EMS, Hypera e Eurofarma lançaram versões nacionais de semaglutida com preços entre R$ 287 e R$ 452 mensais, versus R$ 999-3.499 dos importados. Governo Lula planeja disponibilizar canetas emagrecedoras no SUS; mercado paralelo deve diminuir com redução de preços.
Mercado de canetas emagrecedoras dispara com genéricos 30% a 50% mais baratos
Proteger a indústria local pode acabar prejudicando o acesso
Por que a queda da patente em março foi tão importante? Parece que tudo mudou muito rápido depois disso.
Porque antes disso, havia apenas os produtos originais importados, com preços muito altos. Quando a patente caiu, qualquer laboratório nacional podia produzir a mesma molécula. Dezesseis produtos foram registrados em poucos meses.
Mas espera — esses 16 produtos são realmente diferentes um do outro, ou são basicamente a mesma coisa com nomes diferentes?
Muitos usam a mesma molécula de semaglutida, mas alguns usam moléculas similares. A Eurofarma usou a mesma do Wegovy, enquanto outro desenvolveu algo similar ao Ozempic. Não são idênticos.
E o preço caiu quanto exatamente?
De 30% a 50%. A Ozivy sai por R$ 287 a R$ 300 mensais em pacotes de 90 dias, enquanto o Ozempic custa R$ 999 por aplicação.
Mas o Mounjaro ainda domina 65% do mercado, certo? Porque tem patente até 2036.
Exatamente. Então apesar de toda essa competição nova, um único produto ainda controla a maior parte da receita.
E o governo quer colocar isso no SUS?
Lula anunciou que quer, mas sem cronograma definido. É uma intenção, não um plano concreto ainda.
Agora, sobre a EMS pedindo aumento de tarifa — isso é protecionismo puro, certo?
A EMS argumentaria que é proteção da indústria nacional. Mas o Sindusfarma discorda, dizendo que o caminho é reduzir custos de produção, não aumentar custos de importação.
E se a tarifa aumentar, o que acontece?
Segundo um representante de empresa que seria atingida, o mercado pirata fica mais forte, não mais fraco. Porque os preços legais ficariam mais altos.
É um dilema real. Proteger a indústria local pode acabar prejudicando o acesso que se busca expandir.
Le Pouls
- 16 produtos genéricos de semaglutida registrados pela Anvisa em 2026
- Preços 30-50% menores: R$ 287-452 mensais versus R$ 999-3.499 dos importados
- Mercado movimentou R$ 10,1 bilhões em oito meses de 2026
- EMS pediu aumento de 108% na tarifa de importação (de 7,2% para 15%)
- Mounjaro representa 65% da receita do segmento, protegido até 2036
EMS, Hypera e Eurofarma lançaram versões nacionais de semaglutida com preços entre R$ 287 e R$ 452 mensais, versus R$ 999-3.499 dos importados. Governo Lula planeja disponibilizar canetas emagrecedoras no SUS; mercado paralelo deve diminuir com redução de preços.
Após expiração da patente da semaglutida em março de 2026, 16 produtos genéricos foram registrados pela Anvisa, com preços 30-50% menores que originais, movimentando R$ 10,1 bilhões em oito meses.
Em março de 2026, a patente da semaglutida expirou no Brasil, e o que se seguiu foi uma corrida acelerada entre laboratórios nacionais para capturar um pedaço de um mercado que já movimentava bilhões. Pelo menos 16 produtos similares e genéricos foram registrados pela Anvisa apenas neste ano, transformando o que era antes um segmento dominado por importações caras em um campo aberto de competição. A EMS foi a primeira a chegar, lançando a Ozivy em junho. A Hypera Pharma seguiu com a Semavy, sob a marca Mantecorp, um produto que analistas do Itaú BBA estimam poder gerar R$ 359 milhões em receita líquida para a empresa em seu primeiro ano completo de vendas — o equivalente a 4% da receita total projetada da Hypera para 2027. A Eurofarma entrou com a Poviztra, enquanto outro laboratório desenvolveu a Extensior usando uma molécula similar à do Ozempic.
Os preços caíram dramaticamente. A Ozivy chega às farmácias a partir de R$ 452 por aplicação, podendo custar entre R$ 287 e R$ 300 mensais em pacotes de 90 dias. A Mantecorp é encontrada por R$ 333. Esses valores representam uma redução de 30% a 50% em relação aos produtos originais importados — o Ozempic e o Wegovy custam cerca de R$ 999 cada, enquanto o Mounjaro varia entre R$ 1.422 e R$ 3.499. Nos oito primeiros meses de 2026, o mercado brasileiro de medicamentos à base de GLP-1 movimentou aproximadamente R$ 10,1 bilhões, segundo dados de mercado. Ainda assim, o Mounjaro, protegido por patente até 2036, representa cerca de 65% dessa receita total.
A queda de preços abre acesso a uma população que antes não conseguia pagar. Sergio Mena Barreto, presidente da Abrafarma, que representa as drogarias do país, vê a chegada dos genéricos como positiva: há uma parcela significativa da população que se beneficiará desses novos produtos justamente porque os preços anteriores eram proibitivos para muitas famílias. O governo também enxerga oportunidade. Há duas semanas, o presidente Lula anunciou, durante visita ao complexo industrial da Eurofarma em Montes Claros, Minas Gerais, que medicamentos injetáveis para obesidade devem ser disponibilizados gratuitamente pelo SUS, embora sem detalhar um cronograma específico. Andréa Frazão, diretora de prescrição médica da Eurofarma, reforça que cerca de 25% da população brasileira vive com obesidade e mais de 60% está acima do peso, tornando a expansão de acesso uma questão de saúde pública.
Com preços mais acessíveis, espera-se que o mercado paralelo de canetas emagrecedoras piratas diminua. Esse mercado clandestino é alimentado por contrabando do Paraguai e por laboratórios irregulares operando em condições precárias dentro do país. Mas a competição doméstica está longe de ser simples. A EMS, a maior farmacêutica do Brasil, pediu à Câmara de Comércio Exterior em setembro que a alíquota de importação das canetas prontas do exterior suba de 7,2% para 15% — um aumento de 108%. Se aprovado, esse movimento atingiria concorrentes como a Novo Nordisk, dona do Ozempic e Wegovy, além da Hypera, Sandoz e Eurofarma.
A proposta gerou reação imediata. O Sindusfarma, sindicato que representa a indústria farmacêutica, declarou à Folha que apoia a ampliação da produção nacional, mas que o caminho correto é reduzir o custo de produzir no Brasil, não aumentar o custo de quem importa. Nelson Mussolini, presidente da entidade, afirmou que se for consultado pela Camex, o sindicato será contrário ao aumento. Renato Porto, presidente da Interfarma, alertou que diferenciações tributárias podem prejudicar um mercado saudável em vez de ajudá-lo. Um representante de empresa potencialmente atingida pela medida advertiu que elevar custos de produção poderia fortalecer justamente o mercado pirata que se busca combater.
O Grupo FarmaBrasil defendeu a preservação do equilíbrio, argumentando que as empresas precisam de segurança jurídica e previsibilidade para tomar decisões de investimento. Reginaldo Arcuri, presidente do grupo, destacou que é necessário saber qual será o prazo de proteção para medicamentos que entrarão no mercado após a expiração de patentes. Os números sugerem que essa disputa é apenas o começo: segundo a Abifina, cerca de 1.500 patentes de princípios ativos e processos industriais vinculados a aproximadamente mil medicamentos vão expirar nos próximos anos, representando um mercado potencial total estimado em dezenas de bilhões de reais. A decisão sobre como regular esse processo — se por proteção tarifária ou por competição aberta — moldará não apenas o mercado de semaglutida, mas o futuro do acesso a medicamentos no país.
Citations marquantes
Há uma parcela da população que vai se beneficiar desses novos produtos, já que hoje não conseguem comprá-los pelo preço proibitivo— Sergio Mena Barreto, presidente da Abrafarma
O caminho para fortalecer a indústria local é reduzir o custo de produzir no Brasil, e não aumentar o custo de quem importa— Sindusfarma