Mercado financeiro pede ao governo suspensão de novas regras dos FIDCs

Proibir apenas esses fundos não resolve a fraude
Gestor de special situations argumenta que restrições seletivas podem deslocar operações para estruturas menos transparentes.
Mark

Por que o mercado foi pego de surpresa? Não havia sinalização prévia?

Mimi

A resolução chegou sem aviso. Não houve o procedimento usual de consulta pública ou criação de um grupo de trabalho antes. O mercado acordou com a regra já em vigor.

Luke

Mas a resolução já estava em vigor quando o mercado começou a pedir mudanças? Ou ainda estava em período de transição?

Mimi

Estava em vigor, mas com um prazo de implementação até 13 de outubro. O mercado pediu para adiar esse prazo para 4 de janeiro.

Mark

E qual é o problema real? A proibição de comprar direitos judiciais ou a exigência de transparência?

Mimi

Os dois, mas por razões diferentes. A proibição afeta o modelo de negócio. A transparência afeta a competitividade — revelar cedentes e valores é informação estratégica.

Luke

Quando você diz "informação estratégica", está falando da perspectiva dos gestores. Mas do ponto de vista regulatório, por que essa informação não deveria ser divulgada?

Mimi

Porque, segundo o mercado, isso coloca dados sensíveis nas mãos dos concorrentes. Mas o governo diria que é exatamente para evitar fraudes e lavagem de dinheiro.

Mark

Os bancos estão sujeitos às mesmas restrições?

Mimi

Não. As restrições valem apenas para os FIDCs, não para as tesourarias dos bancos. Isso é um ponto de frustração para o mercado.

Luke

Então o mercado está argumentando que a medida é ineficaz porque as operações podem migrar para estruturas menos reguladas?

Mimi

Exatamente. Se os FIDCs não podem fazer, o mercado pode usar FIPs ou outras estruturas. E essas podem ser menos transparentes.

Mark

O governo respondeu aos pedidos?

Mimi

Não há indicação de resposta até agora. O mercado levou os pedidos à Fazenda, BC, CVM e AGU, mas o resultado ainda é incerto.

Luke

E o prazo de 13 de outubro — ele foi respeitado ou adiado?

Mimi

A fonte não diz. O artigo foi publicado em 30 de setembro, então o prazo estava muito próximo quando foi escrito.

  • Resolução proíbe FIDCs de comprar direitos sobre ações judiciais não finalizadas, com prazo de 13 de outubro
  • Mercado pede adiamento para 4 de janeiro e criação de grupo de trabalho com governo
  • Restrições valem apenas para FIDCs, não para tesourarias de bancos
  • Exigências incluem divulgação de cedentes, contrapartes e valores dos ativos

A resolução proíbe FIDCs de comprar direitos sobre ações judiciais não finalizadas, com prazo de 13 de outubro para implementação. Associações pedem suspensão ou adiamento para 4 de janeiro e criação de grupo de trabalho com governo e mercado para discutir impactos.

Executivos do mercado financeiro solicitam ao governo mudanças na resolução que alterou regras dos FIDCs, argumentando que as restrições a investimentos em direitos judiciais e exigências de transparência podem prejudicar o setor.

O mercado financeiro acordou em setembro com uma surpresa desagradável: uma resolução que reescrevia as regras dos FIDCs — fundos de investimento em direitos creditórios — havia chegado sem aviso prévio. Executivos de grandes casas de crédito e gestoras de investimento se mobilizaram rapidamente, levando seus pedidos de mudança ao Ministério da Fazenda, ao Banco Central, à CVM e à Advocacia-Geral da União. O que eles queriam era simples: suspender a nova regra ou, no mínimo, adiar sua entrada em vigor.

O cerne da disputa era uma proibição específica. A resolução vedava aos FIDCs a compra de direitos sobre ações judiciais ou arbitragens que ainda não tivessem transitado em julgado — ou seja, processos ainda em andamento. O prazo para essa mudança entrar em vigor era 13 de outubro. O mercado pedia que esse prazo fosse empurrado para 4 de janeiro, ganhando tempo para negociar. Guilherme Setoguti, advogado e presidente da Associação Brasileira de Special Situations, articulou o pedido junto com a ABVCAP e a ANFIDC. Ele sugeriu que, nesse intervalo, o governo criasse um grupo de trabalho com representantes do setor para discutir os impactos reais da medida — um procedimento que o governo costumava adotar em situações semelhantes, mas não havia feito desta vez.

O mercado reconhecia o objetivo por trás da resolução. As associações publicaram um comunicado dizendo que compartilhavam "o objetivo de fortalecer a prevenção à lavagem de dinheiro e a integridade do sistema financeiro". Mas, argumentavam, esse objetivo deveria conviver com segurança jurídica, previsibilidade regulatória e preservação de atividades econômicas legítimas. Não era uma rejeição frontal; era um pedido de equilíbrio.

A resolução também impunha novas exigências de transparência. Os FIDCs teriam de precificar seus ativos usando verificação externa e auditoria, além de reavaliá-los sempre que fatos relevantes surgissem. Setoguti considerava isso razoável. O problema estava em outra camada: a exigência de que os fundos divulgassem os nomes dos cedentes — quem vendeu os direitos creditórios — as contrapartes envolvidas e os valores pelos quais os ativos foram comprados. Essas informações eram consideradas estratégicas. Gestores temiam que revelar esses dados colocasse informações sensíveis nas mãos dos concorrentes.

Um gestor de special situations resumiu a tensão assim: "Está claro que a norma foi feita para combater fraudes, mas a questão é a proporção: o que é realmente necessário para evitar irregularidades e o que só vai destruir o mercado". Setoguti ecoava a preocupação. A proibição de comprar direitos judiciais não finalizados, ele argumentava, poderia simplesmente deslocar essas operações para outras estruturas menos transparentes, como os FIPs — fundos de investimento em participações. "Algumas estruturas são menos transparentes que os FIDCs. Proibir apenas esses fundos de fazer alguns tipos de investimento não é o que vai resolver a fraude."

Havia também uma questão de competição implícita. Os gestores observavam que as restrições valiam apenas para os FIDCs, não para as tesourarias dos bancos. Isso significava que os grandes bancos poderiam continuar fazendo operações que os FIDCs agora não podiam fazer. O efeito prático seria concentrar ainda mais poder nas mãos das instituições bancárias tradicionais, enquanto o mercado de fundos especializados em crédito seria constrangido. A resolução, vista por esse ângulo, não era apenas uma questão de regulação prudencial — era uma questão de estrutura de mercado.

O que aconteceria a seguir dependeria de como o governo responderia aos pedidos. A mobilização do mercado havia sido rápida e coordenada, mas a resolução já estava em vigor. O prazo de 13 de outubro se aproximava. A questão era se o governo veria mérito nos argumentos do setor ou se manteria o curso, considerando que as mudanças eram necessárias para proteger a integridade do sistema financeiro.

A norma foi feita para combater fraudes, mas a questão é a proporção: o que é realmente necessário para evitar irregularidades e o que só vai destruir o mercado
— Gestor de special situations
Compartilhamos o objetivo de fortalecer a prevenção à lavagem de dinheiro e a integridade do sistema financeiro, mas entendem que ele deve conviver com segurança jurídica, previsibilidade regulatória e preservação de atividades econômicas lícitas
— Associações (ABBS, ABVCAP, ANFIDC)
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