Brasil possui ilhas de excelência educacional em diferentes regiões: Ceará nos anos iniciais, Alagoas nos finais e Goiás no ensino médio. Ceará premia escolas com melhores resultados e as vincula a escolas com dificuldades para compartilhamento informal de práticas pedagógicas.
Mesclando experiências: como transformar ilhas de excelência em educação nacional
Transformar ilhas de excelência em um país inteiro de excelência
Por que essas ilhas de excelência não se expandem naturalmente? Se o Ceará consegue, por que não conseguem os outros estados?
Porque sucesso local não é contagioso por osmose. Você precisa de um mecanismo. O Ceará criou um: amarrou o prêmio à obrigação de compartilhar. Sem isso, as boas escolas seguem boas e as ruins seguem ruins.
Mas o modelo cearense depende de uma relação direta entre duas escolas. E se elas não se entendem? Se a escola boa não sabe ensinar o que sabe?
Ótima pergunta. É por isso que o Chile faz diferente. Documenta tudo, publica, tira a dependência da relação pessoal. Mas perde a conversa viva, o contexto, o jeito que as coisas realmente funcionam.
Então a proposta é fazer os dois. Mas isso não fica redundante? Pareamento mais documentação?
Não. Um alimenta o outro. A documentação dá segurança e acesso a quem não tem relação direta. O pareamento mantém a conversa viva, o aprendizado contextualizado. Juntos, cobrem mais gente.
Quem teria que fazer isso? Qual é o ator que falta?
O governo federal. Ele teria que enviar equipes aos estados que funcionam bem, documentar, publicar, e depois estimular as parcerias. Não é complicado. É só decisão.
E por que não está acontecendo?
Porque é mais fácil criar programa novo do que aprender com quem já acertou. Porque reconhecer que o Ceará sabe mais que Brasília é politicamente incômodo. Porque ninguém está forçando.
O Pulso
- Ceará destaca-se nos anos iniciais; Alagoas nos anos finais; Goiás no ensino médio
- Prêmio Escola Nota 10 do Ceará, criado em 2009, vincula escolas bem-sucedidas a escolas com dificuldades
- Chile documenta e publica formalmente práticas de escolas bem-sucedidas no programa 'Se Puede'
- Pesquisadores da UFC encontraram resultados positivos de aumento de aprendizagem no Ceará
Brasil possui ilhas de excelência educacional em diferentes regiões: Ceará nos anos iniciais, Alagoas nos finais e Goiás no ensino médio. Ceará premia escolas com melhores resultados e as vincula a escolas com dificuldades para compartilhamento informal de práticas pedagógicas.
Artigo propõe combinar estratégia cearense de pareamento de escolas com documentação chilena de boas práticas para disseminar excelência educacional além das ilhas de sucesso existentes no Brasil.
O Brasil tem escolas excelentes espalhadas por aqui e ali. O Ceará brilha nos anos iniciais. Alagoas se destaca nos anos finais. Goiás lidera no ensino médio. Há décadas, o Saeb — o sistema nacional de avaliação da educação básica — documenta essas ilhas de excelência, essas bolhas de sucesso que existem em diferentes cantos do país. O problema é que elas permanecem ilhas. O desafio real é transformar essas exceções em regra, fazer com que a qualidade que existe em alguns lugares chegue a todos.
O Ceará encontrou um caminho criativo para isso. Em 2009, o governo estadual criou o Prêmio Escola Nota 10, uma iniciativa que não apenas reconhece as escolas com os melhores resultados no Spaece — o sistema de avaliação cearense — mas as coloca em uma relação de mentoria com escolas que enfrentam dificuldades. A mecânica é inteligente: as escolas que se saem bem recebem 75% do prêmio em dinheiro imediatamente, mas só ganham os 25% restantes se ajudarem uma escola com resultados menores a melhorar. Do outro lado, as escolas com desempenho baixo recebem metade do prêmio de cara, mas só conquistam a outra metade se elevarem seus resultados a um patamar mínimo estabelecido. O que acontece no meio é um diálogo direto e sem intermediários entre as escolas que funcionam bem e as que precisam melhorar. Não há manuais formais, não há documentação escrita das práticas. É conversação, é troca, é aprendizado na prática. Pesquisadores da Universidade Federal do Ceará avaliaram o programa e encontraram resultados positivos: a aprendizagem no estado aumentou.
Mas há outro jeito de fazer isso, e o Chile mostrou. O programa chileno chamado "Se Puede: Todos por la Educación" funciona de forma bem diferente. Lá, o governo identifica as escolas com bom desempenho, envia uma equipe do Ministério da Educação para documentar tudo — as práticas pedagógicas, as estratégias de gestão, o que funciona — e depois publica tudo em um livro chamado "É Possível". Qualquer pessoa pode consultar. Qualquer escola pode aprender. Não depende de pareamento, não depende de uma relação bilateral entre duas instituições. É conhecimento público, disponível, acessível.
A proposta que emerge dessa comparação é simples e poderosa: por que não fazer os dois ao mesmo tempo? Por que não combinar a abordagem cearense com a chilena? O governo federal poderia enviar equipes às nossas ilhas de excelência — ao Ceará, a Alagoas, a Goiás e a outros lugares onde a educação funciona bem — para documentar formalmente o que essas escolas fazem. Não seria uma imposição de cima para baixo, um ministério descendo com respostas prontas. Seria o oposto: o ministério aprendendo com os territórios, com quem já descobriu como fazer funcionar.
Em paralelo, esse conhecimento documentado poderia alimentar parcerias entre escolas, estimulando que territórios troquem práticas informalmente, usando como base a documentação pública das boas práticas. As escolas que enfrentam dificuldades teriam acesso tanto ao diálogo direto com escolas que funcionam bem quanto a um registro escrito e acessível do que essas escolas fazem. Seria o melhor dos dois mundos: a troca viva e contextualizada do modelo cearense, mais a sistematização e a democratização do acesso ao conhecimento do modelo chileno.
A pergunta que fica é a mais incômoda: o que nos impede de fazer isso? Os ingredientes existem. As ilhas de excelência estão aí. O conhecimento sobre como replicar boas práticas está documentado em outros países. A tecnologia para publicar e compartilhar informação é trivial. O que falta é decisão política, vontade de transformar exceções em regra, coragem de aprender com quem já acertou e disposição de espalhar esse aprendizado por todo o país.
Citações Notáveis
O desafio como nação é sair de ilhas de excelência para um país inteiro de excelência— Proposta central do artigo
A estratégia brasileira envolve parear as escolas de alta e baixa aprendizagem e fomentar boas práticas por meio de um estímulo a um diálogo direto e não mediado— Descrição do modelo cearense