Mercado reage positivamente à vantagem de Flávio no 1º turno

A pauta econômica precisa ser prioridade já na lua de mel
Analista alerta que a sustentação da alta do mercado depende de implementação rápida de ajustes fiscais.
Mark

Por que o mercado reagiu tão positivamente a um resultado que, em tese, ainda deixa tudo em aberto até o segundo turno?

Mimi

Porque o resultado do primeiro turno não estava precificado. Os investidores já antecipavam a possibilidade, mas ver Flávio liderando muda a probabilidade de um ajuste fiscal, que é o que o mercado quer.

Luke

Mas isso é especulação sobre o que pode acontecer, não sobre o que já aconteceu. O segundo turno ainda está aberto.

Mimi

Verdade, mas os analistas do BTG e do UBS BB analisaram a composição de votos e concluem que é difícil Lula vencer com um empate no primeiro turno, dado que a maioria dos candidatos restantes está posicionada no centro-direita.

Mark

E se Flávio vencer mesmo, quanto o mercado pode ganhar?

Mimi

O BTG projeta um potencial de ganho entre 11% e 45% para as ações brasileiras, dependendo de quanto o Ibovespa suba. O dólar poderia cair para R$ 4,50 a R$ 4,70.

Luke

Mas isso depende de algo que ainda não aconteceu: a implementação de um ajuste fiscal. Gustavo Sung da Suno Research deixa claro que sem isso, em seis a doze meses os ruídos podem voltar.

Mimi

Exato. A alta é condicionada. Se Flávio vencer mas não priorizar a agenda econômica na transição, a expectativa se frustra.

Mark

Qual foi o papel da volatilidade nessa reação?

Mimi

O VIX Brasil bateu recorde em 32,77 pontos na sexta-feira, refletindo a incerteza eleitoral. Mas mesmo com essa volatilidade, o mercado subiu, porque os investidores estavam posicionados para um resultado que consideravam mais provável.

Luke

Ou seja, o mercado já tinha precificado parcialmente essa possibilidade nos dias anteriores. A Bolsa acumulou alta de 4,71% na semana anterior ao primeiro turno.

Mark

E quanto aos setores? Todos ganham igual?

Mimi

Não. Bancos, varejo, construtoras e small caps devem ganhar mais porque são sensíveis a juros e prêmio de risco. Exportadoras como Vale tendem a ficar atrás porque um real mais forte prejudica suas margens.

  • Contrato futuro do real sobe 4,86% e índice EWZ avança 3,88% na segunda-feira pós-eleições
  • BTG Pactual projeta potencial de ganho entre 11% e 45% para ações brasileiras em caso de vitória de Flávio
  • Dólar pode cair para R$ 4,50-4,70 com vitória de Flávio, ou subir para US$ 5,70-6,00 com reeleição de Lula
  • VIX Brasil bate recorde de 32,77 pontos na sexta-feira anterior ao primeiro turno
  • Bolsa acumula alta de 4,71% na semana anterior ao primeiro turno das eleições

Contrato futuro do real sobe 4,86% e índice EWZ avança 3,88% na segunda-feira pós-eleições, refletindo otimismo do mercado com resultado. Analistas projetam potencial de ganho entre 11% e 45% para ações brasileiras em caso de vitória de Flávio, com dólar podendo cair para R$ 4,50-4,70.

Analistas esperam alta da Bolsa e queda do dólar após resultado do primeiro turno das eleições, com vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Lula precificando cenário de ajuste fiscal.

Na madrugada de segunda-feira, 5 de outubro, os mercados financeiros brasileiros acordaram com uma leitura clara: a vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva no primeiro turno das eleições não estava precificada, e os investidores estavam prontos para reagir. O contrato futuro do real com vencimento em novembro de 2026 subia 4,86%. O índice MSCI Brazil EWZ, uma espécie de Ibovespa negociado nos Estados Unidos, avançava 3,88%. Analistas do mercado financeiro esperavam um pregão com maior apetite a risco e volatilidade, antecipando que o resultado eleitoral prolongaria a alta da Bolsa de Valores e promoveria uma redução nos juros futuros e no dólar.

A razão para o otimismo era estrutural, não emocional. Analistas enxergavam mais chances de um ajuste fiscal nas contas públicas com Flávio do que com Lula. Um governo do candidato do PL, segundo essa leitura, poderia beneficiar mais os ativos de renda variável. Fernando Siqueira, diretor da casa de análise Eleven, resumiu a aposta: liderando já no primeiro turno, as chances de Flávio ganhar eram muito altas, e essa força da votação da oposição deveria gerar uma reação positiva no mercado. Leonardo Mendes, economista da Manchester Investimentos, chamou o cenário de maior reprecificação positiva dos ativos brasileiros no curto prazo.

Os números projetados pelos bancos eram ambiciosos. O BTG Pactual calculava que, se Flávio Bolsonaro vencesse, as ações brasileiras poderiam voltar rapidamente à sua média histórica de dez anos, implicando um potencial de ganho entre 11% e 20%. Se o Ibovespa subisse até um desvio-padrão acima da média, o upside poderia variar entre 32% e 45%. Por outro lado, a reeleição do presidente Lula poderia provocar uma correção de mercado, com o Ibovespa recuando cerca de 10%, o real se desvalorizando mais cerca de 10%, levando o dólar a uma faixa de US$ 5,70 a US$ 6,00. Márcio Gomes, fundador da Orus Capital, projetava que o dólar poderia cair para a faixa de R$ 4,70 a R$ 4,50 em uma eventual vitória de Flávio.

O ponto central não era o nome do candidato, mas a probabilidade de uma mudança na trajetória fiscal. Quando essa probabilidade aumenta, o prêmio de risco embutido nos juros longos tende a ceder, o que ajuda o real e os ativos domésticos. A expectativa também era de um fechamento da curva de juros, ou seja, uma precificação de taxas menores nos próximos anos, o que tende a valorizar a marcação a mercado de títulos do tesouro prefixados e ligados ao IPCA+ de longo prazo. Quanto menor forem os juros, menos vantajoso fica o investimento em renda fixa, o que tende a aumentar o fluxo de aportes em ativos mais arriscados. O crédito tende a ficar mais barato, estimulando o consumo e investimentos e reduzindo o peso da dívida sobre as empresas.

Nomes da equipe econômica do candidato do PL também eram bem recebidos pela Faria Lima, como a ex-presidente da Caixa Daniella Marques e o ex-ministro de Minas e Energia na gestão de Jair Bolsonaro, Adolfo Sachsida. A composição do Senado mais à direita era uma surpresa positiva para o mercado financeiro. Marcos Praça, diretor de análise da Zero Markets Brasil, observou que a composição do Congresso altera a percepção sobre governabilidade e capacidade de aprovação da agenda econômica a partir de 2027, um dos fatores que ajudaram a explicar a reação positiva do mercado após o primeiro turno de 2022.

O histórico recente oferecia uma lição de cautela. Quando áudios entre Flávio e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro vazaram em maio deste ano, o mercado reagiu negativamente, com o temor de investidores que isso levasse à derrota de Flávio nas urnas. No pregão seguinte à revelação, o dólar saltou 1,6% e a Bolsa caiu 0,6%. Naquele mês, estrangeiros tiraram R$ 13,3 bilhões do mercado acionário brasileiro. Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research, alertava que, em caso de vitória de Flávio, a expectativa de mudança tende a levar o Ibovespa para cima e o dólar para baixo no curtíssimo prazo. Para que isso se sustente, porém, a pauta econômica precisa ser prioridade já na lua de mel e na transição, com o ajuste das contas públicas e as demais diretrizes econômicas pautados, votados e colocados em prática. Sem isso, a expectativa se frustra e, em seis a doze meses, os ruídos podem voltar.

Paloma Brum, economista e consultora de investimentos na Peta Capital, esperava que ações de bancos, varejo, construtoras e as ações de empresas menores, chamadas small caps, liderassem a alta do Ibovespa, pois esses são os papéis mais sensíveis a juros e ao prêmio de risco doméstico. Exportadoras como Vale, Suzano e Klabin tenderiam a ficar atrás, porque um real mais forte tem certo grau de impacto sobre elas. Petrobras e estatais deveriam ganhar com a expectativa de menor intervenção, mas a ação da petrolífera já tinha subido bastante no pregão anterior.

Na sexta-feira anterior ao primeiro turno, a Bolsa de Valores encerrou com alta de 2,62%, aos 192.114 pontos, o maior patamar desde 22 de abril. O dólar encerrou em queda de 0,13%, cotado a R$ 5,216. O principal indicador de percepção de risco do mercado brasileiro, o VIX Brasil, registrou o segundo recorde seguido, fechando em 32,77 pontos, maior pontuação desde sua criação em 2024. O recorde anterior, de 32,39 pontos, havia ocorrido no dia anterior. Calculado a partir das opções sobre o Ibovespa B3, o VIX Brasil mede a volatilidade implícita esperada para os próximos 30 dias, funcionando como um termômetro da percepção de risco do mercado, também chamado de índice do medo.

Os mercados já anteciparam um pouco deste movimento nos últimos dias, mas a força da votação da oposição deve gerar uma reação positiva amanhã. Liderando já no primeiro turno, as chances de Flávio ganhar são muito altas.
— Fernando Siqueira, diretor da Eleven
Para que isso se sustente, a pauta econômica precisa ser prioridade já na lua de mel e na transição, com o ajuste das contas públicas e as demais diretrizes econômicas pautados, votados e colocados em prática. Sem isso, a expectativa se frustra e, em seis a doze meses, os ruídos podem voltar.
— Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research
Contáctanos FAQ