanções a 15 empresas e denúncias penais contra cinco petrolíferas, argumentando que violam soberania argentina ao operarem sob licenças britânicas.

Com aprovação em queda, presidente argentino Javier Milei intensifica reivindicação sobre as Ilhas Malvinas, impondo sanções a empresas e apresentando denúncias contra petrolíferas britânicas que operam no arquipélago.

Com menos de um ano para as eleições presidenciais e uma taxa de desaprovação próxima a 60%, Javier Milei encontrou uma causa capaz de unir argentinos de diferentes espectros políticos: a reivindicação das Ilhas Malvinas, um arquipélago a menos de 500 quilômetros da costa argentina que permanece sob controle britânico desde o século 19. A oportunidade surgiu quando Donald Trump sinalizou, no início de setembro, que não descartaria revisar a posição de neutralidade que Washington mantém sobre a soberania do território — um gesto que agradava o aliado argentino enquanto desafiava o premiê trabalhista britânico Andy Burnham.

Milei reagiu em três dias com um pronunciamento em rede nacional cercado por seu gabinete. O presidente ultraliberal declarou que as Malvinas são argentinas "por história e por direito", caracterizando a presença britânica como uma "situação colonial que se perpetua até os nossos dias" e prometendo medidas práticas para recuperar o território. A primeira delas veio na terça-feira seguinte, quando o governo anunciou sanções contra 15 empresas e empresários acusados de violar a soberania argentina. Esse grupo se somava a outras 45 pessoas e companhias já visadas desde a semana anterior. No dia anterior, o governo havia apresentado denúncias penais contra cinco petrolíferas que operam no arquipélago, argumentando que funcionam sob licenças do "governo ilegítimo do Reino Unido" sem autorização da Argentina, violando assim a legislação nacional.

O tema é especialmente sensível para Milei porque o expõe a críticas sobre sua consistência política. Em 2023, antes de ser eleito, ele havia descrito Margaret Thatcher como uma das "grandes líderes" da história da humanidade durante um debate — uma afirmação que nunca foi perdoada por setores da população argentina. Thatcher estava no poder em 1982, quando Buenos Aires tentou recuperar as ilhas militarmente e saiu derrotada de um conflito que matou 649 argentinos e 255 britânicos. Após vencer as eleições, Milei tentou se aproximar do Reino Unido através de encontros com autoridades britânicas, uma estratégia controversa que gerou desconfiança sobre suas verdadeiras intenções.

Em abril do ano passado, no Dia do Veterano e dos Caídos na Guerra de Malvinas, Milei foi além e sugeriu que o objetivo era tornar a Argentina tão próspera que os habitantes das ilhas preferissem voluntariamente ser argentinos, dispensando "dissuasão ou persuasão". Essa declaração foi interpretada como um reconhecimento implícito de que a maioria dos ilhéus deseja permanecer sob soberania britânica — uma posição que contradiz a retórica de recuperação territorial que agora adota.

Outra controvérsia recente envolveu um navio petroleiro com bandeira britânica que atracou no porto de Ushuaia em 24 de agosto, permanecendo apenas algumas horas. O incidente desencadeou conflito político com o governo da Terra do Fogo, onde fica a cidade. Andrés Dachary, secretário provincial para Assuntos das Malvinas, Antártica e Ilhas do Atlântico Sul, afirmou à Folha que tal evento nunca havia ocorrido antes. Embora reconhecesse que nenhuma lei foi tecnicamente violada, Dachary criticou a falta de "senso comum" do governo Milei, observando que ações impensáveis em tempos anteriores agora precisam ser regulamentadas formalmente. Em publicação na rede X, o secretário questionou a sinceridade do discurso presidencial, lembrando que pouco mais de um ano antes as mais altas autoridades do governo celebravam a "amizade perpétua" com o Reino Unido no Teatro Colón.

O impacto dessa mudança de postura na popularidade de Milei permanece incerto. A pesquisa mais recente da AtlasIntel, realizada para a Bloomberg News em agosto, mostrou que sua desaprovação caiu quatro pontos em relação ao mês anterior, mas ainda permanecia em 58%. O gesto de Trump, porém, reforça um padrão: Milei tem sido recompensado por uma diplomacia praticamente limitada aos Estados Unidos e Israel. Na terça-feira em que anunciou as sanções, enquanto o Reino Unido impunha restrições a Israel por assentamentos na Cisjordânia, o ministro de Segurança Nacional israelense Itamar Ben Gvir pediu publicamente que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reconhecesse as Malvinas como um "território argentino ocupado" que os britânicos "roubaram violentamente" — um apoio que ilustra as alianças que Milei cultivou.

As Malvinas são argentinas por história e por direito, e a presença britânica representa uma situação colonial que se perpetua até os nossos dias
— Javier Milei, em pronunciamento em rede nacional
O governo Milei carece de senso comum, e é por isso que temos que avançar com marcos regulatórios, porque as ações políticas que estão sendo realizadas na Argentina hoje eram impensáveis em outros tempos
— Andrés Dachary, secretário provincial para Assuntos das Malvinas
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