Mercado Livre entra em venda de medicamentos e acirra disputa com grandes farmácias

Medicamentos não são como outros produtos — confiança importa mais que preço
Analistas explicam por que as farmácias tradicionais mantêm vantagem apesar do alcance do Mercado Livre.
Mark

Por que as ações das farmácias caíram tanto se os analistas dizem que não há ruptura estrutural?

Mimi

Porque o mercado reage ao anúncio antes de processar a análise. Duzentos e nove milhões de visitas mensais é um número assustador quando você tem 14,8 milhões. Mas os analistas estão certos: as farmácias já entregam em uma hora, têm lojas espalhadas pela cidade, e medicamentos não são como outros produtos — confiança e disponibilidade importam mais que preço.

Luke

Mas quanto dessa confiança é real e quanto é apenas hábito? Se o Mercado Livre oferecer preços menores — e a CMED permite alguma variação — muitos consumidores podem migrar.

Mimi

Verdade, mas aí entra a regulação. A Anvisa ainda não regulamentou completamente as vendas por marketplace. A Abrafarma está questionando a legalidade. Isso pode frear o Mercado Livre mais do que qualquer vantagem competitiva das farmácias.

Mark

Então o modelo de parcerias que os analistas mencionam é mais provável que o Mercado Livre operando sozinho?

Mimi

Parece ser. O Mercado Livre ganha tráfego e logística, as farmácias ganham um novo canal. É menos disruptivo, mais complementar. E as grandes redes estão mais preparadas para isso que as pequenas drogarias independentes.

Luke

Mas ninguém sabe ainda se o Mercado Livre vai aceitar esse papel de intermediário ou se vai querer dominar o mercado. Tudo depende de como a empresa vai escalar — agressivamente com subsídios ou de forma mais orgânica.

Mark

E se a Anvisa não regulamentar rápido?

Mimi

Aí o Mercado Livre fica preso. Pode vender, mas sem segurança jurídica. As farmácias ganham tempo para consolidar suas operações digitais.

Luke

O que ninguém está dizendo é que medicamentos são uma categoria de alta frequência e margem controlada. Não é como roupas ou eletrônicos. O Mercado Livre pode ter tráfego, mas ganhar dinheiro com medicamentos é mais difícil.

  • Mercado Livre registrou 209 milhões de visitas em agosto, contra 14,8 milhões da RD Saúde
  • Ações de RD Saúde caíram 5,38%, Pague Menos 8% e Panvel 4,9% após o anúncio
  • 96% dos pedidos da RD Saúde são entregues em até uma hora através de canais próprios
  • Medicamentos podem representar 6,5% do volume bruto de mercadorias do Mercado Livre no Brasil até 2030

Mercado Livre começou a vender medicamentos com receita via plataforma própria em São Paulo, com entrega em até uma hora, pressionando ações de RD Saúde, Pague Menos e Panvel. A plataforma tem 209 milhões de visitas mensais contra 14,8 milhões da RD Saúde, mas farmácias tradicionais já entregam rápido e têm vantagens regulatórias e de confiança.

Mercado Livre lança serviço de venda de medicamentos com receita no Brasil, impactando ações de grandes redes de farmácias. Analistas veem pressão competitiva, mas não ruptura estrutural no setor.

O Mercado Livre abriu uma nova frente de competição no varejo farmacêutico brasileiro ao lançar a venda de medicamentos com receita através de sua plataforma. O movimento, anunciado recentemente, desencadeou uma reação imediata nos mercados financeiros: as ações da RD Saúde caíram 5,38%, Pague Menos recuou 8% e Panvel perdeu 4,9% na quinta-feira, com a tendência de queda continuando na sexta-feira.

A estratégia do Mercado Livre se apoia em dois pilares principais. O primeiro é o alcance: a plataforma registrou 209 milhões de visitas em agosto, enquanto a RD Saúde (que controla Raia e Drogasil) teve 14,8 milhões, Pague Menos 4,8 milhões e Panvel apenas 1,5 milhão. O segundo é a velocidade de entrega. A empresa lançou o serviço Chega Agora, que promete entregar produtos de até 15 quilogramas em até uma hora, começando por cinco bairros de São Paulo. Medicamentos e produtos de saúde apresentam taxas de conversão superiores a outras categorias no marketplace, e analistas do BTG Pactual estimam que a categoria poderia representar 6,5% do volume bruto de mercadorias da companhia no Brasil até 2030.

Porém, analistas não veem isso como uma ruptura estrutural no setor. As grandes redes de farmácias já possuem operações digitais consolidadas e uma vantagem que o Mercado Livre não pode simplesmente replicar: a capilaridade física. No segundo trimestre deste ano, 96% dos pedidos da RD Saúde foram retirados ou entregues em até uma hora através de seus canais próprios. A Pague Menos completou 83% de suas entregas em até duas horas, e a Panvel concentra 88% de suas vendas digitais em seus próprios canais. Essas lojas funcionam como pequenos centros de distribuição espalhados pela cidade, permitindo entregas rápidas que o Mercado Livre teria dificuldade em igualar sem uma infraestrutura similar.

A compra de medicamentos também segue lógica diferente de outras categorias de comércio eletrônico. Segundo analistas do BTG Pactual, o tráfego é frequentemente motivado por necessidade, urgência ou recorrência, as exigências de confiança são altas, e preço, embora importante, não é o único critério de decisão. Disponibilidade de dosagens específicas, possibilidade de substituição, suporte de farmacêuticos e retirada em loja são fatores que diferenciam as redes tradicionais. Além disso, os preços máximos dos medicamentos são regulados pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), o que reduz o espaço para uma guerra de preços agressiva.

O modelo que pode se consolidar, segundo analistas do Safra, é o de parcerias. O Mercado Livre não precisa operar sozinho; pode abrir seu marketplace para outras drogarias, funcionando como um novo canal de vendas para empresas que hoje seriam suas concorrentes. Nesse cenário, as farmácias continuariam responsáveis pela venda e dispensação dos medicamentos, enquanto o Mercado Livre entraria principalmente com tráfego, tecnologia e logística. Esse modelo reduz o risco de uma ruptura provocada pela operação própria da plataforma e pode até beneficiar as grandes redes em relação às farmácias independentes, que têm menos capacidade de integrar estoques e cumprir exigências regulatórias dentro de um marketplace.

A entrada do Mercado Livre também abriu uma disputa regulatória. A Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias) afirmou que vai questionar na Anvisa a legalidade da venda de medicamentos pela plataforma, argumentando que a comercialização por marketplaces continua proibida enquanto a agência não concluir a regulamentação. A Anvisa, por sua vez, afirmou que a mudança na legislação não libera automaticamente as vendas e que a aplicação das novas regras ainda depende de regulamentação específica. Fernando Yunes, CEO do Mercado Livre no Brasil, respondeu que a empresa identificou demanda dos próprios consumidores por medicamentos, apontando que a taxa de conversão é muito maior quando comparada aos demais produtos.

Os próximos passos serão determinantes. O Mercado Livre começa com uma operação própria em São Paulo, mas pretende usar outras redes para ampliar variedade e alcance geográfico. Analistas do BTG Pactual apontam que a principal questão a ser monitorada não é se o Mercado Livre vai entrar — essa direção já estava clara — mas quão agressivamente vai escalar o modelo de parcerias, quais redes de farmácias entrarão na plataforma e se a empresa usará incentivos ou subsídios para acelerar a adoção pelos consumidores. O setor enfrenta um concorrente com base de clientes e capacidade logística difíceis de ignorar, mas também grandes redes com operações digitais consolidadas, milhares de pontos físicos e capacidade de realizar entregas rápidas.

Vemos a entrada do Mercado Livre como mais uma fonte de pressão competitiva sobre o comércio eletrônico de farmácias, mas não necessariamente como uma grande ruptura para as grandes redes
— Analistas do BTG Pactual
A taxa de conversão de medicamentos é muito maior quando comparada aos demais produtos
— Fernando Yunes, CEO do Mercado Livre no Brasil
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